Ninguém consegue frear a candidatura de López Obrador – Por Gerardo Villagrán del Corral

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Gerardo Villagrán del Corral*

Andrés Manuel López Obrador, candidato progressista da coalizão entre os partidos Morena (Movimento da Regeneração Nacional), PT (Partido do Trabalho) e PES (Partido Encontro Social), se inscreveu pela terceira vez no instituto eleitoral para concorrer à Presidência da República, desta vez com mais confiança em um triunfo. Durante a oficialização da candidatura, ele assegurou que não haverá represálias nem perseguições, afirmou que sua primeira iniciativa de lei será para poder julgar ao presidente por delitos eleitorais e corrupção, e disse estar disposto a se submeter a cada dois anos a um referendo revogatório do mandato – que no México é de seis anos, o que levaria a realizar dois possíveis referendos, em 2020 e 2022.

As pesquisas não mostraram variantes significativas nos últimos meses: López Obrador encabeça a corrida eleitoral, com um apoio que varia entre 30% e 35% das intenções de voto, dependendo da medição. O ultra conservador Ricardo Anaya, do PAN (Partido da Ação Nacional), fica em segundo, flutuando entre 20% e 18%, enquanto o centro-direitista José Antonio Meade, candidato do partido governista PRI (Partido Revolucionário Institucional), aparece em empate técnico com o segundo, mas sempre alguns pontos atrás.

O partido Morena conta com uma vantagem que os outros não possuem: uma liderança carismática e indiscutível, o que nestas alturas é um poderoso fator de unidade interna. Também é favorecido pela perspectiva triunfadora, já que todas as pesquisas o colocam como o virtual vencedor das eleições do dia 1º de julho.

Se a derrota (ou a perspectiva dela) gera divisões, as possibilidades de vitória são o contrário: um poderoso elemento de unificação. O sociólogo Carlos Figueroa Ibarra recorda que militantes de Morena, aqueles que arduamente participavam no trabalho organizativo, que há anos formam parte do “lopezobradorismo”, perderam o lugar de destaque nos atos do candidato para os políticos profissionais e para as personalidades midiáticas do mundo artístico ou esportivo.

Me refiro a personagens oportunistas, que outrora vociferavam contra o tal “perigo populista”, que desprezavam publicamente a López Obrador, repetindo os epítetos da direita neoliberal contra ele (“messiânico”, “incitador da violência”, “autoritário” etc.,), ou pior ainda, com um passado controverso, e que hoje são candidatos ao seu lado. Sem dúvidas, a vitória eleitoral carece de uma aliança ampla, e de candidatos possam reunir votos por base organizativa, recursos, fama, carisma, etc. O dilema será como manter um equilíbrio entre os princípios e a necessidade de vencer nas urnas.

“Reitero que não cairei em nenhuma provocação, mesmo que venha do presidente Enrique Peña Nieto”, afirmou López Obrador, depois que o chefe do Executivo disse que a eleição decidirá se a reforma energética será mantida ou cancelada. Num vídeo difundido nas redes sociais, López Obrador manifestou que trabalhará pelo resgate do petróleo e da indústria elétrica, mas sempre atuando dentro da legalidade. “Não vamos cometer nenhuma arbitrariedade”, assegurou.

O filósofo, linguista e cientista político estadunidense Noam Chomsky refletiu, durante uma recente visita ao México, sobre a América Latina, e especialmente sobre o México: “o governo mexicano deveria se rebelar contra o papel de submissão aos Estados Unidos, ao que está sujeito pelo Tratado de Livre Comércio (TLC)”. Também considerou que é fundamental – embora seja complicado, devido ao contexto interno do país – adotar políticas econômicas parecidas aos de nações do leste asiático, como a Coreia do Sul, que se recusaram a seguir as recomendações do FMI, e agora exibem um crescimento superior aos que insistem nas fórmulas neoliberais.

Um triunfo do candidato progressista – que até agora lidera com folga todas as pesquisas publicadas – preocupa o poder financeiro mexicano e as multinacionais. “Representa um risco para a continuidade da política macroeconômica”, segundo a agência qualificadora de investimentos Fitch Ratings, uma das mais influentes nos mercados financeiros mundiais.

“Sob uma administração de López Obrador, candidato da coalizão `Juntos Faremos História´, não poderiam ser descartados os riscos relativos a uma maior lentidão nas reformas, em especial no setor de energia. A reorientação das políticas econômicas a uma maior intervenção do Estado, assim como um aumento do gasto fiscal”, especulou a Fitch.

No dia 2 de março, outra agência qualificadora – aliás, a Standard and Poor’s, mais reconhecida entidade do ramo – considerou que “uma mudança na política econômica do México depois da eleição presidencial deste ano levaria à possibilidade de que o país seja rebaixado no índice de qualificação de risco da dívida emitida pelo setor público”.

Enquanto isso, Ricardo Anaya, representante da coalizão “México na Frente”, manifestou seu interesse por replicar no país a experiência dos partidos da Concertação chilena, após um encontro com os ex-presidentes do Chile Ricardo Lagos e Eduardo Frei, que formaram parte daquela aliança. Além do PAN, o bloco que impulsa a candidatura de Anaya, também é composto por partidos como o PRD (Partido da Revolução Democrática) e o Movimento Cidadão, considerados de centro-esquerda.

Anaya é acusado de lavagem de dinheiro, mas diz que seu governo estabelecerá um novo regime de combate à corrupção, garantia das liberdades e defesa dos direitos humanos, além de fomentar um crescimento econômico com inclusão e desenvolvimento social.

A propósito dessa contradição, Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), afirmou que “é melhor realizar uma investigação quando alguém é candidato do que depois que já é presidente”, em referência às denúncias contra Anaya por sonegação fiscal e uso de contas offshore.

O poder financeiro internacional tenta desesperadamente ajudar o candidato governista José Antonio Meade: o periódico inglês Financial Times chegou a vaticinar que ele ganhará as eleições presidenciais, e tenta, junto com outros meios, plantar essa pós-verdade no imaginário internacional. “O ex-secretário da Fazenda tem uma grande bagagem política, por ter formado parte dos três últimos governos mexicanos, além de uma maior estrutura eleitoral os seus adversários”, explica o diário britânico.

O sistema eleitoral do México prevê apenas uma votação nas eleições presidenciais. “Portanto, basta conseguir apenas 30% dos votos para que Meade consiga chegar ao poder”, especula o Financial Times, que também busca convencer seus leitores de que o candidato tem um carácter próprio e não é um clone do atual governo. A imprensa continuará insistindo em suas chances de vitória, apesar do aumento do preço dos combustíveis em 20% – medida adotada antes de janeiro – e do aumento da inflação.

Até o momento, nada parece ter força para incomodar o favoritismo de López Obrador. Nem mesmo as campanhas de difamação e as notícias falsas. Porém, ainda faltam pouco mais de cem dias para as eleições.

(*) Gerardo Villagrán del Corral é antropólogo e economista mexicano, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

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