Calero diz à PF que foi pressionado por Temer sobre imóvel de Geddel

O interesse imobiliário de um dos homens fortes do presidente Michel Temer virou uma crise do governo, agravada pelas declarações de um ex-ministro que disse à Polícia Federal ter sofrido pressões do próprio Temer, além do ministro interessado na construção de um apartamento em Salvador, Geddel Vieira Lima. O depoimento do ex-ministro já está no Supremo, que vai decidir se abre ou não uma investigação.

O ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, afirmou no depoimento que, no dia 6 de novembro, recebeu a mais contundente das ligações realizadas pelo ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima. E que Geddel disse, sempre de maneira muito arrogante, que se fosse preciso pediria a cabeça da presidente do Iphan e que falaria até com o presidente da República.

O Iphan é o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que embargou a obra do prédio onde Geddel comprou um apartamento em Salvador. O projeto é de alto padrão. O edifício tem 30 andares e 24 apartamentos com valores entre R$ 2,6 milhões e R$ 4,5 milhões. Geddel comprou um dos apartamentos na planta.

Marcelo Calero afirmou que em outro dia recebeu uma ligação do ministro da Casa Civil. Eliseu Padilha argumentou que, se a questão estava judicializada, não deveria haver decisão administrativa definitiva a respeito. E que Calero tentasse construir essa saída com a advocacia geral da união.

O ex-ministro da cultura também afirmou no depoimento que, no dia 16 de novembro, compareceu a um jantar oferecido pelo presidente Michel Temer aos senadores no Palácio da Alvorada e que, após contar-lhe toda a história, o presidente disse a Calero que ficasse tranquilo, pois, caso Geddel lhe procurasse, ele diria que não havia sido possível atender a seu interesse, por razões técnicas.

Calero afirmou que, no dia seguinte, foi convocado pelo presidente Michel Temer a comparecer no Palácio do Planalto. Nesta reunião, o presidente disse a ele que a decisão do Iphan havia criado dificuldades operacionais em seu gabinete, já que o ministro Geddel encontrava-se bastante irritado. O presidente teria dito para Calero que construísse uma saída para que o processo fosse encaminhado à AGU, porque a ministra Grace Mendonça teria uma solução. Calero afirmou que no final da conversa o presidente disse que a política tinha dessas coisas, esse tipo de pressão.

O ex-ministro da cultura disse que, ao final da conversa com o presidente, ficou bastante desapontado, uma vez que foi advertido em razão de ter agido sem cometer qualquer tipo de irregularidade. Que sentiu-se decepcionado também pelo fato de não ter mais a quem reportar-se a fim de solucionar esta situação, uma vez que o próprio presidente da República o havia enquadrado.

Marcelo Calero disse ainda no depoimento que no dia seguinte recebeu uma nova ligação do secretário de assuntos jurídicos da Casa Civil, Gustavo Rocha. Segundo o ex-ministro da Cultura, Gustavo Rocha disse que também havia conversado com o presidente. E que seu intuito era o de que Calero encaminhasse os autos para a Advocacia Geral da União.

O ex-ministro da Cultura disse que este último episódio foi determinante para a saída dele do governo, pois demonstrava a insistência do presidente em fazer com que ele interferisse indevidamente no andamento do processo. No mesmo dia, 18 de novembro, ele telefonou para o presidente e entregou o cargo.

O depoimento foi dado no dia 19 de novembro, um dia depois de ter pedido demissão. A Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal autorização para abrir inquérito sobre o caso e aguarda a decisão da corte.

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, disse que falou com o ex-ministro Calero para que, na forma da lei, buscasse a solução junto à AGU. Gustavo Rocha disse que a sugestão de encaminhar à AGU decorreu apenas da competência da Advocacia Geral para resolver conflitos entre órgãos da administração pública.

O Globo