Macri e seu sistema predador, muito além da simples corrupção – Por Aram Aharonian

O governo de Macri pisoteia as normas, desrespeita a separação de poderes, acomoda o Poder Judiciário de acordo com a sua conveniência e elimina a atuação do Parlamento, se valendo da artimanha do período de recesso, a urgência e a emergência

Em vários países de nossa região, o atual relato dominante tenta apresentar a política como uma prática corrupta, e não como uma ferramenta de transformação da realidade, das poucas que as maiorias empobrecidas têm para alcançar maiores níveis de redistribuição de renda e às vezes até de capital.

Busca-se criar o imaginário coletivo de que todos são (somos?) corruptos: os subornados e os subornadores, os que tiram capitais do país, os que sonegam impostos. E os que querem impor esse discurso são esses mesmos delinquentes que agora drenam os recursos do Estado em benefício pessoal e de suas empresas.

Na Argentina, a rede de meios privados governistas está há dois anos mostrando imagens providas pela Justiça, não menos partidária, com ex-funcionários ilegalmente disfarçados com jaquetas à prova de balas e capacetes, com maços de dólares cuja origem se desconhece e até se suspeita que tenham a ver com a Odebrecht e com a IECSA, a empresa encoberta da família presidencial.

Por trás desse espetáculo, que deixou o eleitorado argentino sem respirar – nem pensar – de agosto a outubro de 2017, estão os gerentes/ministros escondendo as roupas sujas de seu modelo que, em curtíssimo prazo, conduziu o país a mais pobreza, indigência, desemprego e aumento das doenças e da desnutrição infantil, como afirma o psicólogo e jornalista Carlos Villalba, que diferencia as condutas das pessoas e as características de um sistema econômico baseado em apropriações e injustiças.

José Massoni, ex-juiz e chefe do Departamento Anticorrupção afirma que as designações, reformas administrativas e medidas econômicas e sociais, internas e internacionais do atual governo argentino visam “instalar o modelo imperial de máxima imoralidade e injustiça global”.

Mauricio Macri, com um estranho (des)conhecimento de seu próprio país, disse no Foro de Davos que era “natural” um acordo de livre comércio com a União, porque “na América do Sul somos todos descendentes de europeus”, logo após ratificar o rol de exportador de alimentos que quer para a Argentina, e convidando os presentes a passar pelo stand argentino (livre de índios) para provar “vinhos e bananas”.

Macri chegou à presidência em dezembro de 2015 com mais de 200 denúncias judiciais e processamentos vigentes nas costas (um recorde Guiness?), e isso que até esse momento não havia sido divulgado o escândalo dos Panamá Papers – o diário conservador La Nación se esmerou em esconder sua publicação até depois das eleições – e dos Paradise Papers.

Dois anos depois, as negociatas do presidente-empresário começam a pipocar, através das operações de sócios, testas-de-ferro, familiares – “a melhor equipe que a Argentina já teve”, segundo seus propagandistas –, que envolvem bilhões de dólares evadidos, o constante drenar de fundos do Estado para as arcas privadas de Macri e seu gabinete de CEOs de multinacionais.

No Brasil, os corruptos magistrados ratificam uma tese sem argumentos nem provas do juiz Moro para concluir que o ex-presidente Lula da Silva recebeu um apartamento triplex numa praia paulista como suborno da empreiteira OAS, beneficiária de contratos da petroleira estatal Petrobras. Foi um processo visando impedir que Lula participe das próximas eleições.

Na Argentina, meia centena de importantes funcionários macristas têm interesses acionários nas mesmas empresas que regulam a partir do Estado, ou com as que negociam. Não é um problema ético, é delinquencial. A máquina corrupta está funcionando a todo o vapor: a metade das denúncias foram desestimadas em trâmites express por juízes ou promotores como Sebastián Casanello, Ariel Lijo, Rodolfo Canicoba Corral, Claudio Bonadío e Germán Moldes, os quais têm a missão de perseguir todo e qualquer funcionário do governo anterior, criando – através dos cartelizados meios hegemônicos – o imaginário coletivo de que o corrupto é o outro.

Mas vários temas começaram a tirar a sociedade argentina de sua anestesia: um deles, o escândalo dos Correios, no qual Macri tentou perdoar a si mesmo do pagamento de 70 bilhões de pesos que suas empresas devem ao Estado, e a tentativa de forçar por decreto o que foi negociado no Congresso com respeito à do branqueamento de capitais, sem a repatriação dos mesmos (o primeiro beneficiário foi deu irmão Gianfranco, com 622 milhões de dólares).

O jornalista Horacio Verbitsky começou o vazamento de dados através do diário Página/12, mas após ameaças do próprio mandatário acabou se afastando do jornal por decisão própria. Em suas palestras sem gravadores, Macri diz que há “562 argentinos que freiam as mudanças no país” e que “melhor colocá-los num foguete em direção à Lua, o país melhoraria tanto” – Verbitsky agora publica suas denúncias no portal El Cohete a la Luna (“o foguete à lua”).

O de Macri não é um governo de fato, mas governa de fato, pisoteia as normas, desrespeita a separação de poderes, acomoda o Poder Judiciário de acordo com a sua conveniência e elimina a atuação do Parlamento, se valendo da artimanha do período de recesso, a urgência e a emergência.

“O objetivo do governo macrista é o de garantir por decreto não só o direito de propriedade, como também o processo violento de transferência econômica dos setores populares ao capital concentrado especulativo, financeiro e agropecuário. Para que alguns tenham tanto, são muitos aqueles que deverão sofrer com a fome”, comenta o jornalista Carlos Villalba.

(*) Aram Aharonian é jornalista, analista internacional e comunicólogo uruguaio de vasta experiência. Foi fundador do canal TeleSur, codiretor do Observatório da Comunicação e da Democracia e do Centro Latino-Americano de Análise Estratégico (CLAE). Tradução Victor Farinelli