Impeachment: defesa de Dilma irá recorrer junto ao STF

Após a consumação do impeachment, com a divulgação do placar final da votação, o advogado de defesa de Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo, informou que irá recorrer junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) em duas ações distintas.

A primeira delas, que pode ser ajuizada ainda agora à noite ou nesta quinta-feira (1º), é um mandado de segurança que alega nulidade processual e incompatibilidade com a Constituição Federal em relação a alguns artigos levantados pela acusação.

Dentro de três ou quatro dias, ele deve ingressar com outro mandado para questionar o argumento de “justa causa” do impeachment.

“Há argumentos do processo que não foram vistos. Uma das acusações, no nosso entender, não tem mais amparo legal, que é o artigo 11 da Lei do Impeachment. O senador Anastasia [relator do processo de impeachment no Senado] foi além das acusações, fazendo uma ampliação do libelo na pronúncia. Além disso, outros vícios ocorreram, como o fato de os senadores terem dito desde o começo do processo que já tinham definição de voto, que era só uma questão de rito (…) Trata-se de uma ofensa substantiva ao devido processo legal”, argumentou o ex-ministro da Justiça.

Cardozo disse ainda que lamenta a decisão tomada pelo plenário e que “hoje é um dia triste para a democracia brasileira”. “É, seguramente, um golpe parlamentar. Por isso, vamos ao STF. Sei que não é uma discussão simples, porque há uma tese ainda muito forte, embora ultrapassada, de que o Supremo não pode rever processos de impeachment. Isso me parece equivocado. O que não poderia haver, na verdade, é uma revisão do mérito político, mas dos pressupostos técnico-jurídicos [poderia]”, concluiu.

O processo de impeachment foi finalizado após nove meses do início da tramitação, quando o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) – hoje afastado e aguardando votação em plenário sobre sua cassação –, autorizou sua abertura.

Oposição a Dilma

Senadores pró-impeachment também afirmaram que irão ingressar com ação junto ao Supremo, mas por motivo diverso: eles questionam o desmembramento da votação em duas perguntas, sob a alegação de que a Constituição Federal de 1988 vincula as penalidades de cassação e de perda das funções públicas por oito anos e que por isso não haveria possibilidade de fatiamento da consulta.

Na segunda votação, autorizada pelo presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski, após a apresentação de destaque pela defesa de Dilma Rousseff, o placar registrou vitória da defesa por 42 votos contra 36. Houve três abstenções.

“A Constituição é clara no sentido de não autorizar isso, tanto que, em 1992, Fernando Collor sofreu as duas penalidades. Por isso, não aceitamos que agora seja dado um tratamento diferente. Essa questão de ordem apresentada pela defesa jamais poderia ter sido recebida”, queixou-se o líder do Democratas (DEM) na Casa, Ronaldo Caiado (MT). A votação, tal qual a primeira, foi nominal e ocorreu via painel eletrônico.

A questão emergiu como mais uma controvérsia entre os senadores no tatame do impeachment nos últimos dias, quando a defesa de Dima começou a sinalizar a possibilidade de pedir uma votação em separado.

“Na verdade, as penas são autônomas e independentes, e não sou apenas eu que estou dizendo isso. O constitucionalista Michel Temer reconhece isso em um de seus livros”, disse Kátia Abreu (PMDB-TO), citando o agora presidente da República e colega de legenda.

Ela discursou em plenário na tarde desta quarta-feira (31) para defender a manutenção das funções públicas de Dilma e tentar convencer os senadores.

Dissidências

A vitória da defesa de Dilma Rousseff na segunda votação sinaliza também um racha na base aliada de Temer, pois 16 senadores pró-impeachment se posicionaram contra a perda das funções públicas da petista, incluindo o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), que, além de votar contra, discursou na tribuna tentando sensibilizar o plenário.

Além dele, Cristovam Buarque (PPS-DF), Edison Lobão (PMDB-MA), Raimundo Lira (PMDB-PB) e Telmário Mota (PDT-RR) estavam no grupo considerado “dissidente”.

A segunda votação contou ainda com três abstenções, que foram dos senadores Eunício Oliveira (PMDB-CE), Maria do Carmo (PR-SE) e Valdir Raupp (PMDB-RO).

