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Dois meses de uma tragédia

A maior tragédia sócio-ambiental do Brasil completou dois meses no dia 5 de janeiro. Mariana, a primeira vila e capital de Minas Gerais, chegou a ser a maior produtora de ouro para a coroa portuguesa no século XVII. E agora, no século XXI, sua história fica marcada pela lama da mineração.

O desastre impressiona. Os 62 milhões de metros cúbicos de lama da Samarco/Vale/BHP Billiton atingiram pessoas, comunidades, rios, fauna e flora de toda uma importante bacia hidrográfica. Além de 17 pessoas encontradas mortas, outros dois trabalhadores permanecem desaparecidos. O distrito de Bento Rodrigues foi destroçado pela lama, teve seus quase 600 moradores desalojados de suas casas e de suas histórias. São muitas as comunidades, como Paracatu e Barra Longa, que não tiveram repercussão na grande mídia, mas grande destruição na vida de centenas de famílias.

São incontáveis os atingidos: os pescadores do Rio Doce perderam emprego, os trabalhadores da Samarco estão com seus empregos ameaçados, diversos pequenos comércios na beira rio não mais existem. As cidades que dependem da captação de água do Rio Doce ainda hoje têm receios e problemas de fornecimento de água à população. Os serviços de saúde e assistência social estão sobrecarregados. As escolas estão paralisadas. O Movimento dos Atingidos por Barragens calcula em pelo menos um milhão o número de pessoas atingidas.

Sobre os 700 km do rio Doce, na opinião de Luciano Magalhães, diretor do SAAE (Serviço de Autônomo de Água e Esgoto) de Baixo Guandu, “a situação pode ser resumida em duas palavras: rio morto”. Após análises laboratoriais da água, foram encontradas partículas de metais pesados, como chumbo, alumínio, ferro, bário, cobre, boro e mercúrio. Rio morto, peixes mortos, fauna ribeirinha morta. Até o arquipélago de Abrolhos, que congrega a maior diversidade biológica marítima do Atlântico Sul, está ameaçado.

A Rede Nacional dos Médicos e Médicas Populares mantém uma brigada de solidariedade permanente desde início da tragédia e alerta os riscos à saúde. A depressão e ansiedade, que podem provocar outras doenças físicas, somados aos riscos de contaminação com os rejeitos, prometem acompanhar, por um longo tempo, os atingidos e os trabalhadores da saúde das regiões afetadas.

O panorama é sombrio. Como é sombria a apatia dos governos, diante da mineração, que há 500 anos garante lucros privados e deixa rastros de destruição no Brasil. Antes lucrava a coroa portuguesa, hoje lucram as empresas transnacionais. A Vale, privatizada em 1997, é isenta de impostos e paga míseros 2% sobre o lucro líquido obtido com minério de ferro, graças à Lei Kandir. E a BHP, empresa anglo-australiana, é a maior mineradora do mundo, em termos de receitas. Ambas comandam a Samarco que, em plena crise internacional, em 2014, registrou lucro de R$7,6 bilhões.

O desastre de Mariana não foi acidente e não tem preço. Foi um sintoma de um modelo de produção em que os interesses populares estão subsumidos aos interesses particulares.

Brasil de Fato