Como os Estados Unidos alimentam a tensão nas eleições da Venezuela – Por Álvaro Verzi Rangel

Por Álvaro Verzi Rangel*

As tensões entre os governos da Venezuela e dos Estados Unidos vêm crescendo constantemente desde 2014, quando o Congresso estadunidense aprovou a Lei de Proteção dos Venezuelanos, que serviu de base para o decreto do presidente Barack Obama no qual declara a Venezuela como um perigo para a segurança.

O governo estadunidense estabeleceu a derrubada do presidente Nicolás Maduro como uma questão de honra, um objetivo prioritário. Neste sentido, passa a ser importante evitar que ele se mantenha no Palácio de Miraflores até o dia 20 de maio, pois são muito grandes as chances de que ele vença as eleições presidenciais, limpamente, com um sistema eleitoral inquestionável. Ademais, Maduro não tem uma oposição forte e conta – ao menos por enquanto – com o apoio das Forças Armadas.

Os Estados Unidos sabem que a oposição na Venezuela não existe, se suicidou por falta de ideias, projetos e, sobretudo, por falta de credibilidade. Se autodissolveu, como resultado de seus erros e da própria insensatez e da obediência cega às equivocadas estratégias sugeridas por seus mandantes do Norte. A realidade foi mais forte que os discursos pomposos declamados pelos microfones: os opositores ao chavismo perderam o rumo, entre as muitas divergências entre si e as conversas de alguns setores com altos funcionários da diplomacia estadunidense.

Após o período de Obama, Washington passou a usar uma nova estratégia. Com Donald Trump, a Venezuela passou a ser uma das prioridades do secretário de Estado Rex Tillerson, até que este terminou sendo despedido após sua controversa turnê pela região, enquanto as fricções aumentavam no país, sem que se pudesse estabelecer mecanismos diplomáticos ou de negociação para processar as controvérsias, deixando a disputa restrita a batalha de microfones, manchetes, redes sociais e campanhas midiáticas internacionais.

O analista mexicano John Saxe Fernández se pergunta John Bolton, o novo conselheiro de segurança, será o agente de Trump para negociar melhor e potenciar sua força retórica, enquanto se trabalha para impedir um iminente juízo político – liderado pelo promotor especial Robert Mueller – após uma nova polêmica por escândalos pornográficos. Bolton também poderia atuar no caso venezuelano, devido ao seu passado como embaixador na ONU, entre outros talentos.

Tanto Washington quanto Caracas entendem que o conflito atual se trata de uma divergência entre Estados. Não há um paralelo, por exemplo, com as negociações entre fatores internos venezuelanos, que é o que se está fazendo na República Dominicana, com delegados governistas e opositores, o qual não tem poder de substituir um diálogo direto entre representantes dos dois países – ainda quando alguns opositores vivam de reproduzir as posturas ditadas pelo Norte. O caso aqui é que há sanções concretas, as quais só a Casa Branca tem o poder de reverter, mas isso só poderá acontece sobre a base de acordos e concessões mútuas.

A Venezuela, do ponto de vista geopolítico, vem se separado da área de influência estadunidense, e esse é o motivo das fricções, ainda que as velhas doutrinas não tenham a mesma vigência num mundo globalizado e em mutação, onde os controles territoriais são menos significativos.

A fracassada tentativa opositora de ganhar espaço apostando na violência mostrou que a negociação é o caminho mais adequado para resolver os conflitos – e não só no caso venezuelano, basta ver o que acontece entre as Coreias, caso que ainda tem o agravante de envolver o uso de armas nucleares em uma problemática que se mantém desde a Guerra Fria, mas que agora chegou a um ponto de um possível encontro entre Donald Trump e Kim Jong-un.

O cientista político Leopoldo Puchi afirma que as tensões entre Venezuela e Estados Unidos são de um teor diferente, incomparáveis com o caso coreano, mas ainda assim é válido perguntar por que não se tenta resolver os pontos em discórdia por meio da criação de uma mesa de diálogo entre os dois países. Por acaso, a regra é que só os países que possuem armas nucleares podem negociar?

Os que apostaram na violência

Enquanto a campanha “Todos somos Venezuela” mobilizou a solidariedade dos povos da América Latina para com a Revolução Bolivariana, a guerra de baixa intensidade e de quarta geração, continua em diversas frentes, alimentando as medidas mais duras do governo do presidente Donald Trump contra a Venezuela.

O senador republicano da Flórida, Marco Rubio, que financia os setores venezuelanos golpistas – os quais defendem abertamente uma intervenção estrangeira no país – escreveu um artigo, publicado no dia 17 de março, que “está chegando o dia” no qual os venezuelanos verão o presidente Nicolás Maduro fora do poder, e o dirigente Diosdado Cabello extraditado aos Estados Unidos, por seus negócios com o narcotráfico.

Rubio, integrante do lobby cubano-americano, também maneja o terrorismo contra Cuba, advertiu, semanas atrás, que “se Maduro pensava que a pressão diminuiria, está muito enganado”, e ratificou estar seguro de que o presidente Trump “está comprometido com uma Venezuela livre, onde se restabeleça a ordem democrática”.