“Acho que Dilma perdeu as condições de governar o país, por isso votei pelo afastamento. Já fizemos o nosso papel de dar uma oportunidade nova ao Brasil, mas, em relação à inabilitação dela, aí é outra questão. (…) Eu entendo que a Constituição diz que a penalidade pode ir ‘até’ a perda das funções públicas, tanto que o próprio presidente do STF aceitou o destaque apresentado pela defesa para fazer uma segunda votação”, disse Oliveira logo após a divulgação do resultado, sem dar muitas explicações sobre o próprio posicionamento.

Acordo?

O PMDB é, atualmente, o maior bloco partidário da Casa, com 19 nomes. Questionado se teria havido alguma orientação de bancada sobre o voto dos parlamentares da legenda, Oliveira negou.

“Não foi o PMDB que decidiu isso. Foram os partidos todos, foi uma coisa pluripartidária. (…) Não houve nenhum acordo, e sim sentimento por parte dos senadores aqui dentro da casa, já que o presidente autorizou a votação. Foi uma decisão que partiu da consciência de cada um, pois todos votaram livremente”, sustentou.

O líder do DEM na Casa, Ronaldo Caiado (GO), disse estar preocupado com a fissura ocorrida no PMDB. Em tom pejorativo, ele classificou a medida como um “acordão”.

“Isso está preocupando todos nós, porque se trata claramente de um acordo feito entre as bancadas do PMDB e do PT. Foi surpreendente. Nós não esperávamos de maneira alguma ver o apoio dos peemedebistas a essa reivindicação do PT”, declarou.

Cunha

Outra faceta levantada dentro da mesma questão é o precedente que o fatiamento da votação pode gerar diante de outros processos, como, por exemplo, o do deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), cuja cassação foi aprovada em comissão e aguarda apreciação em plenário.

O peemedebista é alvo de um processo político-disciplinar sob a acusação de ter mentido à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras a respeito da existência de contas no exterior.

A adesão de senadores do PMDB à manutenção das funções públicas de Dilma Rousseff foi interpretada como uma provável tentativa de livrar o correligionário da cassação.

A votação final que irá decidir os rumos políticos de Cunha tem sido uma das maiores quebras de braço na Câmara Federal. “Não tenho dúvidas de que essa lamentável decisão tomada hoje aqui pode beneficiar todos os outros parlamentares que tendem a ser cassados”, disse Ronaldo Caiado (DEM-GO), citando ainda o senador Romero Jucá (PMDB-RR), um dos parlamentares implicados nas investigações da operação Lava Jato.

Ele destacou também que agora se sente “desconfiado” diante da postura de parte dos peemedebistas. “É difícil acreditar que isso vai dar certo depois de um acordão como esse de hoje”, arrematou.

Brasil de Fato


Dilma: “Haverá a mais firme oposição que um governo golpista pode ter”

A presidenta deposta Dilma Rousseff fez um pronunciamento na tarde desta quarta-feira 31 no Palácio da Alvorada para falar sobre seu afastamento definitivo da Presidência República, confirmado em votação do Senado.

Em seu discurso, Dilma disse que vai “recorrer em todas as instâncias possíveis” contra o que chamou de “fraude”, “farsa jurídica” e “golpe de Estado”. Ela afirmou que este não é um momento para dizer adeus, mas “até daqui a pouco”, e convocou os brasileiros à luta.

“A descrença e a mágoa que nos atingem em momentos como este são péssimas conselheiras. Ouçam bem: eles pensam que nos venceram, mas estão enganados. Sei que todos vamos lutar. Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista por de ter”, disse Dilma.

“Esta história não acaba assim. […] Não voltaremos apenas para satisfazer nossos desejos ou vaidades, nós voltaremos para continuar a nossa jornada rumo a um Brasil onde o povo é soberano”, continuou a petista. “Proponho que lutemos todos juntos contra o retrocesso, contra a agenda conservadora.”

No início de sua fala, Dilma disse o “projeto nacional progressista, inclusivo e democrático” que representa está sendo interrompido por um programa que representa o “retrocesso social” e “o mais radical liberalismo econômico”.

“O golpe é contra o povo e contra a nação. O golpe é misógino, é homofóbico, é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência”, afirmou a petista, que se julga vítima de “machismo e misoginia”.

