Por Claire Gatinois

A íntegra da entrevista de Dilma ao Le Monde, que foi capa

Cinco dias após sua destituição, a ex-presidenta brasileira Dilma Rousseff recebeu Le Monde , segunda-feira 5 de setembro, na residência presidencial da Alvorada, em Brasília. Na véspera de sua mudança para Porto Alegre, onde ela deve reencontrar sua familia , a ex-guerrilheira continua a clamar sua inocência.

Sua destituição ocorreu num clima de profunda crise econômica e de escândalos de corrupção atingindo os partidos políticos, inclusive o seu, o Partido dos Trabalhadores (PT). Qual sua visão sobre o julgamento do Senado ?

Os argumentos que levaram à minha destituição são pretextos. O fato de ter sido destituída sem perder meus direitos políticos (ela pode concorrer a novas eleições, contrariando o procedimento habitual) demonstra que não há lógica nesse processo sem fundamento jurídico. Para justificar meu impeachment, precisaram evocar outros motivos, como o « conjunto da obra » (de sua política). Isso não é permitido pela constituição. Não cabe a oitenta e um senadores julgar minha política, mas a população inteira, através de eleições diretas.

Na realidade eu acho que havia outra motivação por trás disso, que era de interromper a operação « LavaJato », de parar com todas as investigações ligadas à corrupção, à lavagem de dinheiro, à existência de caixa 2 (para o financiamento de partidos e de campanhas eleitorais). Nada disso justifica que os golpistas derrubem um governo para impedir a hemorragia (política) ligada à « Lava Jato ». Outro interesse procurado era de instaurar uma agenda neo-liberal, que não estava prevista no meu programa. Esse processo de impeachment é uma fraude. Uma ruptura democrática que cria um clima de insegurança no seio das instituições políticas e afeta até mesmo toda a América Latina.

Pouco tempo após seu julgamento, você propôs organizar um plebiscito a fim de organizar novas eleições. O PT desaprovou. Ele lhe abandonou ?

Não, eu não fui abandonada. Na sexta-feira o PT se aliou à essa idéia.

Sua popularidade despencou abaixo de 10%. Uma parte dessa rejeição estaria ligada à sua gestão econômica do país, que não conseguiu impedir a recessão e o desemprego ?

A crise econômica atingiu em 2014 os países emergentes : o Brasil, mas também a China, a Russia, a Africa do Sul. Uma das reações foi de fazer uma política de rigor, nãko para cortar dos programas sociais, mas para preservá-los. O Brasil tinha e tem todos os meios para superar a crise : reservas importantes, investimentos estrangeiros diretos, e, fora um problema orçamentário, nenhum grande desequilíbrio. Porém houve uma sabotagem política visando criar um ambiente favorável ao impeachment, impedindo o Congresso de adotar as medidas importantes. Em fevereiro, a Câmara dos Deputados entrou em greve. Eu nunca tinha visto isso ! Até mesmo o economista americano Joseph Stiglitz explicou em uma mesa redonda a importância do fator político no agravamento desta crise.

Quem são os autores desse processo que você denuncia?

Os protagonistas dessa destituição são a oligarquia brasileira. O grupo dos mais ricos, a mídia, controlada por cem famílias (que, segundo ela, contribuiram a veicular uma informação parcial) e dois partidos, o PSDB (centro-esquerda) que perdeu quatro eleições presidenciais e não tinha mais esperança, segundo as pesquisas de opinão, de ganhar em 2018 com seu programa ultraliberal e, de outro lado, o PMDB (centro) e especialmente Eduardo Cunha ( ex-presidente da Câmara dos Deputados que lançou a abertura do processo de impeachment em dezembro de 2015).

Uma parte dos personagens-chave do seu impeachment, especialmente Eduardo Cunha, eram aliados do PT ?

O PMDB foi um partido fundamental no processo de redemocratização do Brasil após a ditadura. Mas, no decorrer dos anos, alguns segmentos do PMDB, dos quais Eduardo Cunha foi líder, tornaram-se ultraconservadores sobre questões sociais e morais e ultraliberais sobre temas econômicos. A aliança tornou-se contraditória com o PT. Mas o sistema político brasileiro, com trinta e cinco partidos, obriga alianças.

