Lula é ‘objeto de grande injustiça’, afirma Dilma no Rio

A presidente Dilma Rousseff afirmou, no Rio de Janeiro, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é “objeto de grande injustiça”, em referência às denúncias de ocultação da propriedade de um apartamento triplex no Guarujá (SP) e de que a empreiteira OAS, investigada na Operação Lava Jato, fez a reforma de um sítio em Atibaia (SP) frequentado por ele e por familiares.

Foi a primeira vez que a presidente se manifestou sobre o assunto. Na manhã deste sábado, ela participou no Rio de ações da campanha nacional de combate ao mosquito Aedes Aegypti. Na noite anterior, esteve em São Paulo, onde se reuniu por cerca de duas horas com Lula. Segundo afirmou, a reunião “foi como sempre foi”.

“Converso sistematicamente com o presidente Lula. Acho que ele está sendo objeto de grande injustiça. Respeito muito a história do presidente Lula e tenho certeza que esse será um processo que será superado porque eu acredito que o pais, a América Latina e o mundo precisam de uma liderança com as características do presidente Lula”, declarou.

De acordo com o Blog do Camarotti, a manifestação de Dilma foi parte de uma estratégia que já tinha sido definida durante a semana no Palácio do Planalto e o ex-presidente sinalizou que, em breve, vai quebrar o silêncio e dar sua versão dos fatos publicamente. Já Dilma, avisou que iria defendê-lo, o que acabou fazendo neste sábado.

Na semana passada, o delegado da Polícia Federal Marlon Cajado enviou ofício à Justiça Federal no qual explicou a necessidade de abrir um novo inquérito da Operação Zelotes para apurar suposto envolvimento de “servidores públicos”, entre os quais Lula, no esquema de suspeita de venda de medidas provisórias investigado na operação.

No final de janeiro, Lula foi intimado a depor em investigação do Ministério Público de São Paulo sobre a transferência de prédios inacabados da Bancoop – cooperativa do sindicato dos bancários que se tornou insolvente – para outras empresas, entre as quais a empreiteira OAS, alvo da Operação Lava Jato. O MP-SP apura a suspeita de o ex-presidente Lula ter ocultado ser o dono de um triplex num desses prédios.

No último dia 9, o juiz Sérgio Moro autorizou a Polícia Federal (PF) a abrir um inquérito exclusivo para investigar as reformas do sítio de Atibaia frequentado pelo ex-presidente Lula e sua família. A polícia apura se as obras foram pagas por empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato.

Em todos os casos, a defesa do ex-presidente Lula nega que ele tenha cometido irregularidades enquanto estava na Presidência ou após ter deixado o Planalto.

Nesta semana, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, saiu em defesa de Lula em duas ocasiões. Segundo ele, o ex-presidente é alvo porque desafia o projeto político da oposição. Além disso, Cardozo também afirmou que há o interesse de setores da oposição de atingir a imagem de Lula porque ele é um político “muito forte” e um “grande líder”.
Nas duas vezes, Cardozo também afirmou que Lula age com “absoluta lisura” e ressaltou que as investigações relacionadas ao ex-presidente transcorrem com “autonomia”.

Dilma foi ao Rio de Janeiro na manhã deste sábado para participar de ações do Dia Nacional de Mobilização Contra o Aedes aegypti. Ela percorreu ruas de uma comunidade no bairro Santa Cruz, cumprimentou moradores, posou para fotos e visitou casas, acompanhada do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), do prefeito Eduardo Paes (PMDB) e de agentes de saúde.

O Globo

Oposição aposta em desgaste de Lula para tentar reacender impeachment de Dilma

Com o início efetivo dos trabalhos do Congresso nesta semana, a oposição pretende explorar o avanço das investigações que envolvem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tentar desgastá-lo, enfraquecer o nome do petista como candidato ao Palácio do Planalto em 2018 e ainda reacender o debate sobre o afastamento da presidente Dilma Rousseff, seja pela via do impeachment ou por uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de cassação da chapa composta com o vice-presidente Michel Temer (PMDB).