“As futuras gerações de brasileiras saberão que, na primeira vez em que uma mulher assumiu a Presidência, o machismo e a misoginia mostraram suas feias faces.”

Dilma também disse que seu afastamento definitivo coloca no poder “um grupo de corruptos investigados”.

“Com a aprovação do meu afastamento definitivo, políticos que buscam desesperadamente escapar do braço da Justiça tomarão o poder unidos aos derrotados nas últimas quatro eleições. Não ascendem ao governo pelo voto direto, como eu e Lula fizemos em 2002, 2006, 2010 e 2014. Apropriam-se do poder por meio de um golpe de Estado”, disse.

“Causa espanto que a maior ação contra a corrupção da nossa história leve justamente ao poder um grupo de corruptos investigados.”

Carta Capital


Estados têm protestos contra e pró-Temer nesta quarta-feira

Manifestantes realizaram atos contra e a favor do presidente Michel Temer ao longo desta quarta-feira (31). Os atos ocorrem no dia em que o Senado aprovou o impeachment de Dilma Rousseff e Temer assumiu a presidência da República.

Até as 21h25, havia protestos em 15 estados e no Distrito Federal. Os atos contra Temer ocorrem em Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina e São Paulo. Já as manifestações pró-Temer são em Alagoas, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo.

O maior ato contra Temer era registrado às 21h em Porto Alegre (RS) – a organização diz que 20 mil pessoas participavam do ato e a Polícia Militar não não tinha informação. A maior manifestação pró-Temer estava em Curitiba (PR). Segundo a Polícia Militar, eram 500 pessoas; a organização não divulgou numeros.

Houve confronto entre a polícia e os manifestantes em São Paulo, Florianópolis e no Distrito Federal.

Veja a situação em cada estado:

Alagoas
Após a aprovação do impeachment de Dilma Rousseff, várias pessoas saíram em carreata pela orla de Maceió para comemorar. A carreata terminou em frente ao prédio onde mora o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB). O hino nacional foi excutado no local com apoio de caixas de som.

O ato foi organizado pelo Movimento Brasil, que não estimou número de pessoas. A Polícia Militar não acompanhou a manifestação.

Bahia
Grupo de pessoas se reuniu no final da tarde desta quarta em frente ao shopping da Bahia, na Av. ACM, em Salvador, em um ato contra o impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff. Segundo informações da Polícia Militar, 150 pessoas participaram da manifestação. A organização diz que 600 pessoas estavam presentes no ato.

Ceará
Manifestantes de Fortaleza realizaram nesta noite um protesto contra impeachment de Dilma Rousseff. O grupo se concentrou inicialmente, às 18h30, nas rua do Bairro Benfica e fez caminhada por ruas do centro da cidade. No protesto, participaram pessoas de diversos partidos políticos e entidade sociais. Os organizadores e a Polícia Militar não divulgaram estimativa de público presente.

Um grupo comemorou, também em Fortaleza, o impeachment de Dilma Rousseff. As pessoas se reuniram na Praça Portugal, no Bairro Aldeota, por volta das 19h e o ato terminou às 21h. Os organizadores e a Polícia Militar não divulgaram estimativa de público presente.

Distrito Federal
Manifestantes contrários ao impeachment da presidente Dilma Rousseff cantaram o hino nacional em frente ao Palácio da Alvorada logo após a aprovação do afastamento definitivo dela do cargo. Segundo a Polícia Militar, cerca de 150 manifestantes com bandeiras do PT, da CUT e de movimentos sociais que acamparam no ginásio Nilson Nelson protestaram em frente ao Alvorada. A organização não divulgou números.

No início da noite, um grupo de cerca de 300 pessoas, segundo a PM, fechou quatro vias do Eixo Monumental próximo ao Congresso Nacional, para protestar contra o impeachment de Dilma. Os manifestantes não estimaram o público presente.

Manifestantes e policiais militares entraram em confronto nas proximidades da rodoviária do Plano Piloto. Duas pessoas foram presas por desobediência e resistência. A PM informou que alguns participantes se feriram, mas não precisou quantos.

Espírito Santo
Manifestantes contrários ao impeachment de Dilma Rousseff fazem uma manifestação na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). A concentração em frente ao Teatro Universitário começou por volta das 17h. Eles ocupam três faixas da pista sentido Reta da Penha. A organização do protesto estima que 700 manifestantes estiveram presentes. A Guarda Municipal de Vitória disse que 500 pessoas participaram do ato.

