A tentação argentina pelo método Facebook-Cambridge Analytica – Por Aram Aharonian

Por Aram Aharonian*

A empresa britânica Cambridge Analytica trabalhou para a candidatura de Donald Trump em 2016 e tem sido questionada pelas muitas campanhas sujas que já realizou, e também teria atuado nas eleições da Argentina, onde o governo acaba de inaugurar a Unidade de Opinião Pública, para monitorar a gestão governamental e reunir informação dos cidadãos.

A tentação do macrismo de usar os mesmos métodos de Trump são muito grandes, ainda mais quando um informe da Anistia Internacional mostrou como funcionam os ciberataques contra todos aqueles que criticam ou tenham um discurso diferente às políticas da coalizão governista Cambiemos: “esses ataques a posturas críticas ameaçam a livre circulação de informação, ideias e opiniões, violando a liberdade de expressão”.

O informe indica que defensores dos direitos humanos e jornalistas sofrem “acosso serial” nas redes sociais, provenientes de perfis vinculados com o governo. O objetivo, “não só (consiste em) desqualificar os objetos diretos da agressão”, como também servir “como um dispositivo de disciplinamento do resto da sociedade, que é dissuadida a pôr em circulação opiniões e ideias que provoquem o ato reflexo de hostilidade nas redes”.

Os ataques nas redes usam vários métodos diversos, como o uso de trolls (que buscam incrementar a violência do debate para bloquear ou desviar a conversa do tema principal), bots (programas robôs, contas parcial ou totalmente automatizadas) e a difusão de informações falsas (fake news). Após a criação da Unidade de Opinião Pública, não seria de se estranhar que o governo tente implementar um plano similar ao da Cambridge Analytica.

Na emissão de um programa especial do Canal 4 do Reino Unido que abordou este tema, a Argentina foi mencionada com um dos lugares onde se realizaram essas operações. A reportagem mostrou que “nas reuniões, os executivos se vangloriavam de como a Cambridge Analytica e sua empresa matriz, Strategic Communications Laboratories (SCL), haviam trabalhado em mais de 200 eleições em todo o mundo, incluindo países como Nigéria, Quênia, República Tcheca, Índia e Argentina”.

A investigação traz uma história irresistível para a imprensa: uma pequena empresa de origem britânico, com uma ferramenta demográfica capaz de segmentar as mensagens aos eleitores individualmente, foi capaz de ser instrumental, não só para a vitória de Trump nos Estados Unidos, como também anteriormente, na campanha do Brexit no Reino Unido.

Sua tecnologia permitiu criar um perfil psicológico personalizado dos votantes para ajustar as mensagens da campanha exatamente de acordo aos interesses e gostos particulares, proporcionando estabelecer uma fórmula para moldar os discursos e encontrar a forma exata para alcançar vitórias espetaculares.

Os serviços da empresa permitiram identificar partidários, persuadir eleitores indecisos e fomentar a participação eleitoral. Além disso, permitiram a Trump arrecadar mais recursos em pequenas doações que nenhum outro político republicano na história.

Este perfil, baseado no modelo Ocean – um modelo de personalidade que analisa a esta como a composição de cinco fatores amplos: O (Openness, ou a abertura a novas experiências), C (Conscientiousness ou responsabilidade), E (Extroversão), A (Amabilidade) e N (Neuroticism, ou instabilidade emocional), cuja sigla em inglês forma o acrônimo “Ocean” –, permitia ao candidato ajustar suas mensagens eleitorais. O objetivo não era só convencer os indecisos como também desanimar aos simpatizantes dos candidatos adversários ou contrários às ideias de Trump.

Segundo Alexander Nix, quem é, até agora, o acionista principal da Cambridge Analytica e da SCL, quase todas as declarações emitidas por Trump se baseavam nesses dados e estavam dirigidos a blocos específicos de eleitores: sua aparente dissimulação não era mais que um cuidadoso script personalizado para persuadir os eleitores certos.

