Por Sergio Lirio 

“Para o Brasil, o pior de Trump talvez seja o mau exemplo”

O ex-chanceler Celso Amorim acompanhou de Madri a apuração dos votos nos Estados Unidos. Por acaso, o seminário para o qual foi convidado a palestrar tratou do sentimento global de medo e insegurança, combustível para a ascensão de populistas de direita da estirpe de Donald Trump.

A vitória do republicano surpreendeu Amorim? Não tanto quanto o resultado do plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia. “Uma parte dos eleitores americanos, de classe média baixa, o operariado branco, nutre um grande ressentimento, uma malaise em relação aos efeitos da globalização.

Ao mesmo tempo, Hillary Clinton não entusiasmou os democratas.” O ex-ministro projeta poucas mudanças na relação diplomática entre o Brasil e os EUA, mas prevê um refluxo no ímpeto americano em assinar mega-acordos comerciais. “A elite e parte da mídia brasileira que sempre criticaram os cuidados do governo nas negociações desses tipos de tratado vão se decepcionar.”

CartaCapital: O senhor se surpreendeu com o resultado da eleição?

Celso Amorim: Como não temos outras fontes de informação, a não ser as próprias pesquisas de opinião, se você perguntasse minha opinião ontem ou anteontem, provavelmente apostaria na vitória da Hillary Clinton.

Mas a sensação ao saber do triunfo de Donald Trump não foi a mesma de quando o Reino Unido optou pelo Brexit, a saída da União Europeia. Também estava na Europa durante a votação no Reino Unido e custei a entender o resultado.

Nunca me pareceu provável, mas não impossível a eleição do Trump. Uma parte do eleitorado, de classe média baixa, do operariado branco, principalmente homens, nutre um grande ressentimento, uma malaise em relação aos efeitos da globalização. Imagino que tenha ocorrido um maior comparecimento desse tipo de eleitor na eleição.

Por outro lado, havia certa fragilidade na candidatura da Hillary. Faltava entusiasmo aos eleitores democratas. Ela era considerada pelos mais progressistas um mal menor. Perdeu em estados tradicionalmente “democratas”.

CC: A ação do FBI contra Hillary às vésperas das eleições produziu algum efeito?

CA: Talvez tenha acrescentado mais elementos à desconfiança em relação à candidatura. Tenho visto poucos comentários a respeito após a divulgação do resultado. Alguns dias atrás, muita gente dizia que o mal estava feito, apesar de o diretor do FBI ter declarado não haver provas para acusá-la.

CC: A eleição de Trump e o Brexit seriam parte de um mesmo fenômeno?

CA: Como dizia Tolstoi, todas as famílias felizes se assemelham, mas cada família infeliz é infeliz a seu modo. Há, no entanto, fatos em comum, a começar pelas promessas não realizadas da globalização. É um mal-estar justificado até.

A globalização trouxe benefícios para o capital financeiro, as multinacionais e uma elite que pode prestar serviços mais sofisticados. Para o operário médio, a vida não melhorou, nem no Reino Unido nem nos Estados Unidos. É fato.

Além disso, em épocas de crise econômica costuma ocorrer um recrudescimento de sentimentos xenófobos, particularistas. Não explica tudo, mas sem dúvidas trata-se de elementos presentes no Brexit e na vitória de Trump.

CC: Seria o fim da globalização?

CA: Não creio. A globalização não vai parar. Haverá, porém, menos entusiasmo em relação aos mega-acordos comerciais, o Tratado Transpacífico, por exemplo. O Reino Unido votou pelo Brexit, mas transparecia mais disposição em assinar acordos de livre-comércio. Vejo um recuo mais forte nos EUA a partir do resultado das eleições.

Pela maneira como Barack Obama conduziu as negociações, não existe motivos para chorar se eles não avançarem durante a administração Trump. Várias cláusulas eram péssimas para as economias nacionais. O Obama abandonou completamente as negociações de acordos multilaterais em prol desses acertos regionais.

CC: Trump é um personagem de campanha ou vai mesmo implantar suas promessas?

CA: Teremos de esperar a indicação de seus principais assessores. Certas promessas foram tão repetidas que ele será obrigado a encontrar maneiras de cumpri-las em certa medida. Outras provavelmente vão se diluir. Trump falou muitas coisas absurdas sobre imigração, política de segurança interna… Posições rígidas, paroquiais e preconceituosas.

Em termos de política externa, não sei. Ele não parece contaminado por uma “russofobia” como sua adversária, o que talvez facilite as soluções para os impasses na Síria e na Ucrânia. Espero que ele não recue no acordo nuclear com o Irã. Seria muito ruim para o mundo. De qualquer modo, persiste o elemento de imprevisibilidade. Goste-se ou não de Hillary, ela estava mais próxima do padrão de normalidade do poder americano.

