Dados para tentar compreender (ou não) a realidade venezuelana – Por Álvaro Verzi Rangel

Na Venezuela a maior parte da população não está segura de dar um passo na direção de uma ruptura com um governo com o qual compartilham vínculos de identificação, atenção social e compromisso, graças à falta de coerência democrática e política, além da ausência de planos e proposta da oposição durante 18 anos

Constitucionalmente, este 2018 devem ser o ano em que se realizam as eleições presidenciais, com o término do período de Nicolás Maduro e em meio dos efeitos de uma hiperinflação e um desabastecimento que afeta a sobrevivência familiar – razão pela qual parece óbvio, em qualquer outro lugar do mundo, que um representante da oposição receberá a maioria dos votos.

Mas na Venezuela a maior parte da população não está segura de dar um passo na direção de uma ruptura com um governo com o qual compartilham vínculos de identificação, atenção social e compromisso, graças à falta de coerência democrática e política, além da ausência de planos e proposta da oposição durante 18 anos.

Obviamente há insatisfação, mas a reativação dos planos sociais é o que dá base à possibilidade de que, mesmo neste quadro magnificado pela imprensa hegemônica dentro e fora do país, um candidato governista ganhe novamente, enquanto os grupos opositores se preparam novamente para gritar “fraude” pela enésima vez, num coro organizado por Washington, pela OEA (Organização dos Estados Americanos) e os setores mais reacionários da União Europeia, o que não é pouco.

Há pouco, o governo lançou a chamada Grande Missão de Abastecimento Soberano, numa clara dissociação com a produção interna, nacional, que deveria fomentar e resgatar, com a distribuição de pacotes de alimentos, produtos basicamente importados do Chile e do México, enquanto 70% da produção nacional de lubrificantes é contrabandeada à Colômbia e às ilhas caribenhas, em operações nas que, segundo as denúncias, envolvem até as forças policiais.

Na última semana, a Venezuela declarou o embaixador espanhol em Caracas, Jesús Silva Fernández, como “persona non grata”, devido às “suas contínuas agressões”, depois de acusar Madri de promover as recentes sanções da União Europeia contra funcionários venezuelanos. A intromissão dos governos neofascistas de Aznar e Rajoy não é coisa nova: o primeiro co patrocinou o golpe contra Hugo Chávez em 2002, e o então embaixador Manuel Viturro se reuniu com o “breve” ditador Pedro Carmona Estanga, que durou algumas horas no poder.

Luis Vicente León, presidente do instituto de pesquisas Datanálisis e consequente roteirista da oposição previu um contundente triunfo do presidente Nicolás Maduro nas eleições presidenciais, tal como ocorreu nas eleições regionais do ano passado. “Com as mesmas condições eleitorais, as mesmas fraturas opositoras, os mesmos chamados à abstenção por falta de alternativas, e a mesma necessidade governista de se sustentar no poder sem se importar com os custos, o resultado poderia ser o mesmo que o das eleições regionais”, advertiu.

Para León, com a data das eleições presidenciais fixada pela Assembleia Nacional Constituinte (antes de 30 de abril), “o Governo coloca sobre a mesa a data da eleição como uma nova peça de negociação e pressão para alcançar um acordo que lhe convém”, apesar da campanha internacional contra o governo, que certamente será reforçada.

O Partido Socialista Unido (PSUV), que maneja o aparato midiático e eleitoral governista, já lançou a autocandidatura de Maduro para a reeleição, desdenhando de qualquer sinal de democracia interna, enquanto a Promotoria Geral rapidamente acusa de corrupção aqueles supostos candidatos bolivarianos que poderiam fazer sombra ao atual mandatário.

Inclusive “fazendo o jogo das multinacionais petroleiras”, com acusações contra Bernard Mommer, para dar um fim à teoria e a política petroleira soberana do chavismo. Mommer formava quadros político-energéticos, não negociantes. Em consequência, o que se trata neste caso não é só de tentar manchar a imagem de Mommer e sim de Alí Rodríguez Araque (talvez o político de maior credibilidade no país), ex-ministro de Petróleo e presidente da estatal PDVSA.

Caso os partidos opositores Primeiro Justiça (de Henrique Capriles e Julio Borges) e Vontade Popular (de Leopoldo López) decidam não concorrer às presidenciais, os candidatos das primárias da oposição deveriam ser Henry Ramos, Henri Falcón e Claudio Fermín, num processo em busca de um candidato único.

Se não resolvem esse desafio da unidade, um segmento da oposição – que é minoritário mas que não deve ser menosprezado, já que conta com forte apoio externo em financiamento e armamentos – continuará insistindo no caminho da luta armada. Reverter esse deslize é o principal desafio do setor opositor partidário de eleições.

Para terminar, o governo e a oposição venezuelana voltarão a se reunir entre 28 e 29 de janeiro, em Santo Domingo, como confirmou o presidente dominicano Danilo Medina, que também disse que o diálogo “é a melhor solução para a Venezuela e para sua população. Não para a oposição nem para o governo, mas sim para os milhões de venezuelanos e venezuelanas que necessitam respostas”.

(*) Álvaro Verzi Ranger é sociólogo venezuelano e codiretor do Observatório de Comunicação e Democracia. Tradução Victor Farinelli