Os perfis

O acadêmico Aleksandr Kogan e sua empresa Global Science Research criaram em 2014 um aplicativo chamado thisisyourdigitallife. Seus usuários foram pagos para que realizar uma prova psicológica em forma de questionário. A ferramenta reuniu esses dados via Facebook, e também informações relacionadas aos amigos daqueles que a utilizavam a ferramenta.

Cerca de 270 mil pessoas responderam o questionário, gerando uma base de dados de 50 milhões de usuários – a grande maioria dos Estados Unidos – cujos dados foram “colhidos” sem seu consentimento explícito, através de suas redes de amigos. Logo, Kogan compartilhou essas informações com a Cambridge Analytica, o que permitiu desenvolver um software para ajudar a influir nas eleições, como explicou Christopher Wylie, ex-empregado da empresa, durante a reportagem televisiva.

Alexander Nix, de 42 anos, foi criado no bairro londrino de Notting Hill e estudou História da Arte na Universidade de Manchester. Sua carreira nos negócios começou no México, como analista financeiro da empresa Baring Securities. Em 2003, passou a trabalhar para a SCL, casa matriz da Cambridge Analytica, e viveu na Argentina em 1998, onde participou na fundação de uma empresa de administração de serviços ao cliente, segundo o revelado pelo diário Clarín.

A SCL tem uma filial na Argentina, no bairro portenho de Retiro, embora esta não esteja escrita em nenhum registro. Ali está a base da Blacksoil, uma conhecida firma de produtos agrícolas, dirigida por Lucas Talamoni Grether, amigo de Nix. Ambos fundaram a equipe de polo Libertines, para disputar a Copa Eduardo Moore.

Graças a este esporte, Nix conheceu o polista Juan Pepa, com quem fundou a Rubirosa Ltd, uma empresa com sede em Londres. Nix também é padrinho da Fundação Pro Alvear, uma iniciativa da família Pepa para o desenvolvimento educativo, econômico e social da localidade de Intendente Alvear e outras regiões vizinhas, na província argentina de La Pampa. Mauricio Macri visitou a sede da fundação quando ainda era prefeito da cidade de Buenos Aires.

O analista político Eduardo Febbro, em seu estudo “O liberalismo coloniza a rede”, afirma que não há dúvidas de que, na Argentina, o Facebook serve e sempre serviu aos interesses do liberalismo governante.

“O primeiro ato de resistência moral e política de um progressista digno do Século XXI consistiria em fechar imediatamente sua conta no Facebook. Entretanto, isso parece ser mais difícil que obrigar os diretores da rede social a serem mais responsáveis. Estamos diante de uma aliança liberal ultraconservadora pactuada entre setores políticos e companhias tecnológicas. É uma guerra ideológica sem bombas e devemos deixar de ser os cordeiros inocentes que contribuem às vitórias de seus algozes”, fundamenta.

Controlar a opinião pública

Em meio às denúncias sobre o comportamento dos trolls e as campanhas de informações falsas nas redes sociais para atacar as posições críticas ao governo, além do escândalo pelos vazamentos de dados pessoais no Facebook – no qual a Argentina também estaria envolvida – o chefe de gabinete do governo de Macri, Marcos Peña, incrementou seu leque de instrumentos para medir e controlar a opinião pública.

O funcionário criou a Unidade de Opinião Pública, cuja missão é “monitorar a gestão do Governo e reunir informação”, só que informação dos cidadãos. O organismo, que será dissolvido após as eleições presidenciais do ano que vem, tem como objetivo “elaborar um plano de seguimento da opinião pública que permita avaliar a gestão do governo e conhecer as demandas da população, como recurso para o desenho e a implementação das políticas públicas”, ao menos no discurso oficial.

Da propaganda militar à influência eleitoral

A Cambridge Analytica é a filial estadunidense do grupo britânico SCL, dedicado à chamada “propaganda militar”, e que se apresenta como “uma agência global de gestão eleitoral”. Ela surge com esse nome em 2005, anunciando seus serviços de operações de influência, guerra psicológica e diplomacia pública, que incluem a gestão de crises como epidemias ou golpes de estado, através de seus centros de controle para vigiar e inclusive influir nos meios de comunicação.