Um pequeno grupo também fez um ato a favor do impeachment na Praia de Camburi, em Vitória, na noite desta quarta. Cerca de 20 pessoas, segundo a Guarda Municipal, se reuniram entre os kiosques 3 e 4 com bandeiras do Brasil e camisas amarelas.

Minas Gerais
Apoiadores da ex-presidente Dilma Rousseff organizaram um ato nesta quarta-feira em Belo Horizonte. A manifestação começou na Praça Afonso Arinos, na Região Central da capital, em frente ao monumento a Rômulo Paes. Segundo a Polícia Militar, às 19h, cerca de 700 pessoas participavam do ato. Neste horário, os organizadores estimavam que três mil manifestantes estavam presentes.

Também em Belo Horizonte, um grupo comemorou a retirada de Dilma Rousseff da Presidência do Brasil com distribuição de coxinhas. O ato foi na Praça da Liberdade, na Região Centro-Sul da capital. Não havia uma estimativa de número de participantes.

Em Juiz de Fora, grupos contrários à aprovação do impeachment de Dilma Rousseff se reuniram pela noite no Centro. A Polícia Militar acompanhou o ato quando realizado no Parque Halfeld, mas não informou o número de participantes. A organização do protesto estima que mil pessoas foram para as ruas.

Pará
Manifestantes contrários ao impeachment de Dilma Rousseff participaram de um ato nesta noite na praça da República, Centro de Belém. Cerca de 300 pessoas participaram do ato segundo os organizadores; a polícia não divulgou números.

Paraíba
Grupo fez um protesto contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff pela noite em João Pessoa e interditaram a rotatória da Via Expressa Padre Zé, em frente ao campus Universidade Federal da Paraíba. A Frente Brasil Popular estimou cerca de 500 participantes. A Polícia Militar não divulgou estimativa.

Paraná
Em Curitiba, o fim da tarde desta quarta-feira foi marcado por protestos contra e a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Enquanto um grupo comemorava a saída de Dilma, o outro pedia a saída do agora presidente Michel Temer (PMDB) do poder.

O ato contra o impeachment saiu da Praça 19 de Dezembro, no Centro Cívico. Os manifestantes saíram em passeata pelas ruas do Centro de Curitiba. De acordo com os manifestantes, 3 mil pessoas participaram do protesto. A Polícia Militar não informou quantas pessoas estavam presentes.

Já o grupo que comemorava a saída de Dilma organizou uma carreata. O grupo saíu da Praça Nossa Senhora de Salete, também no Centro Cívico. Neste ato, ninguém da organização foi encontrado para passar o número de participantes. A Polícia Militar, porém, informou que cerca de 500 pessoas estavam presentes.

Pernambuco
Manifestantes participaram de um protesto na área central do Recife contra o afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff da Presidência da República. Por volta das 18h, após se reunirem na Praça do Derby, o grupo se concentra nos cruzamentos com a Avenida Agamenon Magalhães nos dois sentidos da via. O ato terminou por volta das 21h.

De acordo com Paulo Rocha, vice-presidente da Central Única dos Trabalhadores em Pernambuco (CUT-PE), uma das entidades presentes no ato do Recife, 15 mil pessoas participaram da manifestação. A PM não informou o número de participantes.

Rio de Janeiro
Manifestantes se reuniram no começo da noite desta quarta na Cinelândia, no Centro do Rio, para protestar contra a aprovação do impeachment da agora ex-presidente Dilma Rousseff e contra o presidente Michel Temer.

Policiais militares acompanhavam o protesto, que transcorria de forma pacífica. Segundo a Frente Brasil Popular RJ, cerca de 5 mil pessoas participavam do ato. A PM não divulgou estimativas de público. Por volta das 21h15, os manifestantes começaram a se dispersar, encerrando o ato.

Rio Grande do Norte
Manifestantes pró e contra o impeachment de Dilma Rousseff se reuniram para protestar nos cruzamentos das Avenidas Salgado Filho e Bernardo Vieira, na Zona Leste de Natal, no início da noite desta quarta. Nem a Polícia Militar, nem os manifestantes divulgaram número de participantes.

