Alerta de Tsunami: a delação da Odebrecht começa a ser formalizada

O empreiteiro Marcelo Odebrecht e dezenas de funcionários da Odebrecht deram início nesta quarta-feira 23 à assinatura de acordos de delação premiada com os procuradores da Operação Lava Jato. Os termos estão sob sigilo e não terão seus detalhes divulgados.

Cerca de 80 executivos devem assinar a delação individualmente até o fim da semana. Um dos depoimentos mais aguardados pelos procuradores é justamente o de Marcelo Odebrecht, ex-presidente da companhia, condenado pelo juiz federal Sérgio Moro a 19 anos e quatro meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva, associação criminosa e lavagem de dinheiro na Lava Jato.

No fim de março, vazou para a mídia uma planilha com o nome de 200 políticos de 18 partidos beneficiados com recursos da Odebrecht. Os documentos estavam na casa de Benedicto Barbosa Silva Júnior, presidente da Odebrecht Construtora.

Parceira constante da Petrobras desde a criação da estatal nos anos 1950, dona de obras de norte a sul, uma das principais financiadoras de campanhas eleitorais, a Odebrecht tem tudo para causar um terremoto político com a colaboração de seus executivos.

Se usar sua “metralhadora de (calibre) ponto 100”, conforme o ex-presidente José Sarney definiu o potencial de estrago da empreiteira, acertará governistas. Talvez até Temer. De início relutante, a construtora acabou por aceitar negociar a delação, com o objetivo de aliviar as punições judiciais contra dirigentes e funcionários.

Histórias não faltam. Nas eleições de 2014, a Odebrecht doou quase 50 milhões de reais a uma penca de candidatos e comitês eleitorais, de partidos variados. Uma fortuna, certamente, mas equivalente a apenas 0,1% do faturamento anual da empresa, de uns 50 bilhões de reais, obtidos em operações no Brasil e em várias partes do mundo.

Os negócios com a Petrobras nasceram junto com a estatal, em 1953, ano em que a construtora participou das obras de um oleoduto na Bahia. Foi a Odebrecht quem ergueu a sede da petroleira no Rio de Janeiro, na virada dos anos 1960 para 1970.

As duas são sócias, inclusive. A Braskem, maior petroquímica das Américas, é uma joint venture nascida em 2002. A Odebrecht tem 38% das ações da companhia e a Petrobras, 36%. Sociedade nascida de um “escândalo”, no relato de um ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, condenado por Moro em 2015 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

“A Braskem é um dos maiores escândalos, criada na época do governo Fernando Henrique”, disse Cerveró em depoimento à força-tafera da Lava Jato, um vídeo disponível na web. “Essas coisas não foi o Lula que inventou, mas essas coisas não são investigadas, isso que eu fico impressionado. A Braskem é um escândalo, mas tá lá, firme e forte, feita com a Odebrecht.”

Outro trecho do depoimento: “A Odebrecht tem uma profunda influência [na Petrobras]… Aliás, sempre teve, desde a época do Rennó”. Joel Rennó assumiu o comando da estatal em novembro de 1992, nomeado pelo então presidente Itamar Franco. Permaneceu no cargo durante todo o primeiro mandato de FHC (1995-1998).

Em sua trajetória, a empreiteira corrompeu até tribunais, na opinião da juíza baiana Eliana Calmon, corregedora nacional de Justiça de 2010 a 2012. “Não é possível que a Odebrecht levasse 30 anos de intimidade com o poder público, com o governo, sem a conivência do Judiciário”, diz.

A expectativa é que os depoimentos, nos quais os funcionários devem relatar repasses de propina para políticos, sejam enviados no começo do ano para o Supremo Tribunal Federal, responsável por homologar as delações.

Paralelamente, a Odebrecht negocia um acordo de leniência em Curitiba, que deve envolver o pagamento de 6 bilhões a 7 bilhões de reais em multa. O montante será dividido entre Brasil, que deve ficar com a maior parte, os Estados Unidos, onde a empresa mantém negócios, e a Suíça.

Carata Capital