Segundo turno na Colômbia: hora de fazer alianças – Por Camilo Rengifo Marín

Por Camilo Rengifo Marín*

Entre as nove opções de voto que estavam disponíveis na cédula eleitoral, as duas que foram mais votadas neste domingo (27/5) conquistaram o direito de um duelo final entre si no segundo turno. São elas a fórmula ultraconservadora de Iván Duque, do partido Centro Democrático, e a chapa da coalizão Colômbia Humana, do centro-esquerdista Gustavo Petro.

Ser o indicado pelo ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010) foi o apoio que assegurou o favoritismo e a vaga de Duque no segundo turno, com 7,57 milhões de votos neste domingo (39,13%), a partir de uma plataforma baseada em revogar o acordo de paz com as ex-guerrilha das FARC – hoje transformada, graças a esses mesmos acordos, no partido político legal Força Alternativa Revolucionária do Comum –, o que não foi suficiente para alcançar uma maioria absoluta. Assim, terá que disputar o segundo turno., no dia 17 de junho.

O candidato Petro também passou ao segundo turno, com o apoio de 4,85 milhões de eleitores (25,10%). O ex-governador do departamento de Antioquia, Sergio Fajardo, teve 4,59 milhões de votos e ficou com o terceiro lugar, sendo superado por Petro por pouco menos de 200 mil votos. Em quarto ficou o ex-vice-presidente de Juan Manuel Santos, Germán Vargas Lleras, com 1,41 milhões de votos (7,28%), uma cifra muito baixa, mas ainda assim superior ao obtido por outro governista, Humberto de la Calle, que conseguiu pouco mais de 398 mil sufrágios (2,06%).

A eleição registrou neste primeiro turno um nível de abstenção levemente superior aos 46%, após uma campanha onde os elementos centrais foram os temores: de um lado, o receio de que a direita pudesse desfazer o acordo de paz com as FARC, e por outro o discurso de um modelo de centro-esquerda pudesse provocar uma crise econômica e social. Com tudo isso, o voto não se polarizou, como alguns analistas esperavam. Pelo contrário, se distribuiu entre várias alternativas.

Alguns dados curiosos: Sergio Fajardo, da Coalizão Colômbia e terceiro na votação nacional, foi o grande vencedor em Bogotá; o liberal Humberto de la Calle não conseguiu ser a opção mais votada em nenhum departamento, assim como Germán Vargas Lleras, apesar de serem os candidatos dos partidos governistas Mudança Radical e Partido da União, que conseguiram as maiores votações para o novo Congresso, na eleição legislativa – que se realizou em março.

A vitória de Duque supõe que o uribismo poderia retomar o controle do país e recompor seu rumo político e seu discurso que prioriza a segurança sobre outros temas, além da prioridade aos ataques contra a Venezuela e pelo fim dos acordos de paz.

Também segundo o mapa eleitoral deste domingo, Petro conseguiu se impor em sete departamentos costeiros, tanto no Caribe quanto no Pacífico, enquanto Duque se estabeleceu principalmente no interior do país, exceto em Bogotá.

León Valencia, diretor do Centro de Pensamentos sobre o Conflito Armado, Paz e Pós-conflito, afirma que o uribismo deve manter sua intenção de voto, como nas eleições passadas, e destaca o resultado de Petro e de Fajardo no Caribe e em Bogotá. “Digamos que os setores urbanos, nas grandes cidades, há uma presença muito importante da esquerda e da centro-esquerda. Já as pequenas cidades estão muito mais à mercê da máquina eleitoral do uribismo”, indicou.

Os medos induzidos

A principal característica desta campanha eleitoral passa pela generalização dos “grandes medos” na sociedade colombiana, criados pelo aparato midiático hegemônico da direita financeira e do establishment. Um deles é o medo de que Colômbia se torne uma nova Venezuela se Petro for presidente. O outro medo, compartilhado pelos setores democráticos, é sobre o fato de que Álvaro Uribe volte a ter influência no país através de um presidente títere.

A candidatura de Gustavo Petro, sem maiores recursos econômicos, trouxe esperança a uma parte importante do eleitorado, e vem tentando repolitizar alguns segmentos da sociedade, construindo uma narrativa otimista, apesar do pragmatismo de muitas de suas propostas. Também é um tanto surpreendente o vertiginoso crescimento de Iván Duque, um advogado conservador catapultado à política pelo atual presidente Juan Manuel Santos, e logo recrutado por Uribe. Hoje, conseguiu estabelecer uma imagem de novo “homem durão” da Colômbia.

Duque também foi assessor de Uribe nas Nações Unidas, e foi impulsado por seu novo mentor que ele conseguiu se eleger para o cargo de senador. O ex-presidente também foi seu professor na Universidade de Georgetown, além de outras figuras do conservadorismo, como o espanhol José María Aznar e o equatoriano Guillermo Lasso.

O empresariado, as elites e também boa parte das classes populares estão com Duque, aplaudindo suas propostas radicais de segurança, de atacar os cultivos de cocaína com fumigações, de revogar as mudanças constitucionais estabelecidas a partir dos Tratados de Paz assinados pelo governo de Juan Manuel Santos com as FARC, além de impedir a participação política dos congressistas do partido das FARC.

A plataforma de Duque é bem vista pelos investidores e pelos mercados, especialmente por sua proposta de reduzir os impostos para impulsar o desenvolvimento econômico. “Hoje, os colombianos nos deram um voto de confiança, para que iniciemos uma grande transformação na Colômbia, por isso quero ser o presidente que una o nosso país”, disse ele diante de eufóricos seguidores, ao explicar que, apesar de suas declarações durante o primeiro turno, não pretende “fazer pedacinhos dos acordos de paz”, e que poderia resgatar alguns elementos dele. Ademais, também aproveitou o discurso da noite deste domingo para fazer uma homenagem a Uribe.

Após anunciados os resultados do primeiro turno, Petro discursou para o seu público reforçando alguns pontos de sua proposta econômica, e afirmou esperar que os eleitores não se deixem levar pelo medo. “Nós não iremos desapropriar, o Estado não tirará os bens das pessoas, isso é uma mentira da oposição, uma cadeia de enganos buscando manipular as eleições. Nós queremos sim dar oportunidades às pessoas, para que os que são pobres deixem de sê-lo. Podemos construir uma Colômbia Humana (um trocadilho com o nome de sua coalizão), uma sociedade de classe média, com direitos garantidos para toda a população”, disse.

Petro assegurou que em nenhum momento se tomarão caminhos ditatoriais. “No nosso governo os opositores não serão perseguidos, nem espionados. Os direitos humanos serão respeitados. O ex-presidente Uribe não deve temer o governo da Colômbia Humana. Terá seu direito à proteção e todos os seus demais direitos garantidos pelo nosso governo, assim como todos os demais cidadãos”, enfatizou Petro.

Obviamente, as alianças serão decisivas para assegurar o triunfo de qualquer dos dois candidatos no segundo turno, para o qual restam apenas três semanas.

(*) Camilo Rengifo Marín é economista e acadêmico colombiano, investigador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE).