Tensa calma pré-eleitoral para um abril cheio de temores – Por Aram Aharonian

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Por Aram Aharonian*

A situação na Venezuela é de tensa calma, com um povo consciente que daqui até o dia 20 de maio (data das megaeleições), pode acontecer de tudo, desde tentativas de golpe militar, invasão através da fronteira com a Colômbia ou desde ilhas caribenhas, fortalecimento do bloqueio comercial e financeiro… ou absolutamente nada.

Claro, não se pode descartar qualquer outra agressão ordenada pelo presidente estadunidense Donald Trump, que dirige todos os seus esforços e muito dinheiro para acabar com a Revolução Bolivariana, e parece decidido a gastar o que mais for preciso para impedir que as eleições se realizem, sobretudo as presidenciais, donde é grande o favoritismo do presidente Nicolás Maduro.

O que fazer para impedir a humilhação da derrota e o triunfo do adversário que você mais odeia? Até agora, os Estados Unidos fizeram tudo o que foi possível, contando com os aliados da oposição interna, que servem de instrumento de Washington. “Apesar dos transtornos do bloqueio para a economia e das tentativas de golpe de Estado, o resultado até agora tem sido desastroso”, ironiza o ex vice-presidente José Vicente Rangel.

Os verborrágicos e ameaçadores dirigentes da oposição se calaram. Os líderes que não fugiram para o exterior (muitos deles pelos caminhos verdes rumo à Colômbia), vivem atemorizados, depois que os organismos de segurança os flagrou participando das últimas intentonas golpistas, e se mostram dispostas a dar nomes dos dirigentes que comandavam e financiavam as operações.

Ao mesmo tempo em que tentam reinstalar o discurso da “necessidade de diálogo” (que eles mesmos sabotaram há dois meses atrás, nos encontros em Santo Domingo), buscam apaziguar os ânimos com as autoridades e fazem promessas de que não participarão em novas aventuras.

Parece que a frente internacional contra Venezuela, que simulava ser sólida, começa a se despedaçar, sobretudo pela quase desaparição da oposição interna, em desbandada e sem planos próprios, sem possibilidade de se organizar para participar de uma campanha eleitoral, nem mesmo para sabotá-la. Alguns governos da região já se negam a acompanhar o suicídio dos opositores, diminuem o tom das críticas e duvidam de participar na lª Cúpula Americana de Lima, quem não terá Kuczynski, mas sim Trump.

Recentemente, o ministro venezuelano de Comunicações, Jorge Rodríguez, iniciou uma viagem internacional para levar “a verdade da Venezuela” e tentar desmontar as mentiras que são difundidas pelos meios de comunicação europeus. Rodríguez denunciou a existência de “uma verdadeira operação de guerra midiática, de guerra psicológica, quase que de linchamento contra a Venezuela, com as corporações midiáticas como seus aliados”.

Parece que só agora tomam consciência de uma realidade que já está evidente desde o começo deste século: o país se mantém submetido, desde 2002, a um cerco midiático internacional, através do qual a opinião público-midiática transnacional, que outorga a si o papel de juiz moral, apela aos direitos humanos, à liberdade de expressão, à crise humanitária, à ilegitimidade do governo, dos poderes públicos e das próximas eleições presidenciais do dia 20 de março.

Para a analista política Maryclén Stelling, a reação governamental é tardia, considerando que se trata de uma operação psicológica internacional, concertada, de longa data e de carácter permanente.

As críticas de setores chavistas a Maduro e seu gabinete também crescem, enquanto o escândalo dos Panama Papers e as investigações de promotores estadunidenses atingem ex-altos funcionários bolivarianos.

As críticas são contra os assessores estrangeiros, que convenceram os dirigentes atuais a “deschavizar” o país. Primeiro tentaram imitar Chávez – com Maduro jogando baseball, dançando ou dando bronca aos ministros em público. Depois, passaram a colocar a culpa de todos os erros, da ineficiência e da corrupção nas “administrações anteriores”.

“Os novos ministros, acariciando o ego do presidente, sustentavam que havia que ressaltar sua figura, e que na falta de virtudes era preciso apelar ao pior tipo de conduta política: a das armadilhas, da deslealdade, do cinismo, da falta de respeito, do espetáculo, da indolência”, comenta o ex-ministro do Petróleo e ex-presidente da estatal PDVSA, Rafael Ramírez, acusado de corrupção pelo governo.

Nas eleições presidenciais, Maduro se enfrentará ao opositor Henri Falcón, ex-governador do Estado de Lara. Enquanto o mandatário se centra sua campanha nas expectativas geradas pela emissão do Petro (a nova criptomoeda venezuelana), Falcón insiste na dolarização da economia, assessorado por Francisco Rodríguez, o principal lobista dos credores da dívida venezuelana.

Seis dias depois da morte de Hugo Chávez, há mais de cinco anos, iniciou-se – com a publicação do artigo “O falecimento de Chávez… e sua moeda?”, escrito pelo economista estadunidense Steve Hanke – a campanha contra o bolívar e a favor de sua substituição pelo dólar. Os sucessivos ataques especulativos contra os preços e a moeda, além da incapacidade institucional para lidar com eles, elevaram o tema a tornaram o tema prioritário, inclusive por seu resultado mais evidente: o empobrecimento da grande maioria da população, devido à desvalorização e à inflação induzidas.

A novidade atual está no fato de que nunca se havia dado tantos passos claros para a substituição definitiva do bolívar quanto agora. Também é verdade que o desfecho da disputa eleitoral será fortemente influenciado pela disputa entre as duas propostas.

Os venezuelanos não confiam muito no mês abril, desde o golpe contra Chávez, naquele dia 11, há 17 anos. A pergunta que muitos se fazem é: o que poderá mudar no país depois das eleições do dia 20 de maio?

(*) Aram Aharonian é jornalista e comunicólogo uruguaio, fundador do canal TeleSur e presidente da Fundação para a Integração Latino-Americana (FILA)

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