Macri quer começar de novo… não será tarde? – Por Juan Guahán

Por Juan Guahán*

Depois de semanas de descontrole cambiário, Macri e “a melhor equipe econômica dos últimos 50 anos” se fazem de distraídos e querem convencer o povo que não houve nada demais. Não mesmo?

O que o governo chamou de “meras turbulências” foi uma crise que esteve perto de se transformar num tufão. Mauricio Macri, que agora quer aparecer sorridente e tranquilo esteve a ponto de um ataque de nervos. Muitos dos que foram notoriamente favorecidos com tudo o que aconteceu agora contabilizam mais e mais lucros, e não se importam com o que vai acontecer com aqueles que os ajudaram a ganhar mais dinheiro, e que passaram dias na corda bamba que produziram justamente para favorecer esses beneficiados.

O capitalismo é assim, uma máquina cruel de estimular o lucro e a cobiça. Os grandes grupos financeiros sentiram o cheiro de sangue e avançaram sobre o Estado, aproveitando a fragilidade daqueles que deveriam defendê-lo, ao menos porque esse Estado é quem paga os seus altíssimos salários.

Começou outro processo no qual Macri perdeu tempo. Já vinha de um fracasso, bastante grande, numa questão que tinha entre as suas fortalezas que era o apoio dos agentes de poder estrangeiros.

Hoje, os atores políticos, chefes de governo e Estado lhe dão seu apoio, em especial os do poderoso G20, que se reunirá em dezembro, em Buenos Aires: seria uma vergonha para eles se o atual presidente do grupo tivesse que fugir da casa de governo em um helicóptero, como fez Fernando de la Rúa em 2001.

O macrismo fez um diagnóstico equivocado e uma aposta financeira incorreta, independente dos benefícios pessoais – que alguns membros de suas famílias – podem ter recebido. O fato de “ser alto, magro e de olhos celestes” aliado a um perfil ideológico conservador dá a Macri uma certa vantagem, com respeito à sua imagem internacional. Mas isso não garante apoio irrestrito, por exemplo, dos banqueiros, que pensam no lucro em primeiro lugar. O presidente argentino apostou numa inexistente “chuva de investimentos” e diante da primeira tormenta, com a economia estadunidense fortalecendo sua dinâmica de absorver capitais, se afundou em sua primeira crise, a qual vem se arrastrando sem discutir as falhas do seu modelo agroexportador.

Na última semana, Macri superou outra pequena crise, a do vencimento dos títulos de dívida do Banco Central (as chamadas “lebacs”), e o fez aumentando a dívida argentina. O problema é que agora terá que enfrentar vencimentos parecidos quase todos os meses, e mesmo que sejam por valores menores, a solução escolhida pela equipe econômica pode ser transformar numa pequena bola de neve de consequências inesperadas.

As turbulências e seus efeitos socioeconômicos

A “turbulência” esteve a um passo de se transformar em catástrofe, e de qualquer forma obrigou o país a voltar com chapéu na mão ao Fundo Monetário Internacional (FMI), a rogar por um auxílio, e começar a discutir as condições para ele.

A Argentina se incorporou ao FMI em 1956, depois do Golpe de Estado militar do ano anterior, que derrubou Perón. Em 1958, assinou o primeiro de 18 acordos: o fez com apoio de radicais, peronistas, social-democratas, militares golpistas e civis que eram títeres dos militares, além de outras figuras, eleitas regularmente pelo voto. Mas não é a única casualidade, já que a imensa maioria daqueles acordos terminaram mal para os que os assinaram, e também para o país.

A história de que “o FMI agora é outro” soa para os argentinos como história da carochinha. A matriz utilizada para as condicionantes dos acordos é a mesma, e os funcionários do Fundo só mudam por questões biológicas, mantendo intacto o viés ideológico. Christine Lagarde, a cara política do FMI, com seus trajes à medida e seu culto sorriso, até oferece outra imagem, mas é só imagem, não uma mudança real.

É óbvio que o FMI vai emprestar o dinheiro à Argentina, com taxas que são a metade do que os banqueiros privados cobram, porque a entidade também toma suas medidas para defender seus interesses, e também para assegurar que os demais banqueiros possam continuar cobrando o que cobram. Essas são as condicionantes que já estão claras. O que se pode esperar se a Argentina emitir bonos com taxas de juros de 40%, ou mais?

