Zé Maria de Al­meida, candidato a presidente por el PSTU (Brasil): “Somos once los aspirantes a la presidencia, no apenas tres”

“Somos 11 candidatos à presidência e não apenas três”, lembra Zé Maria

Pela quarta vez, Zé Maria de Almeida é o candidato do PSTU à pre­sidência da República. Em épocas em que todos os tipos de fé parecem tomar conta das campanhas, Zé professa a sua: “Minha fé é na luta dos trabalhas­dores e na sua força pra mudar o mun­do, mais nada”.

Zé Maria, que também é presidente nacional do partido, começou sua vida nas greves dos anos de 1970 e 1980; fez parte do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André; foi membro da CUT e um dos fundadores do PT – partido em que militou até o início da década de 1990.

Por não concordar com os rumos que o PT havia tomado, fundou, em 1994, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU): “O que você viu em 2002 foi uma conclusão de um processo que começou ainda na década de 1980”.

Na primeira de uma série de entrevistas que o Brasil de Fato fará com os pre­sidenciáveis do campo da esquerda, Zé Maria conta como o PSTU vê o processo democrático no país e afirma que as mu­danças que o partido propõe para o Brasil “são mais simples do que se pensa”.

Brasil de Fato – O que seria um regime ideal para ser implantado no Brasil, de acordo com o PSTU hoje?

Zé Maria – Defendemos outra forma de organização da sociedade, que seja igualitária, justa e que não haja violên­cia contra o povo. Essas são mudanças profundas, mas são mais simples do que se pensa. Temos que suspender o repas­se de recursos públicos para os bancos e grandes empresas e acabar com a pro­priedade privada no país. Mais de 40% do orçamento federal vai para os ban­cos. Parar o pagamento dessa dívida in­terna e externa. Se tomarmos os dados do Banco Central, do Ministério da Fa­zenda e do Tesouro Nacional e somar­mos tudo que entra no Brasil de recur­sos externos e tudo que sai; a conclu­são é que sai mais dinheiro do que en­tra. Se pararmos de pagar essa dívida e, em função disso, acontecer uma ruptura e não entrar mais nenhum tostão aqui, mas também não deixarmos sair, vai so­brar mais dinheiro. Veja também os pri­vilégios das grandes empresas. As mon­tadoras de veículos receberam do go­verno brasileiro quase R$ 30 bilhões de subsídios fiscais nos últimos 10 anos. Mandaram pra fora do país mais de 10 bilhões de dólares e no primeiro sinal de queda de venda de carro, são 25 mil fun­cionários ameaçados de perder seu em­prego. Chegam a milhares as demissões no setor de autopeças. Por último, é pre­ciso que criemos outras instituições pa­ra que se governe e haja uma democra­cia efetiva no país. Para nós, o socialis­mo pressupõe também democracia, li­berdade e controle por parte dos traba­lhadores. Não defendemos que o gover­no seja de um partido. Eu tenho muito orgulho do PSTU, mas ele nunca vai re­presentar o conjunto, ele sempre vai re­presentar uma parte e quem tem que governar o conjunto são instituições que representem o conjunto.

O debate econômico nas três principais candidaturas está alicerçado sob o tripé macroeconômico e a autonomia do Banco Central. Como o PSTU vê essas questões?

El problema con esta discusión es que es retórica. Lo que existe es una discusión entre dar una autonomía formal al Banco Central, pero la situación actual también es controlado por el sistema financiero antes de Cristo. El gobierno federal no toma ninguna política que responda eficazmente a los intereses de los bancos. Descargado es el interés al principio del gobierno de Dilma, se ha levantado de nuevo. Si hay una dependencia o independencia del banco central formal es figura pura retórica.

O PSTU é a favor de um imposto pras grandes fortunas?

Não basta aumentar imposto sobre as grandes fortunas, é preciso acabar com as grandes fortunas, porque ninguém a acumulou com seu próprio trabalho. Na medida em que estatizamos as grandes empresas e o sistema financeiro, eu re­tiro as grandes fortunas da mão de seus proprietários. Se você for discutir a es­trutura tributária adotada no país, ela tem que mudar, mas isso é uma medida transitória, enquanto não houver a abo­lição da grande propriedade no país. Os lucros dos patrões têm que voltar para a sociedade.

