A crise do relato da direita ‘moderna e bem sucedida’ – Por Aram Aharonian

O povo voltou às ruas, como em 1946 com Perón e em 2001 na crise do corralito. O governo teme uma crise social e sua única resposta é usar a violência policial para reprimir, o aparato judicial para criminalizar as manifestações sociais e avançar sobre as liberdades individuais e os direitos constitucionais, para manter o modelo até as últimas consequências

Por Aram Aharonian*

A ideia foi expressada por Aristóteles, o polímata (filósofo, lógico e cientista) da Antiga Grécia, logo desenvolvida pelo prussiano Immanuel Kant, mas se tornou popular na Argentina quando dita pelo general Juan Domingo Perón: “a única verdade é a realidade”. E isso que nenhum deles viveu nesta época da pós-verdade e das fake news, ou mentiras permanentes.

Há dois anos e meio, após o triunfo do neoliberal Mauricio Macri nas eleições presidenciais (por pequena vantagem), começou a ser difundido na Argentina um discurso midiático sobre uma nova direita moderna e bem sucedida, que explicava as derrotas do progressismo no país e outros lugares da América Latina.

Esse foi o lema que o marketing político utilizou, vendendo um relato que mostrava os ajustes e privatizações com uma roupagem moderna, promovida por gente jovem, com sucesso nos negócios, bem vestida e geralmente fotogênica, que não tinha ideias próprias, acostumadas a comprá-las prontas no supermercado ideológico do capitalismo transnacional.

Mas Macri queimou, em 30 meses, boa parte desse capital político, e hoje se abstém de falar de sua reeleição, enquanto seus sócios na coalizão Cambiemos (“Mudemos”), buscam candidata(o) potável, que possa seguir o seu projeto e o seu caminho… se é que ainda resta caminho.

O relato caiu no gosto de conservadores e neoliberais, mas também no de muitos socialdemocratas europeus e no dos culturalmente colonizados – alguns também financiados.

José Natanson, diretor editorial da versão argentina do Le Monde Diplomatique, publicou um livro sobre o surgimento e a consolidação dessa “direita moderna e bem sucedida” na Argentina como corolário da desaparição lenta de um kirchnerismo que buscava similaridades do macrismo com a ditadura militar.

A obra sustenta que essa ascensão reflete modificações profundas na sociedade e suas tendências. Auto definido como intelectual progressista, Natanson fala de sua “admiração à terrível eficácia do governo macrista”.

Infelizmente para Natanson, e para as vendas de seu livro, a realidade novamente apareceu com toda a sua força. O relato neoliberal mostrou sua fragilidade para entender o que acontecia, e a que foi tantas vezes chamada de “a melhor equipe econômica dos últimos 50 anos” mostrou uma notória ineficiência e ineficácia na gestão de governo – mas não em termos de enriquecimento deles mesmos, através das vantagens que os cargos permitiram.

Hoje em dia, ninguém duvida que o marketing político é uma ferramenta necessária – tanto na campanha eleitoral quanto na gestão –, mas apostar somente nisso e no adocicado e cheio de boas intenções, com os roteiros escritos pelo assessor equatoriano Jaime Durán Barba, abusando da pós-verdade, da mentira repetida mil vezes e do ocultamento e negação de fatos como articuladores da realidade, é uma estratégia suicida. A realidade pode ser ocultada, mas não substituída pelo relato.

Obviamente, as técnicas que permitiram à direita vencer duas eleições consecutivas (a presidencial, em 2015, e a legislativa, em 2017) não ajudam a governar, porque isso significa subestimar a capacidade da sociedade de entender o que está acontecendo na realidade.

Suicidando-se com o próprio relato

Durán Barba defende a ideia de que o eleitor médio argentino “é como uma criança de 9 anos, que tem um pensamento mágico, que só entende frases curtas, vazias, de boas intenções e desejos”, alguém que não consegue desenvolver o pensamento abstrato.

A realidade – a grave crise, os salários de fome, a corte de recursos aos aposentados, os ataques à educação livre, gratuita e laica, o desemprego, a inflação, os aumentos das tarifas dos serviços básicos (luz, água, gás, etc), a pobreza, a corrida bancária, o endividamento contínuo, a ajuda do Fundo Monetário Internacional, entre muitos outros temas – mostrou que o manual duranbárbico e o controle dos meios hegemônicos de comunicação não serviram para enfrentar esses problemas.

Será que aprenderam que a política sempre termina se sobrepondo sobre as técnicas de marketing e manipulação midiática? A resposta à crise não é comunicacional, e sim econômica e política, e essa insistência em impor imaginários coletivos que chocam com a realidade cotidiana acabam revelando a incapacidade, debilidade, imperícia e soberba do governo.

