Cuba sob as ordens de um novo sobrenome – Por Elmer Pineda dos Santos

Por Elmer Pineda dos Santos*

Nesta quinta-feira (19/4) será constituída a nova Assembleia Nacional do Poder Popular, eleita no dia 11 de março, que depois irá escolher, entre seus membros, quem será o novo presidente do país, além dos primeiro vice-presidente, outros cinco vice-presidentes, um secretário e 23 membros do Conselho de Estado, órgão máximo do Poder Executivo. Será uma etapa inédita numa história em que, nos últimos 60 anos, sempre terminou com a hegemonia do sobrenome Castro.

Muda, tudo muda, dizia uma bela poesia do chileno Julio Numhauser, popularizada pela voz de Mercedes Sosa. Fidel Castro foi o líder incontestável da Revolução Cubana e do Partido Comunista de Cuba durante muitos anos, além de comandar as instituições militares e as presidências do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros.

Com a sua doença, todas essas tarefas foram entregues ao seu irmão mais novo, Raúl. Agora é este que, aos 86 anos de idade, precisa se retirar por motivos de saúde, desistindo de concorrer à reeleição para um terceiro mandato (de cinco anos), embora se especule que seja mantido na presidência de honra do partido ao menos até 2021.

O favorito para ser o primeiro presidente cubano sem o sobrenome Castro desde 1959 é Miguel Díaz-Canel, de 57 anos, atual primeiro vice-presidente dos conselhos de Estado e de Ministros. Também será o primeiro civil a comandar os corpos armados cubanos desde o começo da Revolução.

Mas o de Díaz-Canel não é o único nome especulado. Também se fala muito na engenheira florestal Mercedes López Acea, de 53 anos, vice-presidenta do Conselho de Estado e primeira-secretária do PC de Havana, embora esta seja apontada como nome mais cotado para outro cargo, como o de primeira vice-presidenta – quem, no caso de ausência, doença ou morte do governante, deve assumir imediatamente as suas funções. Há se de destacar o fato de que 53% das 605 cadeiras do novo parlamento serão ocupadas por mulheres.

A renovação política em Cuba, com um processo visando dar mais espaço às novas gerações, começou há vários anos. No parlamento eleito em 2013, mais de 78% dos seus membros nasceu depois de 1959 e sua média de idade é de 48 anos. Hoje, são 80 os deputados que têm entre 18 e 35 anos.

Sem Castros

O próximo presidente de Cuba não será um Castro. Miguel Díaz-Canel, o mais provável sucessor, é um homem que iniciou sua carreira política se destacando pela promoção do respeito à diversidade sexual e pela difusão de opiniões críticas ao governo. Em Santa Clara, sua terra natal, ele é recordado por seu humilde estilo de vida e pela facilidade com a que qualquer um podia se abordá-lo e plantear suas inquietudes, ou pedir alguns minutos para conversar – até mesmo dissidentes como Guillermo Fariñas.

Foi durante seu mandato provincial (1994-2003) que os restos de Che Guevara foram depositados na Praça da Revolução da cidade. Conduziu o programa radial Alta Tensão, onde a população podia criticar os dirigentes e organismos, e expressar seus critérios. Santa Clara cimentou sua fama de cidade cosmopolita e tolerante, inclusive com os homossexuais, e a imprensa local tolerava as críticas que eram impensadas em outros lugares da ilha.

Para chegar até o topo, Díaz-Canel percorreu um longo caminho dentro da estrutura partidário-estatal, vendo como outros candidatos ficavam pelo caminho, como Roberto Robaina, Carlos Lage e Felipe Pérez Roque – alguns deles acusados de erros, atos de corrução, ambições presidenciais e até mesmo, como no caso de Lage, traição à Revolução.

Em 2003, Díaz-Canel ocupou um dos postos do Burô Político (o núcleo duro da direção do Partido Comunista). “Não é nem um alpinista nem um improvisado”, ressaltou Raúl Castro ao falar sobre ele, apresentando-o para a Assembleia, após sua eleição como primeiro vice-presidente do país, em fevereiro de 2013.

Após esse processo de transição, será possível observar se haverá espaço em Cuba para uma separação entre o Partido e o governo, e até que ponto. Também veremos como serão resolvidas as eventuais discordâncias entre o novo presidente e o primeiro-secretário do Comitê Central do PC, cargos que, pela primeira vez, não serão ocupados pela mesma pessoa.

Se espera que Díaz-Canel, considerado um bom administrador, chegue com um projeto debaixo do braço, que seja capaz de superar os insuficientes índices de crescimento do PIB, de cumprir com o pagamento da dívida externa (com Rússia, China e o Clube de Paris) e de manter a alimentação, a saúde e a educação públicas funcionando. Como base da estrutura que mantém o país socialmente viável.

Muda… tudo muda?

(*) Elmer Pineda dos Santos é jornalista cubano associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)