Como você vê a presença de Marina Silva nessas eleições?

Não acreditamos que a resposta de um governo dos trabalhadores venha através da Marina. Ela se apresenta como o no­vo, que não tem nada a ver com essa ban­dalheira, mas tem afirmado que quer go­vernar com todo mundo, com banqueiro, empresário e com os trabalhadores e é exatamente isso que o PT fez. Além disso, foi na gestão dela no Ministério do Meio Ambiente que se liberou a floresta Ama­zônica para o arrendamento pra madei­reiras estrangeiras e os transgênicos. Por último, os técnicos que montaram o pro­grama econômico da Marina são todos do PSDB. Ela tem grandes empresas do seu lado, como a Natura e o Itaú.

No final da década de 1990 houve o início de uma ascensão da esquerda no poder em todos os países da América do Sul. Em 1999, Hugo Chávez conseguiu apoio popular para lançar um regime de refundação da Venezuela, com uma nova Constituição e mudanças estruturais. O Lula em 2002 não conseguiu esse apoio e teve que firmar pactos com a elite. Qual o motivo dessas diferenças em países tão próximos?

É preciso relativizar o que aconte­ceu na Venezuela, Bolívia e Equador. A Venezuela vive uma crise social imen­sa, não há alimentação para o povo. Es­sa crise ocorre porque apesar da retóri­ca do Chávez e dos atritos que ele tem com o imperialismo, ele não mudou a estrutura econômica do país. Não há uma ruptura com a estrutura capitalis­ta de sociedade e de governo. A manu­tenção da propriedade privada na Ve­nezuela é o que faz com que um país ri­co viva uma situação daquela, o povo está sem acesso a alimentos. Os empre­sários controlam a economia do país até hoje. No Brasil qual é o problema? O Lula precisaria fazer os acordos que fez pra governar? Não, eu acho que o PT fez uma escolha errada, mas não é de agora. Na década de 1980, tínhamos uma mobilização imensa e o PT era am­plamente hegemônico no segmento da classe trabalhadora que estava em lu­ta. Se naquele momento o partido es­colhesse fortalecer o processo de mo­bilização e de luta pra forçar uma mu­dança na estrutura econômica no país, nós teríamos hoje um Brasil completa­mente diferente. Mas ele escolheu bus­car acordos com o grande empresaria­do para tentar ganhar as eleições. A eleição não é o único caminho pra mu­dar o país. A Rede Globo mostra todos os dias no Jornal Nacional três candi­daturas, a Dilma, a Marina e o Aécio, mas são 11 candidaturas. É dessa for­ma, com financiamento milionário de um lado e com a utilização da mídia, de outro, que o grande empresariado constrói o resultado das eleições.

Os governos Dilma e Lula promoveram uma aproximação do Brasil com os países da América do Sul e isso é motivo de críticas da direita nacional. Por outro lado, são várias as acusações de que o Brasil é imperialista contra seus vizinhos. Como você vê essa relação? É a favor da construção do porto de Mariel, em Cuba, por exemplo?

O Brasil voltou um pouco mais sua di­plomacia para a América Latina. O pro­blema é: com que interesses? Achamos que a aproximação foi em função dos interesses dos grupos econômicos que controlam a economia do Brasil. O go­verno foi um menino de recado, foi um instrumento para ampliar os negócios das grandes empresas pelo mundo. A Petrobras na Bolívia faz as mesmas coi­sas que as montadoras de veículos fa­zem com o trabalhador brasileiro. So­bre o porto de Mariel, eu não sei qual a importância desta obra para o povo de Cuba, eu tenho medo de que este porto seja mais importante para as empresas que querem comercializar com Cuba. Eu veria com muito mais bons olhos se o governo brasileiro se dispusesse a finan­ciar programas sociais em Cuba, que es­tá sofrendo sérios problemas. O governo de Fidel Castro, ao invés de expandir a revolução para a América Central, man­teve a revolução em Cuba e deu no que deu. Hoje, boa parte dos setores eco­nômicos de Cuba já são explorados por multinacionais, por empresas privadas; isso vai fazer com que o povo de Cuba volte a ser escravo do grande capital co­mo nós somos.

Sobre as grandes obras que acontecem no Brasil, transposição do rio São Francisco e hidrelétricas de Belo Monte e Santo Antônio, qual a sua opinião?