O relato macrista tentou reescrever a história recente do país, mas os argentinos ainda lembram a Crise do Anos 90 e a outra, mais recente, que foi a crise social de 2001, com o grito de “fora todos os políticos”, apesar de que apenas um tenha ido realmente – e de helicóptero, que foi como o incapaz presidente Fernando de la Rúa fugiu da Casa Rosada, após renunciar. Hoje, o retorno às condicionalidades do FMI traz recordações assustadoras a uma sociedade que tomou novamente tomou as ruas para se fazer escutar.

O macrismo crê que vivemos numa época na qual a política se desligou da vida cotidiana para se recluir no campo da gestão. Os indivíduos estão desligados de suas tradições e já não se guiam pelas estruturas organizativas clássicas, são flexíveis, e já não são territorializados, perambulando entre a virtualidade e a realidade.

Seus discursos são repetitivos, mas esse é um dos valores que esta direita promove, junto a palavras chave como “esforço”, “oportunidades”, “empreendedores”, e frases como “queremos viver em paz”, “viver perto de um lugar verde”, “queremos nos sentir cuidados” e “admirar as forças de segurança”. Um conceito básico é o do individualismo: os sujeitos coletivos não são os atores principais, e sim os que obstaculizam a mudança cultural.

O relato oficial degrada institucionalmente a democracia, com a criminalização da política e dos movimentos sociais, acompanhada por um neoliberalismo judicial disposto a tirar todo e qualquer obstáculo do caminho. Essa direita tenta instalar o imaginário de que o que se obteve no passado recente da Argentina foi produto de esforços individuais e não de políticas de um Estado presente, e que o único que importa é ter melhores níveis de consumo, mesmo quando isso não garante as condições mínimas para viver.

Hoje, o governo da direita moderna e bem sucedida está fazendo água. As pesquisas de opinião mostram que mais de 80% da população não concorda com a medida de pedir ajuda ao FMI, e com isso a imagem e credibilidade de Mauricio Macri – e de seus principais empresários-ministros – cai mês após mês.

O governo da direita moderna e bem sucedida está se suicidando com seu próprio relato. Levou as pessoas a acreditarem – e a esta altura ninguém sabe se eles mesmos chegaram a acreditar – que liberar as forças do mercado, baixando impostos aos setores mais ricos, ao agro, à mineração e aos setores mais concentrados, diminuindo também os salários, as aposentadorias e o gasto público, se produziria uma chuva de investimento que pouco a pouco se transformaria em resultados positivos para todos.

Mas não. Talvez a soberba – ou inaptidão, escolha você – dos principais quadros do macrismo não permitiu a eles perceber que o mundo havia mudado, que já não era o da tão glorificada globalização. E bastou o governo dos Estados Unidos subir a taxa de juros para que desaparecessem os fluxos de capitais aos países emergentes como num passe de mágica. Talvez não sabiam que a Argentina é um país emergente.

Os grupos financeiros amigos do governo – que, dotados de informação privilegiada, tiraram do país cerca de 50 bilhões de dólares durante estes primeiros dois anos e meio do mandato de Macri – iniciaram a corrida contra o peso e levaram seus milhões para fora do país. Os bancos JP Morgan e Deutsche Bank – duas instituições onde o atual ministro de Finanças argentino Luis Caputo trabalhou como executivo, antes de chegar ao governo – deram o primeiro passo, e logo foram seguidos por outros bancos e fundos abutre.

Agora, o governo descobriu que o acordo com o FMI exige diminuir o déficit fiscal, e isso se faz via ajuste, mas também cobrando impostos dos setores que podem pagar, entre eles o da soja, que se absteve de vender a colheita esperando a desvalorização iminente.

A economia está a um passo da crise social, com altas taxas de juros em pesos e em dólares, endividamento, arrocho, inflação com recessão, estagflação, uma série de elementos que tornam inviável a produção, não só para os pequenos e médios empresários, como também para os grandes.

A queixa generalizada é pela paralisia produtiva, pela queda das vendas, a falta de financiamento, o corte na cadeia de pagamentos com taxas entre 40 e 70% anuais, e não seria estranho se continuarem as quebras em cadeia, como num efeito dominó de fechamentos de empresas, perda de empregos, desemprego massivo e aumento dos índices de pobreza e indigência.

