A direita voltou: pobre do pobre! – Por Cecilia Vergara Mattei

Para os trabalhadores e o povo, a direita desde sempre é um risco: os poderosos são inimigos de tudo o que cheira a pobre

O povo tem o direito de sentir o temor gerado pela volta da direita ao poder. Quando Sebastián Piñera for ungido por segunda e vergonhosa vez pela primeira mulher presidenta do país – após o seu segundo, desnecessário e lamentável período presidencial, se oficializará uma péssima notícia para as pessoas que são abusadas cotidianamente.

É certo que a direita chilena não é uma só. Entre os seus diferentes setores há grupos pseudodemocráticos e quase republicanos, mas também existe outro mais forte e assustador: o sedicioso, discípulo do fascismo e dos governos totalitários.

Enquanto milhões de chilenos (99% da população) dizem temer pelo futuro do país, o FMI e o Banco Mundial estão exultantes, porque sabem que com Piñera haverá bons tempos para o grande capital. A lista de ministros do gabinete é uma boa mostra do que está por vir: um mercador no Ministério da Educação, um empresário na pasta de Desenvolvimento Social, uma Madre Superiora no Ministério da Mulher, entre os exemplos mais eloquentes.

Os resultados das eleições passadas demonstram que a direita teve a sabedoria de deixar que outros fizessem por ela – a Concertação e a Nova Maioria, alianças de centro-esquerda sem uma gota de atrevimento – o que era necessário para sustentar o legado da ditadura de Augusto Pinochet, sem que isso parecesse assim. No Chile, ficou claro que uma coisa é o governo e outra muito diferente é o poder.

Há anos que a Nova Maioria (ou Concertação renovada) perdeu a bússola política e foi se afastando do povo. Aí estão suas derrotas nas eleições presidenciais de 2009 e 2017, ambas após governos da presidenta socialista (?) Michelle Bachelet. Sobretudo nesta última eleição, pelo tamanho da diferença de votos, ficou evidente que a centro-esquerda caminha por um lado enquanto o povo vai por outro.

Um sinal lamentável dessa situação é que Piñera ganhou, no segundo turno, em 17 das 20 comunas mais pobres de Santiago – embora tenha perdido no primeiro turno em muitas delas, para a Frente Ampla, que ficou em terceiro lugar nacional na primeira votação. “A Nova Maioria não só conseguiu descolorir o significado da democracia, ao aprofundar as desigualdades sociais produzidas pelo neoliberalismo que prometeu combater, como também ameaça – por suas equivocadas interpretações da derrota de dezembro – empurrar o povo a uma submissão prolongada às políticas da direita”, afirma o jornalista Manuel Cabieses.

Cabieses sustenta que o propósito estratégico desta avalanche ultradireitista será cortar as asas dos movimentos sociais utilizando todas as formas de luta, especialmente sua arma favorita: as leis. A direita sempre foi capaz de colocar seus interesses sobre a mesa, relegando a um segundo plano as diferenças que podem haver entre eles. E o mais importante, sabe quem é o inimigo.

O novo gabinete, com escassa presença feminina, está dominado por homens de 60 anos de idade, de clara tendência pró-empresarial, contrária às políticas de bem-estar, decididos a retomar leis “draconianas” (adjetivo usado pelo diário inglês The Guardian) em assuntos relevantes como aborto, identidade de gênero e outros direitos defendidos pela sociedade chilena.

Essa direita conservadora e beata voltou graças aos seus foros, os que a fizeram temível e repudiada, sediciosa e golpista, classista e totalitária, desde os Anos 70. Ainda é a mesma que, agora, se apronta a ser parte do próximo governo.

A legenda que melhor caracteriza a esse setor é a UDI (o ultrapinochetismo), que ocupará importantíssimos ministérios: Interior, Justiça, Saúde, Economia, Mulher, etc. A sigla conta entre seus quadros com velhas espécies da ditadura, como o novo ministro da Justiça, Hernán Larraín, decidido defensor da Colônia Dignidade e fervente admirador do líder daquele campo de concentração extemporâneo, o pedófilo nazi Paul Schäfer.

Para os trabalhadores e o povo, a direita desde sempre é um risco: os poderosos são inimigos de tudo o que cheira a pobre. E, curiosamente, isso tende a ser esquecido ou relativizado por alguns que apostam na amizade cívica que resolve tudo. E sobretudo, tendo a se esquecer do pobre. Pobre do pobre!

(*) Cecilia Vergara Mattei é jornalista chilena e analista do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

Tradução Victor Farinelli