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O jogo oculto de Dilma: a estratégia do não retorno

Quase dois meses depois do afastamento da presidenta Dilma Rousseff muito se tem debatido sobre as possibilidades de seu retorno. Movimentos sociais, parte da militância do PT e dos demais partidos de esquerda ainda acreditam na possibilidade de retorno em virtude do desgaste político do governo Michel Temer.

É bem verdade que Temer não teve sequer um único dia de trégua desde que assumiu o controle do governo. As gravações de Sérgio Machado e o pedido de prisão de Romero Jucá, Renan Calheiros e José Sarney feito pela PGR foram devastadores para o governo e jogaram ao vento qualquer esperança dos mais sensatos apoiadores do impeachment em ver o governo se alinhar com a opinião pública.

Por outro lado, Dilma Rousseff ficou completamente livre para sair às ruas, agitar a militância e criar uma agenda pública com financiamento próprio. O sucesso do financiamento coletivo para as suas viagens é uma bela demonstração de seu poder de mobilização. Isso tudo fez sua popularidade sair do volume morto e ela ganhou sobrevida política no campo das esquerdas.

Obviamente, a primeira pergunta que surge é: Dilma volta? A resposta é não. Porque sua estratégia é justamente não voltar.

Considero que os custos do retorno são tão elevados para ela e para o PT que a melhor estratégia é não retornar. Muitas pessoas podem pensar que esta estratégia, se é que seria uma estratégia, é desprovida de lógica, de racionalidade ou sequer tenha algum sentido. A ciência política, no entanto, já se debruça sobre este tipo de estratégia subótima e considera que além de racional ela pode ser perfeitamente plausível.

George Tsebelis, em seu livro Jogos Ocultos, parte do princípio de que sistemas eleitorais resolutos criam um ambiente muito favorável à ação estratégica e que toda representação política envolve jogos de dois níveis. Nesse caso, perder em um jogo pode significar ganhar em outro.

Vou me abster de entrar em detalhes sobre a teoria dos jogos e de utilizar os termos mais técnicos da ciência política. Vou estruturar a análise em dois pontos centrais que considerarei como jogos em níveis diferentes.

1) O Jogo do retorno: Tem sido sistematicamente divulgado que o retorno de Dilma é possível por meio da reversão do voto de alguns senadores. Este é um cálculo aritmético muito simplista, porque faz crer que basta conquistar a consciência de alguns senadores para que tudo seja revertido. É um conto de fadas.

Não se trata da consciência de ninguém. Nem se trata mais de distribuir cargos, esse período já passou, e agora só quem pode fazer isso é Michel Temer. Dilma está em uma situação muito frágil, pois ela tem pouco a oferecer em troca do apoio para o seu retorno. Sua única moeda de troca são as concessões. Falo de concessões políticas e ideológicas com custos altíssimos para Dilma.

As concessões políticas girariam em torno de pautas conservadoras e da dependência total ao Congresso, como já ocorre com Temer. No tocante às concessões econômicas, estas seriam ainda mais graves, pois colocariam Dilma e sua base em rota de colisão. Dessa forma, o retorno poderia trazer de volta o governo, mas não lhe daria nenhuma sobrevivência política porque representaria o extermínio de sua biografia.

2) O Jogo da sobrevivência: Diante dos altos custos em se manter no governo, ficar fora dele passa a ser uma estratégia viável de sobrevivência política. A popularidade de Dilma só aumentou depois que ela saiu do governo e a tendência é de que continue aumentando ainda dentro dos grupos sociais onde o PT sempre teve apoio.

Mas, se Dilma voltar ao governo terá de assumir todas as concessões que vão jogá-la contra esses setores. Quando ela propôs voltar à Presidência e convocar um plebiscito, claramente já era uma tentativa de organizar um retorno sem querer negociar concessões políticas e econômicas. No entanto, a conjuntura política não está aberta a este tipo de proposta. Ao contrário, em um cenário em que ambos os governos são frágeis (Dilma e Temer) há pouco espaço para negociação.

Diante destes dois jogos, as possibilidades de ganho imediato para Dilma são muito pequenas. Voltar ao governo pode trazer de volta os cargos, mais poder de negociar, retomar o controle de algumas agendas e do orçamento. Isso não é pouca coisa. Michel Temer enfrenta estes mesmos custos para a manutenção do governo, no entanto, para ele é um preço que pode ser pago. O único preço que não pode ser pago é a garantia de proteção contra a Lava Jato e o STF, pois a conjuntura não permite.

Os custos para Dilma são muito altos. Seu governo seria completamente atacado por sua base, sua popularidade voltaria para patamares baixíssimos e terminaria o governo com sua biografia destruída. A saída que ela encontrou é reforçar o discurso do golpe, recuperar sua biografia marcada pela resistência, organizar trincheiras sociais de oposição e garantir sobrevida política e poder de mobilização. Essa é uma estratégia de não retorno. Perder o jogo da concessão e ganhar o jogo da sobrevivência.

Para o PT, os dilemas são os mesmos, mas sempre com extrema dificuldade de resolução. Pois, o PT oscila perigosamente entre a concessão e a sobrevivência. A cúpula do partido sequer percebeu que o que está em jogo é a própria sobrevivência do partido.

Um exemplo desta desconexão com a conjuntura é a possibilidade de apoio a candidatura de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara dos Deputados. O PT ainda não percebeu que está à beira do abismo. Dilma já percebeu e se decidiu, ela não volta.

Vanuccio Pimentel. É doutor em Ciência Política (UFPE) e Diretor do IGPública.

Carta Capital