A empresa havia operado antes, desde sua fundação (em 1993), sob o nome de Behavioural Dynamics Institute (BDI), e também Harrington Oakes, trabalhando também para clientes civis, e funcionava em paralelo com um laboratório de nome equivalente fundado por Nigel Oakes, que utilizava o conhecimento desenvolvido pero famoso especialista em comunicação Phil Taylor (Universidade de Leeds), um assíduo conferencista em instâncias militares vinculadas à OTAN e exércitos aliados da Grã-Bretanha.

Os primeiros passos da BDI como empresa foram voltados à gestão de influência em situações de crise, e como tal começou a participar em eleições e conflitos em vários países: trabalhou para os primeiros presidentes de Indonésia depois de Hadji Suharto, no ano 2000, apesar de um escândalo na imprensa obrigou a empresa a revelar seu avançado centro de controle informático em Jacarta.

Seja com o nome de BDI, ou já como SCL, a empresa trabalhos também no Afeganistão, Itália, Letônia, Lituânia, Ucrânia, Albânia, Romênia, África do Sul, Nigéria, Quênia, Ilhas Maurício, Índia, Tailândia, Taiwan, Colômbia, Antígua, São Vicente e Granadina, São Cristóvão e Nevis, Cingapura e Trinidad e Tobago, assim como para alguns exércitos de países membros da OTAN.

A estrutura acionária do grupo é complexa, segundo reportagem do periódico espanhol El Diario, com vários acionistas que são companhias instrumentais radicadas em paraísos fiscais. Nigel Oakes ainda é o principal acionista individual, junto com Alexander Nix – atual conselheiro delegado da Cambridge Analytica – e seu pai, Paul David Ashburner.

Através destes acionistas, a matéria chega ao Grupo Athena, uma misteriosa consultora na que Nix trabalhava usando o nome de Alexander Ashburner, quando foi denunciado (em 2009), junto com outro atual executivo da SCL, por Ralph Gonsalves, primeiro ministro da ilha caribenha de São Vicente e Granadinas, por sua relação com a campanha do “NÃO”, no plebiscito de reforma constitucional celebrado naquele ano.

Antes disso, Nix foi gestor financeiro e executivo em empresas e bancos no México, Argentina e Grã-Bretanha. Em abril de 2016, a revista Wired incluiu Nix em sua lista de “25 gênios que estão criando o futuro dos negócios”, pelo trabalho da Cambridge Analytica no campo da publicidade.

Siemens, Indra, Macri

A multinacional espanhola Indra – cuja eventual vinculação com a Cambridge Analytica é investigada por um grupo internacional de jornalistas – teve sob sua responsabilidade o manejo dos dados da chamada “apuração provisória” nas eleições argentinas nos anos de 1997, 1999, 2001, 2003, 2005, 2007, 2009, 2011, 2013 e 2015 (a Justiça Eleitoral realiza a apuração definitiva). Em 2017, ela realizou esse serviço também durante as primárias, no dia 13 de agosto, além das eleições legislativas de 22 de outubro, recebendo um total de 25 milhões de dólares para isso.

Nas primárias, a oposição reclamou do atraso na publicação dos resultados e acusou a Indra, empresa encarregada do escrutínio, de manipulação dos dados. De fato, era estranho o fato de que o governo começou a comemorar já às 21h do dia da votação, quando a diferença oficial era mínima e ainda faltavam muitas mesas a serem contadas. “Atrasaram a apuração para que Macri pudesse dormir como vencedor?”, perguntou o diário Perfil. Nas duas horas posteriores à cena de Macri celebrando seu triunfo, a brecha entre os candidatos se reduziu quase 7% a quase zero.