CC: Pode-se esperar um EUA menos belicista?

CA: Muitas vezes os militares americanos, o Pentágono, são menos aguerridos do que o secretário de Estado. O Colin Powell, que serviu em um governo republicano, era mais retraído do que outros secretários. A Hillary, por seu lado, dava a entender ser favorável a uma intervenção na Síria. O Obama é contra.

CC: De que forma a América Latina e o Brasil serão afetados?

CA: Temo principalmente o mau exemplo. O presidente da maior potência mundial alimenta o preconceito racial, de gênero… Para quem estimula esses sentimentos, no Brasil e em outros países, não deixa de ser um estímulo. No fundo, nem sei se era necessário.

Quanto ao protecionismo de Trump, aqueles que alimentavam grandes ilusões em relação aos mega-acordos comerciais talvez se decepcionem. Falo especificamente da elite brasileira e de parte da mídia que sempre criticaram os cuidados do governo brasileiro nas negociações desse tipo de tratado. No mais, é preciso esperar a indicação da equipe.

Nossa relação com os republicanos, durante o governo Lula, sempre se pautou pelo diálogo, embora discordássemos em várias questões, como a guerra no Iraque. Havia abertura tanto com o Colin Powell quanto com a Condoleezza Rice.

Na época em que o Brasil tinha condições de mediar conflitos, hoje não possui mais, o Powell, para citar um caso, ouviu bastante as nossas recomendações no caso da Venezuela. Não foi assim no período Obama-Hillary.

CC: O quanto a eleição de Trump anima a extrema-direita na Europa?

CA: As lideranças europeias de extrema-direita vão se sentir incentivadas. Cria a sensação de que elas também podem chegar ao poder. Estou em Madri para participar de um fórum de discussões e o grande tema é o crescente medo, que se materializa na ascensão da direita e nas políticas migratórias restritivas, entre outras.

Parte causa, parte consequência, há a queda dos partidos sociais-democratas ou socialistas. Todos reduzidos a 18%, 20% do eleitorado. Mas não acredito que essas forças extremistas cheguem ao poder. Aposto em uma aliança contra o avanço da direita xenófoba.

Talvez os sociais-democratas se vejam obrigados a aceitar uma direita republicana, como aconteceu em outros momentos, para impedir o pior. Na Espanha não havia propriamente uma ameaça de extrema-direita, mas de alguma maneira o medo da “anarquia” acabou por influenciar o partido socialista a apoiar um governo conservador. O mesmo pode acontecer na França.

Provavelmente não no primeiro turno, mas no segundo. Existe uma descrença generalizada nos partidos tradicionais, tal qual nos anos 20 e 30 do século passado. Isso estimula o populismo de direita. O resultado eleitoral nos EUA precisa, no entanto, ser avaliado em sua particularidade. A derrota de Hillary Clinton tem muito de pessoal, de desconfiança em relação à candidata.

CC: Este fórum em Madri do qual o senhor participou tratou do medo crescente global. O que o alimenta?

CA: Várias coisas. No caso na Europa, trata-se de uma reação à migração. É engraçada a concepção de crise de refugiados. Há muito mais refugiados em países em desenvolvimento do que no continente europeu. Somemos os campos no Quênia, no Líbano, na Jordânia, na África do Sul…

CC: Mas só vira crise se acontece na Europa…

CA: Exatamente. De qualquer modo, da perspectiva europeia, atemoriza. E estimula o medo. Quem achava bom ter um imigrante para fazer os serviços domésticos já não acha mais. O problema dos refugiados, dos migrantes, misturou-se infelizmente com o terrorismo. E assim tem sido explorado pelos populistas de direita.

A raiz econômica desse medo é óbvia. Há ainda uma raiz social, fundada na maneira pouco positiva com que os migrantes são tratados. Um fato me impressiona, ao menos no caso dos árabes: a terceira geração tem menos identificação com o país onde nasceram e foram criados do que os avós que migraram. Sinal de um claro processo de alienação, de marginalização.

Além do mais, os mitos contra a imigração produzem uma tensão social. Quando a economia está em crescimento, os conflitos não vêm tão facilmente à tona. Quando está estagnada, os medos afloram. Poderíamos citar ainda as dúvidas em relação à política de austeridade.

Muitos acreditam que ela só beneficia a Alemanha. Outros, que nem a Alemanha ganha. Certamente floresce na Europa e no resto do mundo um grande temor em relação ao futuro próximo.

Carta Capital