O que vem por aí é um país com menor atividade econômica. O anúncio de frear obras públicas é uma mostra disso. Essa vai ser sua doutrina para fazer cair a inflação, que ainda assim continuará subindo, ao menos nos próximos meses. Essa combinação de mais inflação e menor atividade (ou estagnação) se chama “estagflação” e nela estamos nos movendo.

O efeito social destas medias também é óbvio. A menos que o povo argentino decida se suicidar em massa, o efeito é que as pessoas começarão a ir às ruas. Isso que se chama de resistência se tornará mais visível nos próximos meses, e seu papel nessa luta é imprescindível. Daqui para frente, esta será uma das grandes preocupações do governo, e por isso busca acalmar essa insatisfação social incluindo a oposição política na discussão e buscando solidariedade para as medidas que irá tomar.

Não é que passaram a querer dialogar agora, o que querem é compartilhar o ônus das manobras que terão que fazer. Por outra parte, não é fácil pedir maiores ajustes ao povo quando não só dilapidaram mais de 7 bilhões de dólares para tentar conter a recente crise, como também mostraram uma mão bastante aberta para favorecer aos grandes grupos econômicos e fizeram algo diametralmente oposto a respeito das necessidades da população com respeito às tarifas dos serviços básicos (água, luz, gás, etc).

O “jeitinho” para livrar a cara dos familiares do presidente em suas dívidas milionárias com o Estado e a diminuição das taxas aos exportadores de soja, além da redução de impostos às mineradoras, são algumas das “gracinhas” do governo, “detalhes” que o povo não vai esquecer tão facilmente.

Os efeitos políticos do que já passou e do que ainda virá

O governo cumpriu – até agora – com sua ideia de que as piores notícias deveriam vir antes da Copa do Mundo, mas nunca imaginou que o nível dessas más notícias produziria efeitos sobre o seu futuro. Agora, está “recalculando” a rota. O macrismo imaginava que depois da vitória nas eleições legislativas do ano passado teria caminho livre até a reeleição, em 2019, mas se vê diante de um novo cenário cheio de dúvidas a esse respeito, devido à profundidade dos problemas que apareceram. Assim como os setores financeiros, ultra beneficiados por este governo, decidiram que querem ganhar mais e criaram esta crise mais recente, agora há uma situação parecida também em termos políticos.

O diário Clarín, um dos que mais ganharam com este governo e que vinha defendendo um discurso abertamente macrista, agora mostra certas dúvidas em manter seu apoio. Nos últimos dias, tem circulado uma versão que a direção da empresa jornalística teria advertido o presidente sobre a sua imagem, e que se ele não puder reverter sua queda livre nas pesquisas de opinião dentro de 60 dias, passaram a defender mais a governadora de Buenos Aires, María Eugenia Vidal, como nova figura preferida, para tentar salvar o projeto. Outros grupos de poder mostraram igual opinião em artigos publicados na imprensa. Essa possível substituição não deve ser descartada. Seria o que a direita e os grupos econômicos consideram “o mal menor”: uma troca de cadeiras, queimar uma peça para não perder o poder.

Antes de perder tudo e andar transitando com frequência pelos corredores dos tribunais, é melhor somente perder um pouco, mas continuar mantendo as estruturas intactas. O problema é que nunca se sabe se isso será possível ou se a alternativa futura vem acompanhada da tradicional “marchinha peronista”, embora as pesquisas verifiquem que, por enquanto, nenhum opositor tenha conseguido capitalizar a crise e brutal queda na opinião pública das figuras mais destacadas do governo. Mas o futuro é muito incerto e o governo só vem conseguindo ganhar tempo, sem solucionar os problemas.

Sobre os problemas da oposição, há várias tentativas de curar as feridas ao interior do peronismo. Embora seja muito difícil um acordo para irem juntos ao primeiro turno, essa possível aproximação poderia significar um compromisso para o segundo turno, e também uma conversa para avançar em acordos com outras frentes, como a do socialismo santafesino.

O governismo responde com outras ideias além das candidaturas de Macri ou da governadora Vidal, e trabalha para armar um acordo com setores peronistas significativos (alguns intendentes da Grande Buenos Aires e algum governador, como o de Córdoba, Juan Schiaretti), construindo uma reminiscência da ditadura do general Alejandro Agustín Lanusse (1971-73), do Grande Acordo Nacional (GAN), que este governo agora quer recriar.

(*) Juan Guahán é analista político e dirigente social argentino, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégico (CLAE)