“Rolezinho”, un acto de resistencia política -Por Stephanie Ribeiro

Rolezinho, um ato de resistência política

Nunca imaginei que uma ida ao shopping seria vista como um ato de resistência política. Os chamados “rolêzinhos”, noticiados pelos meios de comunicação desde dezembro de 2013, consistem em uma simples visita de jovens, em grupos, aos shopping centers. Algo comum, já que o grande contingente de frequentadores destes espaços são jovens. Porém, o que despertou a revolta de algumas pessoas em relação a estes “rolêzinhos” foi o tipo de jovem que o está realizando: pobres e, em sua maioria, negros.

O ápice da revolta gerou atitudes de repressão contra a circulação de jovens, e uma liminar para impedir o “Rolezaum no Shoppim”, evento marcado por meio do facebook, para o ultimo sábado, 11 de janeiro, no Shopping JK Iguatemi, um símbolo do luxo e da ostentação da elite paulistana. O evento, por sinal, foi criado como forma de protesto e gerou portas blindadas por policiais e presença de um oficial de justiça na frente do local. E a agressividade no outro extremo da cidade, no shopping Metrô Itaquera, onde houve bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e detidos pela Polícia Militar.

São consequências do incômodo que os pobres e negros, até então “escondidos” podem causar, quando resolvem retomar seu direito à cidade . Esta que é instrumento de opressão desde a pólis grega, não esconde sua configuração segregadora que se divide em Casa Grande, atualmente os bairros centrais, e Senzala, que é representada pela periferia distante. Já é uma regra para a sociedade brasileira, não uma exceção, varrer o que não agrada para debaixo do tapete.

O mapa acima, feito por sociólogos da UERJ, ilustra um pouco dessa segregação espacial. Essa atitude de “limpeza” é ampliada quando há a invasão de shoppings em áreas até então desvalorizadas da cidade. É um jogo de consequências, que começa quando um grande empreendimento que vende como propaganda lazer, entretenimento e consumo se instala num ambiente carente de espaços públicos e enfraquece por conta da sua estrutura o comércio local, criando uma situação de dependência desses moradores. Por outro outro lado, esse mesmo espaço nega os moradores da região e valoriza a terra ao seu redor, criando um processo de expulsão daqueles que não conseguem lidar com o aumento dos IPTUs. Em outras palavras estão “agregando valor” para mudar a cara, da periferia.

O que não imaginavam é que surgiriam os chamados “rolêzinhos”, que geraram a necessidade imediata de “limpeza”, da forma como já se é acostumado a fazer, pois não é de hoje que se escutam denúncias contra estabelecimentos devido ao mau atendimento, ou a negação desse, para negros e/ou pobres. Contudo, a revolta é a ainda maior quando se justifica que, para se prevenir arrastões, é necessário proibir rolezinhos, restringindo o direito de ir e vir e a liberdade de expressão de jovens em vista de um crime que não aconteceu.  Equivale a culpá-los por antecipação, à semelhança do uso constante de expressões como “tem cara de bandido”, cuja procedência racista e elitista dispensa comentários.

Devemos resistir, pois somos empregadas da mulher branca de classe média alta, e ela está nos dizendo que não deveríamos estar lá, porque aquele não é o nosso lugar.

 

http://www.canalibase.org.br/rolezinho-um-ato-de-resistencia-politica/Dizem que deveríamos estar no quartinho da empregada, segundo a lógica da nossa sociedade. Mas não queremos e não vamos obedecer, vamos resistir cobrando espaços públicos; fiscalização pra esses grandes empreendimentos que se espalham tão facilmente, como é o caso dos shoppings; uma cidade que não seja segregadora social e espacialmente. Por fim, vamos reafirmar nosso lugar, que é nos shoppings, nas cidades, nas ruas ou em qualquer local que seja da nossa vontade, pois somos livres.

 

Rolezinho, um ato de resistência política