Essas obras não fazem sentido. A trans­posição do São Francisco vai atender as grandes empresas que exportam frutas no Nordeste, o povo vai ficar na mesma situação. Em vez de uma obra que es­tá custando os tubos, era necessário fa­zer milhares de pequenas obras de cister­nas que permitissem ao povo aproveitar a água da chuva, que é periódica. Se ele conseguir armazenar essa água, ele vai ter seu problema resolvido. Temos que desenvolver através das universidades, da Embrapa e das empresas públicas, projetos e atividades econômicas que se­jam adequadas para aquele tipo de ter­ra, de solo, de clima. As grandes hidrelé­tricas no Norte do país têm dois proble­mas fundamentais: afeta de uma forma inaceitável o meio ambiente e estão mui­to longe de onde se consome mais ener­gia elétrica no país. Ao invés dessas gran­des obras, deveríamos construir cente­nas de pequenas hidrelétricas, causando um prejuízo muito menor para a nature­za, mas produzindo mais energia e mais próxima dos grandes centros consumi­dores e investir em fontes alternativas.

Sobre direitos humanos, qual a sua posição sobre aborto, legalização das drogas e Polícia Militar?

Somos a favor da legalização do aborto. A mulher tem o direito de exercer a sobe­rania sobre seu corpo. Se por alguma cir­cunstância ela ficou grávida e não pode ou não quer manter a gravidez, o Esta­do tem a obrigação de assegurar o direito dela de fazê-lo. É errada a política atual de combate às drogas baseada na violên­cia, na repressão policial, na penalização. Ao criminalizar a droga, o Estado dá ao crime organizado o monopólio do comér­cio dela no país, isso significa um poder econômico imenso ao crime organizado, que ele usa para corromper a polícia, as autoridades. Achamos que tem de legali­zar as drogas, mas regular a distribuição com um monopólio do Estado no forne­cimento, com acompanhamento médico e apoio psicológico. É preciso acabar com a PM. Ela é uma criação da ditadura, que é formada até hoje da mesma forma. Te­mos que ter uma polícia única, em que os chefes sejam eleitos pela comunidade e que seja controlada por ela também. Ho­je, a polícia serve para ser segurança dos interesses de quem tem, de quem contro­la a sociedade, e agride trabalhador em greve, os jovens que estão protestando nas ruas e barbariza a vida do povo po­bre na periferia.

Mesmo depois de 12 anos do PT no poder, a esquerda brasileira não conseguiu criar uma alternativa real para disputar a eleição e pautar assuntos necessários para o país. Qual o motivo disso?

A força da esquerda socialista não po­de ser medida só pelas eleições, o re­sultado dela se dá de forma muito de­formada, tanto pelo poder econômico quanto pela interferência da mídia. Ho­nestamente eu te diria que está avan­çando a força da esquerda socialista no país naquilo que é fundamental: na lu­ta dos trabalhadores. Há um processo de radicalização das greves que passa­ram por cima dos sindicatos por todo o Brasil. É através da luta que vamos mu­dar o país. Nós estamos disputando vo­tos e quanto mais votos tivermos, mais fortalece a nossa luta, mas nós não nos pautamos por esses critérios para defi­nir o avanço da esquerda socialista. Nós tivemos reuniões com o PSOL e firma­mos acordos estaduais com eles. No âm­bito federal, tivemos uma reunião em que apresentamos as nossas propostas de colocar as eleições em função da lu­ta do povo e nos disseram de volta que não poderiam ficar defendendo essas posições radicais demais porque dificul­ta a disputa do voto. Além disso, o PSOL pegou R$ 50 mil do grupo Zaffari, que é a quinta maior rede de supermerca­dos do país, com mais de 9 mil funcio­nários e um faturamento de quase R$ 5 bilhões, para as campanhas da Lucia­na Genro e do Robertinho no Rio Gran­de do Sul. Uma coligação nesses moldes seria apostar na tragédia que foi o PT. Com o PCB, já foi outra a razão; eles op­taram por lançar uma candidatura por­que é um partido que tem pouca presen­ça no movimento social e precisava de representação, o que, na minha opinião, é legítimo, eles têm esse direito e eu não vou questionar.

Brasil De Fato