Nueva Argentina – Diario Folha de S. Paulo, Brasil

Los conceptos vertidos en esta sección no reflejan necesariamente la línea editorial de Nodal. Consideramos importante que se conozcan porque contribuyen a tener una visión integral de la región.

Nova Argentina

O inédito segundo turno presidencial na Argentina fez mais que definir o opositor Mauricio Macri como novo titular da Casa Rosada.

Ao consagrar um candidato de centro-direita, a disputadíssima eleição realizada no domingo (22) demarcou o fim de um ciclo histórico em que se viam com clareza acertos e, sobretudo, os erros da esquerda latino-americana.

Iniciado em 2003, o período Kirchner se caracterizou a princípio pela capacidade de reerguer a economia após o colapso cambial de 2001. Néstor (morto em 2010), embalado pela retórica peronista, adotou programas de redução da pobreza e ampliou o papel do Estado para acelerar a recuperação.

Beneficiando-se do boom mundial das commodities, a Argentina cresceu a taxas superiores a 8% com Néstor –e para ele foi fácil conduzir a vitória de sua mulher, Cristina, na disputa de 2007.

Ocorre que o cenário internacional se alterou com a crise de 2008. O casal Kirchner, todavia, decidiu dobrar a aposta, ampliando a intervenção estatal no setor privado.

A presidente elevou investimentos públicos, reestatizou empresas e, a fim de arranjar recursos, aumentou impostos sobre exportações, para desespero dos fazendeiros. Pressionada pelas críticas, Cristina respondeu com a truculenta Lei de Mídia, de 2009, desenhada para intimidar a imprensa.

A Argentina ainda cresceu 8,4% em 2011, quando Cristina foi reeleita, mas a taxa despencou para 0,8% em 2012. A inoportuna matriz expansionista elevou a inflação (hoje estimada em 28% ao ano) e deixou a economia estagnada.

Dada a degradação geral dos indicadores, seria razoável esperar vitória mais folgada de Mauricio Macri. O candidato da coalizão Mudemos, porém, obteve 51,4% dos votos, ao passo que o governista Daniel Scioli alcançou 48,6%.

Parte da explicação talvez esteja nos estímulos oficiais. Como afirmou Martín Redrado, ex-presidente do Banco Central argentino, não há uma percepção de crise. “Quando as pessoas estão consumindo, não têm sensação ruim”, disse em entrevista a esta Folha.

Há, ademais, as ações do governo Kirchner voltadas para as camadas mais pobres. O próprio Macri, durante a campanha, prometeu manter todos os programas sociais.

O novo presidente sabe, contudo, que terá de “realizar uma mudança para o futuro”. Não será fácil. Além de se deparar com um eleitorado dividido e com uma população que ainda não sente todos os efeitos das distorções na economia, Mauricio Macri precisará lidar com um Legislativo em que prevalecem as forças kirchneristas.

Faz bem, assim, em buscar apoio externo. Já eleito, Macri reiterou o compromisso de fazer do Brasil seu primeiro destino internacional, no intuito de retomar o dinamismo da relação bilateral. Após muito tempo, eis uma agenda da Argentina que interessa aos brasileiros.

Folha de S. Paulo