A primeira iniciativa concreta da estratégia será propor a convocação de Lula para depor na CPI que investigará denúncias de fraudes contra a Receita Federal por bancos e grandes empresas. As suspeitas são de que houve pagamento de propinas para manipular julgamentos do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) em casos de sonegação fiscal. A criação da CPI foi autorizada no início do mês pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), adversário do governo Dilma.

O líder da oposição, Miguel Haddad (PSDB-SP), diz que a convocação “é o único e mais eficiente instrumento” à disposição dos parlamentares para investigar o petista.

– É uma oportunidade de Lula se explicar. É uma obrigação de quem tem cargo público ou já ocupou, ainda mais quando é um ex-presidente – comenta.

O novo líder do DEM na Câmara, Pauderney Avelino (AM), diz que a convocação do ex-presidente é fundamental para mostrar que Lula “não está acima do bem e do mal”.

– O ex-presidente é um cidadão como outro qualquer, tem que dar explicações à sociedade – afirma.

O líder do PPS na Casa, Rubens Bueno (PR), menciona que, há muito tempo, Lula já deveria ter dado “respostas” à sociedade.

– O esforço dele deveria ser para que tudo seja esclarecido. Se não quiser, vamos chamá-lo – pontua.

Lula é alvo de apurações formais. A Operação Zelotes investiga, além das irregularidades no Carf, um esquema de “compra” de medidas provisórias em seu governo. O Ministério Público de São Paulo apura a suspeita de ocultação de patrimônio relacionada à compra de um triplex no Guarujá, no litoral paulista. Lula admite ter visitado o imóvel com o então presidente da empreiteira OAS, Léo Pinheiro, condenado à prisão, mas nega ser proprietário do apartamento.

Para governistas, a criação da CPI do Carf é a primeira ofensiva clara de Cunha contra o Governo neste ano. A aposta do Planalto e de aliados é, além de sair em defesa de Lula e Dilma no Congresso, avançar com a agenda econômica para sair da crise.

O presidente da Câmara nega afronta ao governo e afirma ter criado a comissão porque era a primeira da fila e tem fato determinado. Ele disse que o autor do requerimento de criação da CPI, João Carlos Bacelar (PR-BA), ficará com a relatoria da comissão. A presidência, disse, será escolhida após a eleição do líder do PMDB, marcada para quarta-feira – o cargo ficará com o bloco comandado pelos peemedebistas.

Limites

Cunha relatou à reportagem que, do ponto de vista regimental, há impedimento para se convocar Lula porque a apuração que o envolve não consta do requerimento de criação da CPI. Ele avaliou, porém, que essa será uma decisão “política” da comissão de inquérito, caso o pedido vá à votação.

– Mas acho que a base deverá impedir (a convocação) – ponderou, sem avaliar se concorda ou não com a convocação.

– Não posso ter opinião sobre isso. Não será minha a decisão – salienta.

Bacelar afirmou que a apuração envolvendo o ex-presidente não fez parte do pedido de criação da CPI.

– Meu requerimento não foi específico do Lula nem do processo da compra de MPs – limitou-se a declarar.

Aliado do Palácio do Planalto, o atual líder do PMDB e candidato à recondução, Leonardo Picciani (RJ), ressaltou considerar “cedo” para se falar em convocações na CPI.

A estratégia de utilizar CPIs para tentar desgastar Lula e o Governo não é nova. No ano passado, quatro pedidos para convocá-lo na CPI do BNDES e dois para ouvi-lo na da Petrobras não tiveram êxito.

Os oposicionistas também deverão usar as tribunas da Câmara e do Senado e cobrar explicações públicas do ex-presidente, que, antes do avanço das apurações, não era tão abertamente questionado.

A decisão de apostar em um desgaste de Lula pode ajudar a oposição a tentar resgatar a força do pedido de impeachment de Dilma. Governo e oposição avaliam que o processo de impedimento arrefeceu após decisão do Superior Tribunal Federal.

Para o líder do DEM, o Governo “se engana” ao achar que o movimento pelo afastamento de Dilma arrefeceu.

– Lula e Dilma estão umbilicalmente ligados, não tem como separar – avalia ele.

– O ano de 2015 não terminou – reforçou Bueno.

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