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É importante protestar. Fazer campanha também

Tivemos neste domingo 4, em São Paulo, a mais importante mobilização popular dos últimos anos. Com a participação de mais de cem mil pessoas, ela supera largamente em importância em peso e densidade a maioria das manifestações realizadas desde junho de 2013 pelo campo democrático e progressista. A brutal repressão policial evidencia o quanto a manifestação incomoda o governo paulista e a trupe golpista que tomou o Planalto de assalto.

Quais os próximos passos?

É potencializá-la, conseguir a adesão de mais e mais pessoas e fazer com que as próximas sejam ainda mais espetaculares.

É preciso também obter sínteses em diretrizes unitárias, ganhar legitimidade pelo país e tirar de cena o governo golpista.

Mas há uma tarefa imediata a ser realizada: é preciso que a esquerda seja vitoriosa no maior número de cidades nas eleições municipais de outubro.

É a primeira batalha institucional a ser disputada com o golpismo. Não está nada fácil. A legislação eleitoral formulada por Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e sancionada por Dilma Rousseff joga para despolitizar a contenda. O tempo de campanha cai pela metade (45 dias), o horário eleitoral é desidratado e as agremiações mais a esquerda ficam praticamente fora do vídeo.

Golpe, um não-tema 

Pesquisas qualitativas feitas pelas diversas campanhas, em São Paulo, mostram que o golpe é um tema rarefeito entre os setores populares. Não toca o cotidiano das pessoas. Isso se dá porque, embora legítimo, o governo Dilma desastroso no terreno econômico que a maioria não sente diferença entre sua gestão e a de Michel Temer.

A recessão planejada e o desemprego crescente têm sua manifestação concreta no desalento geral com a atividade política. E o desânimo sempre foi combustível para o avanço conservador na sociedade.

O perigo na capital paulistana é termos – apesar das crescentes mobilizações – um segundo turno disputado entre duas postulações da direita, Celso Russomano e Marta Suplicy, que seguem à frente nas sondagens de opinião. Significa também elegermos uma bancada de vereadores ligada, em sua maior parte, ao conservadorismo e ao fundamentalismo religioso.

Exemplos dessa situação não faltam.

O Fora Collor e Maluf 

Ao longo do ano de 1992, tivemos em todo o país as mais formidáveis mobilizações de massas desde as Diretas Já.

O alvo eram os desmandos do governo Fernando Collor. A voz das ruas falou alto – combinada com um incômodo crescente de setores das classes dominantes – e o presidente teve de renunciar em 2 de outubro daquele ano. No dia seguinte, houve eleições municipais em todo o país.

Em São Paulo, a população deu vitória ao candidato da direita, Paulo Maluf, que enfrentava Eduardo Suplicy, do PT, agremiação que estivera à frente dos protestos. Guardadas as proporções, Collor e Maluf eram expressões do mesmo projeto político.

Os resultados eleitorais ainda suscitam polêmicas. Mas no centro estava o fato de a campanha contra Collor ter sido realizada com base num moralismo anticorrupção que, embora indignasse a população, não deixou saldos políticos.

Dissonâncias na Espanha 

Nas eleições parlamentares de novembro de 2011, na Espanha, a situação se deu de forma semelhante.

O país foi palco de gigantescas mobilizações sociais contra as políticas de ajuste em suas principais cidades, ao longo daquele ano. Um milhão e meio de pessoas espalhou-se pela Porta do Sol, no centro de Madri, e cerca de um milhão, na praça Catalunha, em Barcelona, semanas antes. Eram em sua maioria jovens, que viriam a formar o movimento dos “Indignados”.

Mas o impulso das ruas não se manifestou nas urnas.

O Partido Popular (PP), franquista, obteve 44,6 % dos votos, seguido do Partido Socialista Operário Espanhol (centro), que alcançou 28,8%, e da Esquerda Unida, com 7%. Em aliança com agremiações menores, um governo de direita foi formado.

Em sua maior parte, essas forças de massas se apresentaram como avessas à atividade política partidária. Tenderam a ser puramente reivindicatórias, apesar de criativas e exuberantes na forma de apresentação. Funcionaram como canal de expressão legítimo dos descontentamentos, mas de pouco efeito prático.

As demandas dessa semana em todo o Brasil tiveram um viés visivelmente mais politizado.

A presença das Frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular à frente das multidões é um forte diferencial.

Mas elas precisam mirar o horizonte de médio prazo e também a decisiva batalha eleitoral que ocorrerá daqui a quatro semanas.

O peso que as correntes progressistas tiverem em 2 de outubro será determinante para a luta democrática no país. Por isso, é preciso ir às ruas. Mas é urgente também fazer campanha! É preciso avançar no terreno institucional, por mais viciado que seja.

[Aviso: O autor é candidato a vereador em São Paulo e espera não ser acusado de escrever em causa própria. Até porque existe mais de uma campanha majoritária de esquerda na cidade e há dezenas de postulantes de alta qualidade que buscam assento na Câmara Municipal].

Gilberto Maringoni. É professor de Relações Internacionais da UFABC e foi candidato a governador (PSOL-SP), em 2014.

Carta Capital