Pompeo, os planos da Freedom House e a nova desestabilização – Por Álvaro Verzi Rangel

Álvaro Verzi Rangel*

Donald Trump não surpreendeu muito ao anunciar Mike Pompeo como novo secretário de Estado dos Estados Unidos. Um homem que, desde que ocupava o cargo de diretor da CIA, vem trabalhando na supervisão dos serviços de espionagem, e que certamente está atento à situação venezuelana, e para isso recebe o apoio da Freedom House, uma suposta organização não governamental que atua no país.

No dia 23 de janeiro deste ano, o agora chefe da diplomacia estadunidense reconheceu que a Venezuela “se encontra dentro das prioridades de Trump, que tem se mostrado especialmente interessado nos informes da Agência” sobre a teoria de uma suposta colaboração com Cuba, Rússia e Irã, considerada “um risco para os Estados Unidos e para todo o continente”.

“Os cubanos estão lá (na Venezuela), os russos também, os iranianos e até ao Hezbollah está lá”, disse ele. Desde julho, os Estados Unidos não descartam uma intervenção militar no país, e ao que parece Pompeo tampouco promete se afastar dessa ideia. Sua atitude não é coisa nova: Durante o golpe de Estado de 2002, a organização Freedom House admitiu: “trabalhávamos com os que buscam acabar com a direção autoritária do governo”. Naquele então, era o governo de Chávez, agora é o de Maduro.

Com o assessoramento da Freedom House, os opositores venezuelanos continuam promovendo atividades contra o processo eleitoral e contra o governo constitucional. Documentos revelados por fontes da divisão latino-americana da organização – cuja sede principal fica em Washington – revelaram sua nova estratégia contra a Venezuela.

Em 2012, a Freedom House (FH), fez uma chamada urgente à Embaixada estadunidense em Caracas, devido ao conflito interno dentro de uma oposição dividida, às vésperas de uma importante eleição de governadores – que aconteceria em dezembro daquele ano. Agora, a mesma situação se repete, seis anos depois, e com o chavismo ainda no governo.

Também foi confirmada uma informação que todos já suspeitavam há muito tempo: a colaboração entre Viviana Giacaman, responsável pelos programas da FH para a América Latina (e especialmente para a Venezuela – e Héctor Tavera, um funcionário da Embaixada dos Estados Unidos que é venezuelano, embora tenha sido criado em Miami. A mensagem dela para o diplomata dizia o seguinte: “analisando o cenário atual, as possibilidades de vitória são poucas, mas não desperdiçáveis”.

A estratégia de FH está centrada em apoiar e financiar as organizações opositoras para “documentar as violações aos direitos humanos, aumentar a cobertura nacional dos meios de comunicação sobre direitos humanos e o fortalecimento das campanhas através de iniciativas cidadãs para supervisar o processo eleitoral na Venezuela”.

Em sintonia com esses objetivos, a FH financia investigações de jornalistas “independentes” sobre “a corrupção na Venezuela, visando facilitar o acesso a informações capazes de convencer a comunidade internacional em sua luta contra o uso indevido de recursos públicos e a impunidade no país”.

Outra vertente planejada pela CIA é a de financiar – através da FH – alguns ex-juízes do Tribunal Supremo de Justiça (hoje no exílio), como Antonio José Marval Jiménez e Alejandro Jesús Rebolledo, e os dirigentes opositores Julio Borges, do partido Primeiro Justiça, e Armando Armas, deputado do partido Vontade Popular.

Enquanto isso, a FH coordena ações contra o governo de Nicolás Maduro, com a ajuda de outros opositores, entre eles Jorge Gregorio Correa (Primeiro Justiça), Nicmer Evans (ex-integrante do Maré Socialista, hoje do partido Juntos), Mitzy Capriles (esposa de Antonio Ledezma, foragido da Justiça) e o analista político Gustavo Coronel, além de Diana López, irmã de Leopoldo López (que continua preso), e dos jornalistas Maibort Petit e Casto Ocando.

Os eventos promovidos pela FH contra o governo da Venezuela também contam com o apoio de instituições estadunidenses como o Elliott School of International Affairs, do Programa Latino Americano da George Washington University, e de outra organização conhecida por seu caráter subversivo: Carnegie Endowment for International Peace.

Também há outros colaboradores estrangeiro que dão sustento ao programa da FH na Venezuela: Eric Farnsworth (vice-presidente da Americas Society and Council of the Americas), Ana Julia Jatar (editora-chefa do El Planeta, um diário latino com sede em Boston, e esposa de Ricardo Hausmann, diretor do Centro para o Desenvolvimento Internacional da Kennedy School of Government de Harvard, ministro de Planejamento do governo de Carlos Andrés Pérez e ex-funcionário do Banco Mundial), Hilda Ochoa-Brillembourg (do Strategic Investment Group) e Héctor Sschamis (professor adjunto da Universidade de Georgetown).

A direção da equipe de trabalho da Freedom House encarregada do projeto na Venezuela continua sob as ordens de Carlos Ponce. Entretanto, ele e sua equipe não estão sozinhos nessas atividades antivenezuelanas, já que contam com a supervisão de Michael Abramowitz e Daniel Calingaert, diretores da FH.

Sabe-se que a FH dispõe de um programa geral para a América Latina, coordenado pela CIA e pelo Comando Sul, dirigido especialmente para Equador, Venezuela, Nicarágua, Bolívia e Cuba, onde trabalham na configuração de “provas dos abusos cometidos por esses governos, a serem apresentadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas”.

Desde 2016, a FH voltou a ter presença e protagonismo na Venezuela, através de uma sede física informal – o edifício Procter and Gamble, em La Trinidad –, integrada por cidadãos venezuelanos assalariados, que monitora a situação interna. Analisam os casos de violência e condutas antissociais suscetíveis de serem apresentadas como focos de rebeldia política.

Utilizando as capacidades e a rapidez das redes sociais, sua missão é fomentar ações dessa natureza, como forma de esquentar o clima nas ruas e desestabilizar ainda mais a situação que o país vive. É um grupo que continua apostando em fraturar a ordem constitucional com ações violentas, que tenham origem aparentemente popular

O espetáculo que as instituições e governos da direita regional montaram, junto com a CIDH, OEA (Organização dos Estados Americanos) e o governo dos Estados Unidos, para colocar fogo na Venezuela, tem como objetivo final criar o ambiente propício para uma ação justificada no país, ainda mais agora com Mike Pompeo como secretário de Estado, o que leva a crer que essa possibilidade para a ser mais factível.

(*) Álvaro Verzi Ranger é sociólogo venezuelano e codiretor do Observatório de Comunicação e Democracia