A Indra conta com vasta experiência em escrutínios a nível mundial: trabalhou em mais de 300 eleições, em países como Reino Unido, França, Noruega, Eslovênia, Portugal, Itália, Estados Unidos, Angola e Venezuela. Em 2009, foi questionada por irregularidades na recontagem de votos na província argentina de Córdoba.

Também foi alvo de denúncias na Venezuela, em 1998, quando se implementou a automatização dos processos eleitorais no país. A empresa demorou várias horas para anunciar a vitória de Hugo Chávez. Não voltaram a atuar na Venezuela depois de 2000.

Em 2009, o bloco de deputados da Frente para a Vitória (kirchnerismo) expressou sua “preocupação pela falta de transparência” da informação oficial sobre o sistema que a empresa aplicará na contagem, e denunciou irregularidades na contratação do serviço. Também denunciou que seu CEO é Jorge Irigoin, um “homem histórico do Grupo Socma, que pertence à família de Mauricio Macri

Em 19 de fevereiro de 1998, o então presidente Carlos Menem concedeu à empresa Siemens IT Services SA (Sitsa) o serviço de confecção do documento nacional de identidade (DNI, similar ao RG brasileiro) e dos passaportes, por um período de 6 anos, pelo qual a empresa receberia 600 milhões de dólares – que logo passaram a ser 1,2 bilhões. O contrato esteve sob suspeita desde o começo da operação, o que derivou em uma investigação liderada pelo juiz Ariel Lijo, que denunciou contratos fictícios com um conjunto de sociedades por serviços que jamais foram prestados.

Lijo comprovou que “existia um acordo econômico entre integrantes da Siemens e do grupo econômico Socma (de Franco Macri, pai de Mauricio) em troca de que as principais concorrentes (UTE Itron, SHL Systemhouse Inc., TRW Systems Overseas Inc. y Malam Systems Ltd.), permitissem a contratação da Siemens It Services SA, sem efetuar impugnação alguma”.

Por isso, a proposta apresentada pela empresa Itron “perdeu” a licitação. Dois meses depois, a Siemens se associou com o grupo Macri, adquirindo 60% da Itron. Os outros 40% já estavam nas mãos de familiares do atual presidente. O vice-presidente executivo da Itron era Ricardo Viaggio.

Em 1999, o governo de Menem tentou implementar (sem sucesso), o voto eletrônico no país. As duas empresas interessadas foram a Indra e a Siemens Itron. A Indra era a empresa que trabalhava contratada pelo Correio Argentino (que naquele então havia sido concessionada ao Grupo Macri) para realizar a contagem dos votos nas eleições argentinas.

Em 2003, a Siemens compra 40% da participação de Franco Macri na Itron. Meses depois, Viaggio, histórico empregado da Socma, volta à Argentina como diretor geral da Indra.

Em julho de 2016, já como presidente da Argentino, Macri visitou a sede da Siemens na Alemanha. Em 29 de dezembro desse mesmo ano, se conheceu a notícia de que a causa Siemens finalmente teria uma audiência, 20 anos depois de a empresa alemã reconhecer o pagamento de propinas. Contudo, nem Menem nem os Macri foram envolvidos.

Desde que Macri assumiu o governo, executivos da Indra assumiram cargos importantes no setor maneja as decisões eleitorais, como é o caso de Manuel Terradez, ex-gerente da Indra, que foi nomeado para a Subsecretaria de Reforma Política da Província de Buenos Aires, em dezembro de 2016.

Além dos ataques nas redes contra opositores e do uso de trolls, bots e a difusão de informações falsas, agora temos a criação da Unidade de Opinião Pública. Não se deve descartar a tentativa de um plano similar ao da Cambridge Analytica visando as difíceis eleições presidenciais do próximo ano, ainda mais agora que a credibilidade e popularidade do macrismo já está em clara tendência de queda.

(*) Aram Aharonian é jornalista e comunicólogo uruguaio, fundador do canal TeleSur e presidente da Fundação para a Integração Latino-Americana (FILA)