Ruídos no idílio com os meios hegemônicos

A crise também ameaça romper a aliança entre o governo e os meios hegemônicos, que querem tirar ainda mais vantagens de uma administração ferida. O temor na Casa Rosada é o de não contar mais com a blindagem midiático – que até há pouco tempo vinha sendo eficiente na construção do relato macrista –, que vem sendo mantida com graças a uma boa quantidade de recursos do Estado gastos em publicidade oficial. Os meios voltam a mostrar seu poder de aproveitar a fragilidade do macrismo.

Os outrora difusores cromáticos do macrismo começar a pular o muro, inquietos pelo futuro de sua credibilidade e imagem. Percebem um potencial naufrágio, que pode levar a uma fratura econômica e social – a curto ou médio prazo – e se negar a ser novamente solidários, apesar da evidente responsabilidade coletiva em outorgar proteção, viabilidade, comodidade discursiva, empatia e conforto ao governo e todas as suas figuras, desde dezembro de 2015.

Mirtha Legrand, a ex-atriz e hoje socialite e anfitriã de almoços e jantares televisivos, diz que se sente “traída”. No dia 12 de maio, ela afirmou: “façam algo… Marcos Peña (chefe de gabinete), que fala e diz o que está tudo bem, é mentira, não está tudo bem, mentira! Digam a verdade”. O que ela recrimina é o capital simbólico investido por celebridades midiáticas como ela, para dotar o macrismo de uma legitimidade que foi utilizada durante estes dois anos e meio.

Outro exemplo é Marcelo Longobardi. No dia 25 de maio, seu editorial na Rádio Mitre – do grupo oligopólico Clarín – falava sobre a “deterioração política do governo”, da “situação econômica complicada”, e responsabilizou Macri por essas práticas equivocadas.

O camaleônico jagunço jornalístico Jorge Lanata afirmou em seu programa radial de 24 de maio que “não se pode subestimar o público, que está cansado de que os meios de comunicação mintam para ele”. O fanático neoliberal Alfredo Lewkowicz, conhecido como Alfredo Leuco, caracterizou o governo como “um grupo de burocratas que não acertou nunca com as soluções econômicas e que ainda por cima não estão nem um pouco preocupados com o que acontece com a democracia e com os setores mais vulneráveis da Argentina”.

Estes fogos de artifício, baseados em manifestações supérfluas, servem para que cada um tente sigilosamente salvar algo de suas próprias imagens do incêndio. Nessa fuga, pretendem continuar aniquilando a política, caracterizando a crise atual como a expressão de erros personalizados e individualizados. Querem também driblar o conflito entre o roteiro que esses mesmos indivíduos e maus atores vinham interpretando, omitindo o apoio que deram a este atual projeto nos últimos anos.

Porém, os que abandonam o barco não percebem uma armadilha: deslizam críticas a alguns governantes pontuais e não às causas que permitiram o abismo que já se vê no horizonte.

O rei está nu

Num modelo neoliberal não há amigos nem aliados permanentes, mas sim sócios. Só os negócios podem aspirar a ser duradouros. O rei está nu e não há relato adocicado que possa sequer dissimular esta crise. O marketing político e a manipulação midiática podem servir para construir um candidato, mas não um governante, nem um estadista.

Trabalhadores, aposentados, mulheres, jovens, estudantes, cientistas, crianças, mães, professores, desempregados, farmacêuticos, empreendedores, estrangeiros, pequenos empresários, produtores rurais, comerciantes, médicos… todos começam a manifestar sua insatisfação nas ruas, o mal humor social cresce e a imagem do governo cai vertiginosamente, assim como a do presidente.

Macri apela agora aos vídeos. Em um dos últimos que difundiu, ele atacou o projeto parlamentar para reverter os aumentos de tarifas dos serviços públicos básicos (luz, água, gás, etc), e, enquanto dava conselhos caseiros de como economizar energia, atacou a ex-presidenta, pedido aos senadores, especialmente os peronistas, que “não se deixem conduzir pelas loucuras de Cristina Fernández de Kirchner”, o que a coloca novamente no primeiro plano, como adversária número um do governo. “Tratar uma mulher como louca é o mais típico dos machismos”, respondeu a agora senadora.

O povo voltou às ruas, como em 1946 com Perón e em 2001 na crise do corralito. O governo teme uma crise social e sua única resposta é usar a violência policial para reprimir, o aparato judicial para criminalizar as manifestações sociais e avançar sobre as liberdades individuais e os direitos constitucionais, para manter o modelo até as últimas consequências.

Voltando a Aristóteles, Kant e Perón: a única verdade é a realidade, não o relato.

(*) Aram Aharonian é jornalista e comunicólogo uruguaio, fundador do canal TeleSur e presidente da Fundação para a Integração Latino-Americana (FILA) – www.estrategia.la