Por que não ter feito as reformas políticas para evitar essas « amizades » artificiais ?

Eu tentei propor uma reforma política em 2013 após as manifestações, através de uma Assembléia constituinte exclusiva. Essa idéia não foi aceita pelo congresso. É como se você pedisse a uma raposa para proteger o galinheiro.

As manifestações pedindo sua destituição começaram quando surgiu o escândalo de corrupção ligado à Petrobrás implicando inclusive o PT. Você entende essa raiva ?

Eu compreendo que os eleitores tenham se decepcionado com todos os partidos políticos. Mas o erro é de transformar a « Lava Jato » em um instrumento contra o PT. Quem erra, paga. Mas nao se pode incriminar somente o PT. É uma guerra politica suja e hipócrita. Para lutar contra a corrupção, é preciso leis e instituições. Até a chegada de Lula (Luiz Inacio Lula da Silva, presidente de 2003 à 2010), o assunto corrupção era algo intocável. Diversas leis foram feitas sob seu mandato. E, no meu governo,criamos uma lei que pune o corruptor assim como o corrompido, e autorizamos a delação premiada, a colaboração de um réu em troca de uma redução da pena, sem a qual a polícia jamais teria conseguido chegar ao sistema de propina na Petrobras.

Sua saída da presidência fecha o parêntese aberto em 2003 com o PT e a eleição de Lula ?

Para todos nós esse é um momento de reflexão. Mas não é um fim. A democracia não está garantida, ela é nossa responsabilidade. A resistência deve ser feita através das críticas, do debate político. É o início da luta. Eu estou otimista, a indignação é mais viva no Brasil hoje. O paiís vai crescer. Eu vejo movimentos sociais que se iniciam, mobilizando os jovens, as mulheres. O Brasil está se transformando.

O fato de ser uma mulher pesou na sua destituição ?

O tempo todo fui alvo de ataques machistas. Primeiro disseram que eu era dura, tentando me desumanizar. Depois tentaram fazer de mim uma mulher frágil, doente, deprimida, prestes à renunciar. Diriam o mesmo de um homem ?

Teoricamente, você poderia se candidatar em 2018 ? Quais são seus planos políticos ?

Estou pensando.

Manifestações para exigir a saída do presidente « golpista »

Mais uma vez, desde a destituição da presidenta Dilma Rousseff dia 31 de agosto, a rua grita « Fora Temer ! ». Em São Paulo, domingo 4 de setembro, foram 100.000 manifestantes segundo os organizadores pedindo a saída do novo presidente do Brasil Michel Temer. Um dirigente que eles julgam ilegítimo, pedindo a organização de novas eleições. Protestos menores também ocorreram no Rio de Janeiro, Curitiba e Salvador organizados pelos movimentos de esquerda Brasil popular e Povo sem medo.

Ridicularizando as ameaças do novo presidente irritado em ser chamado de « golpisa » por seus adversarios e pelo PT, as massas se apropriaram do slogan « Diretas já ». Uma palavra de ordem utilizada no fim da dtadura militar.

A manifestação em Sao Paulo ocorreu com calma até a dispersão, entre 20 e 21 horas. Nesse momento testemunhos recolhidos pela imprensa brasileira falam de atos de vandalismo da parte de « black blocs », e de resposta desmedida da parte da polícia militar usando abundantemente gás lacrimogênio e balas de borracha. Um jornalista da BBC Brasil, recebeu golpes de cassetete.

« Uma escalada de viollência que visa dissuadir os manifestantes! » denuncia o deputado (PT) Paulo Teixeira evocando « excessos policiais » Em 31 de agosto, uma jovem manifestante de 19 anos, Deborah Fabri, teve seu olho esquerdo perfurado por um projétil.

De Hangzhou (China), onde participava da reuniao do G20, Michel Temer minimizou a amplitude da contestação desses últimos dias qualificando-a de « insignificante », composta de no màximo « quarenta, cinquenta, cem pessoas ». Ações « mini, mini, mini, mini, mini, mini » apoiou o ministro de relaçoes exteriores José Serra, ao seu lado. Os manifestantes ja têm novo encontro marcado quinta-feira 8 de setembro.

O Cafezinho