Rio Grande do Sul
Dois protestos ocorrem nesta quarta em Porto Alegre devido ao impeachment de Dilma Rousseff. O movimento contrário à saída da presidente ocorreu na Esquina Democrática, no Centro da cidade. Por outro lado, manifestantes favoráveis ao impeachment se concentram no Parcão, no bairro Moinhos de Vento,. na Zona Norte.

Na Esquina Democrática, o ato é organizado pela Frente de Luta contra o Golpe. A organização informou que são 20 mil pessoas. A Brigada Militar também não estimou o total de participantes.

No Parcão, a manifestação ganhou o nome de Festa na Goethe – Chopp sem Dilma. Conforme a porta-voz do Movimento Brasil Livre (MBL) Paula Cassol, o ato reuniu cerca de 200 pessoas. A Brigada Militar não apresentou estimativa.

Rondônia
Manifestantes contrários ao impeachment de Dilma Rousseff se reuniram na Praça das Três Caixas da Água, região histórica de Porto Velho. Segundo a Frente Brasil Popular, o ato começou às 19h e contou com a participação de cerca de 20 pessoas. A Polícia Militar não acompanhou o ato.

Santa Catarina
Manifestantes contrários ao impeachment de Dilma Roussef fechavam as pontes Colombo Salles e Pedro Ivo, que ligam a ilha ao continente em Florianópolis, por volta das 19h30 desta quarta. Houve conflito entre policiais e manifestantes no local. Os organizadores informavam 7 mil pessoas no ato por volta das 21h35. Por volta das 20h, a Polícia Militar contabilizava 600 pessoas no local.

São Paulo
Uma manifestação contra o impeachment de Dilma Rousseff fechou a Avenida Paulista no sentido Consolação em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) no início da noite. A Polícia Militar acompanhou a manifestação e fez o isolamento entre este grupo e o grupo que fazia um ato a favor do governo Michel Temer e contra Dilma.

O grupo a favor de Dilma e contra Michel Temer se reuniu em frente ao Masp e seguiu em direção à Rua da Consolação. Às 20h30, a Polícia Militar jogou bombas em direção a manifestantes que colocaram fogo em lixo na Praça Roosevelt para fazer barricadas. Houve depredação de uma viatura, de bancos e de pontos de ônibus na região da Praça da República.

Na Paulista, o grupo contrário a Dilma Rousseff comemorou o impeachment com bolo e champanhe em frente à sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Este grupo chegou a fechar a avenida no sentido Paraíso.

O Globo


Íntegra do discurso de Dilma após impeachment

Em seu primeiro pronunciamento após a aprovação do impeachment pelo Senado, a agora ex-presidente Dilma Rousseff afirmou nesta quarta-feira (31) que a decisão dos senadores é o segundo golpe de estado que enfrenta na vida. A petista disse ainda que os senadores que votaram pelo seu afastamento definitivo rasgaram a Constituição e consumaram um golpe parlamentar. Leia a íntegra a seguir:

“Ao cumprimentar o ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, cumprimento todos os senadoras e senadores, deputadas e deputados, presidentes de partido, as lideranças dos movimentos sociais. Mulheres e homens de meu País.

Hoje, o Senado Federal tomou uma decisão que entra para a história das grandes injustiças. Os senadores que votaram pelo impeachment escolheram rasgar a Constituição Federal. Decidiram pela interrupção do mandato de uma Presidenta que não cometeu crime de responsabilidade. Condenaram uma inocente e consumaram um golpe parlamentar.

Com a aprovação do meu afastamento definitivo, políticos que buscam desesperadamente escapar do braço da Justiça tomarão o poder unidos aos derrotados nas últimas quatro eleições. Não ascendem ao governo pelo voto direto, como eu e Lula fizemos em 2002, 2006, 2010 e 2014. Apropriam-se do poder por meio de um golpe de Estado.

É o segundo golpe de estado que enfrento na vida. O primeiro, o golpe militar, apoiado na truculência das armas, da repressão e da tortura, me atingiu quando era uma jovem militante. O segundo, o golpe parlamentar desfechado hoje por meio de uma farsa jurídica, me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo.

É uma inequívoca eleição indireta, em que 61 senadores substituem a vontade expressa por 54,5 milhões de votos. É uma fraude, contra a qual ainda vamos recorrer em todas as instâncias possíveis.