O senador emitiu uma série de ameaças contra um dos funcionários estadunidenses com maior prestígio e de reconhecida lealdade e patriotismo: Todd Robinson, encarregado de negócios do seu país em Caracas. Rubio também é um defensor da distribuição de armas aos civis sem restrição alguma, e não gostou nem um pouco das declarações dadas por Robinson em uma entrevista de rádio.

Para os setores conservadores-fundamentalistas, “restabelecer a democracia” significa derrubar um presidente democraticamente eleito pelas maiorias, e que se opõe à entrega das riquezas de seu país à voracidade recolonizadora norte-americana e suas grandes corporações transnacionais. Uma tese que também é adotada por alguns governos latino-americanos, como Colômbia, Chile, Brasil, Peru e Argentina, entre outros.

Mark Green, diretor da organização USAID – com a qual o país ajuda a financiar grupos políticos que defendem os interesses estadunidenses fora da sua fronteira –, entregou nas últimas semanas uma quantia equivalente a 2,5 milhões de dólares à Colômbia, para que este país ajude na “restauração democrática” da Venezuela, além de 36,5 milhões de dólares para operações de fronteiras da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) – que trabalha em zonas onde estão preparados para atender uma inexistente “crise humanitária” venezuelana, argumento criado para reforçar a retórica e a guerra psicológica e de quarta geração promovida pelo Comando Sul dos Estados Unidos e pelo Pentágono.

Maduro recebeu Caleb McCarry

Em fevereiro, o presidente Maduro recebei Caleb McCarry, assessor da comissão de política exterior do Senado dos Estados Unidos, que havia solicitado uma reunião para tratar da situação de Joshua Holt, um estadunidense preso na Venezuela. Esta gestão se realizou sob a intermediação do Grupo Boston, do qual formam parte tanto McCarry quanto o próprio Maduro, e o ex-secretário de Estado (2013- 2017) John Kerry.

O Grupo Boston é uma comissão parlamentar venezuelano-estadunidense financiada pela OEA (Organização dos Estados Americanos), criada em 2002, depois do fracassado golpe de Estado de 2002, para tratar de temas cruciais para ambas as nações, num ambiente de menor polarização.

No começo, a atividade entre Maduro e McCarry era mais uma das frequentes gestões realizadas pelos parlamentos de qualquer país em favor de seus cidadãos. Contudo, é preciso destacar que a ocasião serviu para estabelecer um fio de comunicação entre dos países levaram suas relações diplomáticas a um nível mínimo já há alguns anos.

Os analistas consideram que se trata de uma iniciativa cuja importância não se deve subestimar, por mais que não emane diretamente da Casa Branca – afinal, todas as iniciativas na matéria de política exterior se fazem de forma concertada com o Executivo.

Robinson diz que acredita no diálogo

Numa entrevista de rádio, Todd Robinson, encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos na Venezuela, afirmou que embora as relações com o governo da Venezuela tenham sido difíceis nos últimos anos, “sempre há espaço para atuar em favor de uma melhora, e eu creio no diálogo e nas negociações, há autoridades tanto em Caracas quanto em Washington que querem falar e necessitam falar”.

Robinson sustenta que em vez de endurecer as relações, “é preciso buscar este espaço para falar, dialogar, sobre os temas mais importantes entre os dois países”. Sobre as sanções do governo de Trump contra funcionários venezuelanos, Robinson afirma que são medidas individuais, e que “o propósito é evitar que essas pessoas que cometeram delitos financeiros e de corrupção, possam usar o sistema financeiro dos Estados Unidos”.

Com relação à ordem executiva que proíbe as transações com o petro – a cripto moeda venezuelana lastreada em petróleo – o funcionário estadunidense reiterou que “o Departamento do Tesouro tem uma posição firme a esse respeito, já que essa cripto moeda estaria aumentaria a possibilidade de evadir as sanções. Não significa que eles não podem buscar suas maneiras de fazer negócios, o que estamos dizendo é que não podem usar o nosso sistema”.

Com relação ao tema eleitoral, o diplomata assegurou que a administração Trump esperará a decisão que os venezuelanos tomarão nas eleições previstas para o dia 20 de maio. “Os venezuelanos vão decidir se as eleições têm credibilidade ou não, nós vamos a esperar a decisão dos cidadãos”.

Evidentemente, as opiniões de Robinson não foram bem recebidas por aqueles que defendem a intervenção militar estadunidense como única alternativa para se chegar ao poder, devido à impossibilidade de conseguir uma vitória pela via eleitoral. A verdade do caso é que o episódio permitirá saber até onde chega a influência de Rubio na administração Trump, e também o quão sólido é o piso político de Todd Robinson.

As tensões que se mantêm à flor da pele não evitaram alguns encontros velados entre funcionários de ambos os países, enquanto a guerra midiática continua sendo vencida pela imposição do imaginário coletivo internacional de um país destruído, em crise humanitária, com um governo ditatorial e autoritário. Os falcões de Washington buscam encontrar a fórmula para derrubar Maduro, de possível antes de 20 de maio, antes de que ele seja reeleito. Talvez sem pensar no dia seguinte.

(*) Álvaro Verzi Ranger é sociólogo venezuelano e codiretor do Observatório de Comunicação e Democracia