México: O fantasma da recessão, novamente usado para tentar frear a esquerda – Por Gerardo Villagrán del Corral

Tentam transmitir a ideia de que as transições políticas aos partidos que são críticos do modelo econômico imperante – o neoliberalismo mais especificamente – geram tal desconfiança que empresas e investidores se retraem.

No dia em que o governista Partido Revolucionário Institucional (PRI) anunciava José Antonio Meade como seu candidato para as eleições presidenciais de 2018, o Wall Street Journaladvertia sobre os signos de recessão no México, e o Conselho Nacional de Avaliação da Política de Desenvolvimento Social (Coneval) mostravam um aumento na população com renda menor que a cesta básica.

A fragilidade econômica, a ameaça de uma maior pobreza e a falta de coesão social são os elementos do desempenho recente do país neste 2018 e os mais importantes desafios sociais: a pobreza e a desigualdade pautarão certas estratégias eleitorais e definirão a rispidez da disputa.

A revista mexicana Proceso lembra que a ameaça de recessão sempre foi um espantalho usado pela direita para deter os avanços das esquerdas. Tentam transmitir a ideia de que as transições políticas aos partidos que são críticos do modelo econômico imperante – o neoliberalismo mais especificamente – geram tal desconfiança que empresas e investidores se retraem.

Por isso, não estranha o fato de que as declarações de funcionários de instituições financeiras privadas, que já formam parte da campanha eleitoral governista, acionem o alarme da recessão e apontem Andrés Manuel López Obrador como inimigo da atual política económica, e portanto promotor da recessão e do desastre: “AMLO é o verdadeiro perigo”, é a ideia que tentam impor o imaginário coletivo.

Por exemplo, a Finamex (bolsa de valores mexicana) avisa que um triunfo do Morena (partido de López Obrador) poderia retrair os investimentos privados e provocar recessão. O banco espanhol BBVA alertou seu país e a América Latina sobre os “riscos mexicanos”: eleições e TLC. Também se mostrou preocupado – “em termos de crescimento potencial”, segundo comunicou – com o futuro da reforma energética. Ou seja, a privatização do setor e os leilões dos campos petrolíferos.

Se Donald Trump deporta mexicanos em massa como promete, a economia do país sofrerá um golpe brutal, e se os Estados Unidos começarem a produzir mais petróleo, já que Trump não acredita na crise climática, o preço do petróleo cru cairá e isso também será um problema para o México. Ademais, se o presidente estadunidense conseguir a anulação do TLC, e obrigar o México a uma renegociação que não o favorece, a economia poderia, simplesmente, terminar na lona. Será para alarmismo?

Entre 1982 e 1983 não houve mudanças de partido no governo, mas sim uma crise profunda, e o mesmo aconteceu entre 1994 e 1996, quando Ernesto Zedillo substituiu Carlos Salinas: houve uma queda brutal da economia, que custou, só por conceito de resgate da banca, 100 bilhões de dólares, dos que ainda é preciso pagar a maior parte, sem contar os juros, como lembra a revista Proceso.

Naquele então, o país não mudou o partido de governo (continuou sendo o mesmo PRI, vinte anos antes de Peña Nieto), foi registrada uma inflação escandalosa, acompanhada pela diminuição dos salários reais, quebra de numerosas empresas e monstruosas taxas de juros ativas.

O México já havia vivido outra crise ao finalizar o mandato de Miguel de la Madrid, em 1988. Entre 2006 e 2012, mais um período de situação delicada. E agora, as previsões indicam que 2018 vai a ser novamente difícil para os mexicanos. Alguns analistas afirmam que, a médio prazo, poderia se chegar ao cenário mais negativo dos últimos 100 anos.

O afã desestabilizador do BBVA busca pressionar de antemão a relação com os investimentos petroleiros, não do todo definida, apesar das medidas do Estado para este setor. Com essa indefinição e tantos lobbies, o resultado é uma economia que sofre. Os analistas esclarecem que a participação externa nas indústrias de energia não vai substituir a baixa nos investimentos das multinacionais no México.

Mais dados da realidade: o aumento da dívida não pode ser equilibrado com a maior arrecadação devido aos desperdícios do governo, e a inflação aumento em 2017 por culpa do governo – leia-se Peña Nieto, Luis Videgaray e José Antonio Meade.

Se López Obrador vence as eleições – dizem os meios hegemônicos — haverá “instabilidade econômica imediata: muitos investidores não darão a ele o benefício da dúvida, o valor do peso mexicano desabará, a balança comercial sofreria um desequilíbrio como o 1994…”. Mas, por enquanto, é ele quem lidera as pesquisas, apesar da campanha suja do poder fático.

(*) Gerardo Villagrán del Corral é antropólogo e economista mexicano, analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE).

Tradução Victor Farinelli