Causa espanto que a maior ação contra a corrupção da nossa história, propiciada por ações desenvolvidas e leis criadas a partir de 2003 e aprofundadas em meu governo, leve justamente ao poder um grupo de corruptos investigados.

O projeto nacional progressista, inclusivo e democrático que represento está sendo interrompido por uma poderosa força conservadora e reacionária, com o apoio de uma imprensa facciosa e venal. Vão capturar as instituições do Estado para colocá-las a serviço do mais radical liberalismo econômico e do retrocesso social.

Acabam de derrubar a primeira mulher presidenta do Brasil, sem que haja qualquer justificativa constitucional para este impeachment.

Mas o golpe não foi cometido apenas contra mim e contra o meu partido. Isto foi apenas o começo. O golpe vai atingir indistintamente qualquer organização política progressista e democrática.

O golpe é contra os movimentos sociais e sindicais e contra os que lutam por direitos em todas as suas acepções: direito ao trabalho e à proteção de leis trabalhistas; direito a uma aposentadoria justa; direito à moradia e à terra; direito à educação, à saúde e à cultura; direito aos jovens de protagonizarem sua história; direitos dos negros, dos indígenas, da população LGBT, das mulheres; direito de se manifestar sem ser reprimido.

O golpe é contra o povo e contra a Nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência.
Peço às brasileiras e aos brasileiros que me ouçam. Falo aos mais de 54 milhões que votaram em mim em 2014. Falo aos 110 milhões que avalizaram a eleição direta como forma de escolha dos presidentes.

Falo principalmente aos brasileiros que, durante meu governo, superaram a miséria, realizaram o sonho da casa própria, começaram a receber atendimento médico, entraram na universidade e deixaram de ser invisíveis aos olhos da Nação, passando a ter direitos que sempre lhes foram negados.

A descrença e a mágoa que nos atingem em momentos como esse são péssimas conselheiras. Não desistam da luta.

Ouçam bem: eles pensam que nos venceram, mas estão enganados. Sei que todos vamos lutar. Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer.

Quando o Presidente Lula foi eleito pela primeira vez, em 2003, chegamos ao governo cantando juntos que ninguém devia ter medo de ser feliz. Por mais de 13 anos, realizamos com sucesso um projeto que promoveu a maior inclusão social e redução de desigualdades da história de nosso País.

Esta história não acaba assim. Estou certa que a interrupção deste processo pelo golpe de estado não é definitiva. Nós voltaremos. Voltaremos para continuar nossa jornada rumo a um Brasil em que o povo é soberano.

Espero que saibamos nos unir em defesa de causas comuns a todos os progressistas, independentemente de filiação partidária ou posição política. Proponho que lutemos, todos juntos, contra o retrocesso, contra a agenda conservadora, contra a extinção de direitos, pela soberania nacional e pelo restabelecimento pleno da democracia.

Saio da Presidência como entrei: sem ter incorrido em qualquer ato ilícito; sem ter traído qualquer de meus compromissos; com dignidade e carregando no peito o mesmo amor e admiração pelas brasileiras e brasileiros e a mesma vontade de continuar lutando pelo Brasil.

Eu vivi a minha verdade. Dei o melhor de minha capacidade. Não fugi de minhas responsabilidades. Me emocionei com o sofrimento humano, me comovi na luta contra a miséria e a fome, combati a desigualdade.

Travei bons combates. Perdi alguns, venci muitos e, neste momento, me inspiro em Darcy Ribeiro para dizer: não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores. A história será implacável com eles.

Às mulheres brasileiras, que me cobriram de flores e de carinho, peço que acreditem que vocês podem. As futuras gerações de brasileiras saberão que, na primeira vez que uma mulher assumiu a Presidência do Brasil, a machismo e a misoginia mostraram suas feias faces. Abrimos um caminho de mão única em direção à igualdade de gênero. Nada nos fará recuar.

Neste momento, não direi adeus a vocês. Tenho certeza de que posso dizer “até daqui a pouco”.

Encerro compartilhando com vocês um belíssimo alento do poeta russo Maiakovski:

“Não estamos alegres, é certo,
Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,
Rompê-las ao meio,
Cortando-as como uma quilha corta.”

Um carinhoso abraço a todo povo brasileiro, que compartilha comigo a crença na democracia e o sonho da justiça.”

O Globo