O ex-presidente do Uruguai e atual senador José Pepe Mujica disse que a crise política no Brasil pode levar a alguns retrocessos, mas que a luta deve continuar e que muitos dos direitos conquistados nos últimos anos serão mantidos. “A maioria dos progressos sociais que estão consagrados em nossas constituições (da América Latina) é fruto de mobilizações de organizações de esquerda, que em nenhum momento se deram como causa perdida e foram derrotadas, mas foram se conformando, e mudando a cultura da humanidade”, afirmou, durante entrevista coletiva no Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Paulo,

“O que se passa com a esquerda no Brasil agora é que provavelmente o povo brasileiro tenha de viver em uma conjuntura onde perca algum domínio social, que tenha conquistado nesse tempo, mas não vai perder tudo. Não se pode perder tudo, porque a própria direita tem de negociar, tem de ceder, assim é a história do homem”, disse Mujica.

Segundo ele, o avanço progressista dos últimos anos no continente foi uma conquista, uma maturação da luta social, e não uma conspiração pensada, como tem feito a direita no Brasil para colocar em marcha o golpe sob a luz da Constituição, que pretende tirar Dilma Rousseff da presidência. “Se olharmos 30, 40 anos para trás, podemos comparar com as ditaduras que vivemos. Os únicos derrotados são os que deixam de lutar. Isso posso dizer seguramente, porque a derrota é sentir-se impotente.”

Antes de responder perguntas dos jornalistas, Mujica falou por cerca de 20 minutos sobre a importância do exercício da política para a cidadania. Nessa abordagem, o ex-presidente destacou as contradições humanas e a necessidade da política para promover a negociação, a conciliação entre interesses diferentes. “O homem é um bicho que não pode viver sozinho, necessita da sociedade. Alguém já disse que só existe a família e o indivíduo, mas eu penso que existe a sociedade. E nós andamos pela vida com uma contradição: temos de lutar pela vida e pelo que queremos ao mesmo tempo. Esse momento histórico que vivemos é marcado pela contradição entre o egoísmo e a solidariedade, mas tem uma coisa que se chama consciência e ela nos permite enquadrar o egoísmo até certo ponto e assim transcender pela cultura e pela civilização”, afirmou.

Carregado de expressões de otimismo, Mujica entende que o Brasil, como o resto do mundo, passa por um momento de avanço da direita, mas isso não deve ser fator para desanimar o espírito de luta. “Nunca triunfamos definitivamente, temos de ter humildade estratégica. Na sociedade, existe um acúmulo de contradições; quando a direta se fortalece é porque há algo a favor”, disse.

“Primeiro, há uma crise econômica que é de caráter mundial muito forte. Há um crescimento muito lento da economia do mundo inteiro sob o terror do capital financeiro que está condenando também o capital produtivo. A burguesia financeira se equiparou à especulação. Diz-se que o capital financeiro precisa de liberdade de movimento e tudo o mais, mas tudo isso favorece a especulação”, disse.

De acordo com Mujica, por conta dos ditames neoliberais sobre os governos no mundo, as nações veem-se obrigadas a manter reservas cambiais que não podem ser aplicadas no desenvolvimento social, e esse é um dos efeitos deletérios do momento em que vivemos. Ele também disse que faltou mais comunicação entre os governos do PT e a população. “Um país que desenvolveu a classe média rapidamente e aumentou o seu poder aquisitivo não necessariamente amplia a consciência. E o que passa sempre na história humana é que a classe média tem medo de cair. Põe a culpa em algo, uns culpam o governo, outros, os comunistas”.

O ex-presidente disse também que “o problema da corrupção no Brasil não é um problema do PT, é um problema que alcança todo o sistema político, todos os partidos. E tem uma coisa imprópria no Brasil, eu não sei como se pode manejar um país com tantos partidos, com 30 partidos. São 30 projetos políticos? Não, isso esconde interesses pessoais mais do que causa ideológicas, e como fazer alianças assim, como se garante a maioria”, indagou, referindo-se ao caos político atual, com um Congresso Nacional dominado pelos interesses do capital.

Sobre a crise política na América Latina, afinal não é apenas no Brasil que a direita avança, Mujica comentou que não se trata “de nenhuma catástrofe”. Ele considera também que a direita se apropria de uma parte da crise para promover seus objetivos políticos, mas destacou que “agora é tempo de lutar”. Mujica define os partidos de esquerda como aqueles em que “prima a solidariedade sobre o egoísmo”. Ele também lembrou o período da ditadura no Uruguai (1973-1985), em que foi preso político, quando pertencia ao Movimento de Libertação Nacional Tupamaros. “Fiquei quase 14 anos em cana, e não me parece que isso tenha sido uma derrota.”

A forte atuação da grande mídia no golpe em marcha no país também foi alvo das reflexões do líder progressista. Ele disse que a direita tem o manejo dos grandes meios de comunicação e os utiliza para ganhar a consciência das pessoas. “E os defeitos do PT não são do PT, mas da sociedade brasileira”, afirmou ao criticar o presidencialismo de coalizão que marca o governo do país atualmente. “Há de se manter todo um sistema de alianças”, disse, mas a questão segundo ele não é fazer maioria ideológica. Ele também defendeu mudanças no sistema de representação política. “Suponho que um dia o Brasil se dará conta de que tem de mudar o seu contrato social, pois tudo isso hoje ajuda a agravar a corrupção.”

Na entrevista, Mujica também disse que a transmissão da sessão plenária na Câmara Federal que votou pela admissibilidade do processo de impeachment, no dia 17 de abril, é uma coisa “que fez mal ao Brasil como nação”. Ele se referiu à repercussão negativa da sessão na mídia internacional. E também disse que há muitas lições a aprender da crise. “Creio que os partidos progressistas devem aprofundar a democracia, devem ser menos piramidais, e mais horizontais, além de tomar decisões que os companheiros dos partidos entendam.”

Ao final, Mujica falou da legalização do aborto e da maconha no Uruguai, que seguem o legado de um país considerado vanguarda na América Latina. O Uruguai foi o primeiro país a estabelecer o voto da mulher e também a reconhecer a prostituição. “A lei de aborto é para defender vidas”, disse, destacando o benefício dessa lei para as mulheres mais pobres. Afirmou ainda sobre a maconha que a legalização “é o primeiro passo contra uma política estúpida, que permite o monopólio do narcotráfico”.

Rede Brasil Atual


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