Colômbia: O poder fático expõe seu medo e tenta impedir vitória de Petro – Por Camilo Rengifo Marín

Por Camilo Rengifo Marín*

A campanha suja para difamar o candidato de centro-esquerda Gustavo Petro tem sido a tônica do segundo turno: notícias falsas pelas redes sociais, temores de fraude eleitoral, pressão dos meios hegemônicos de comunicação e dos empresários que chantageiam a sociedade a votar pelo ultradireitista Iván Duque ou em branco, são os elementos que marcam os dias prévios à votação do próximo domingo (17/6) na Colômbia.

O primeiro turno presidencial revelou mudanças que já estão se produzindo no cenário político pela primeira vez em muitas décadas, e a eleição parlamentária, embora tenha produzido uma maioria da direita, também mostrou o surgimento de expressões democráticas dispostas a criar um novo equilíbrio no Legislativo.

As últimas pesquisas de opinião, antes de se conhecer o apoio dos líderes de centro Antanas Mockus e Claudia López à candidatura de Gustavo Petro, mostravam que a brecha de intenção de voto é de 5,5 pontos porcentuais: Iván Duque teria 45,5% e Gustavo Petro 40% dos apoios, embora o diário El Espectador diga que Duque tem 52% – calculando antecipadamente os que seriam “votos válidos”.

A candidatura de Gustavo Petro não é um acidente irrelevante, senão o reflexo da imensa e crescente indignação social, o repúdio popular às castas do poder fático – que se beneficiaram com o conflito armado de cinco décadas – e seu empenho em conservar seus privilégios e se sustentar no poder em meio a escândalos de corrupção, de incompetência e insensibilidade social. O assassinato diário de dirigentes sociais é parte dessa realidade.

Três candidaturas – a de Petro, a de Sergio Fajardo, que ficou em terceiro no primeiro turno, e a de Humberto de la Calle, que foi o quinto – foram as defensoras do diálogo, do Acordo de Paz e de sua implementação, e com essa bandeira obtiveram 10 milhões de votos, cifra muito superior à soma dos candidatos que eram contra o acordo, Iván Duque e Germán Vargas Lleras. O segundo turno entre Petro e Duque define as linhas do futuro da Colômbia para o pós-acordo de paz: sua implementação definitiva ou o retorno do conflito.

Enquanto isso, os meios de comunicação hegemônicos, influenciados pelo poder financeiro e latifundiário, tenta forçar o voto útil por Duque e agita o voto em branco contra a opção alternativa de Gustavo Petro. O medo de uma abertura democrática faz esse setor tremer e, no desespero, usar o terror mediático. Também cresce o temor de uma fraude com a maquinação de um Registradoria (órgão eleitoral colombiano) privatizada e pouco transparente.

Primeiro, colocaram no imaginário coletivo a ideia de que a pugna era entre dois “extremismos” – embora Petro seja um moderado de esquerda –, e ainda assim tentando ocultar que se trata de uma ultradireita camuflada, radicalizada contra o Acordo Final de Paz com as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e contra o diálogo com o ELN (Exército de Libertação Nacional), como bandeiras para eternizar o Estado corrupto, antidemocrático, fraticida e belicista.

Não é o neutralismo do voto em branco que vai expressar uma vontade real de mudança e paz por parte de uma cidadania que entende o que significa retornar ao Estado paramilitar, autoritário, sequestrado pelos privilégios familiares, pela impunidade diante do extermínio repressivo, submetido ao capricho geopolítico dos mandachuvas dos Estados Unidos.

A Registradoria — questionada pela esquerda, mas muito pouco pela direita e pela imprensa – espera que as forças políticas acatem os resultados disciplinadamente, sem chance para pedidos de impugnação e suspeitas de irregularidades, apesar das quase 4 mil queixas de adulterações registradas no primeiro turno.

Colômbia Humana – a coalizão de Gustavo Petro – ainda espera uma auditoria ao software de propriedade privada que realiza a contagem e sistematização dos votos, a falta de controle faz com que qualquer programação ao código fonte da aplicação possa modificar a vontade dos eleitores nas urnas. A fraude consistiu em que, em algumas mesas, os jurados de votação alteraram as cifras de votos nas urnas.

Também se sabe que esses delitos eleitorais envolvem empresas privadas e públicas, e os funcionários terceirizados do setor público – os quais são pressionados pelo poder fático para que definam o voto a favor do candidato uribista Iván Duque, em troca de manter seus contratos de prestação de serviços, o que “não colocaria em risco os seus empregos”, ameaças (não tão) veladas contra sua liberdade de voto.

O diário El Tiempo, porta-voz do poder nas sombras, optou por tornar pública sua preferência, respaldando a candidatura de Iván Duque, “cujo programa de governo é sério e representa uma esperança de moderação e a chegada de uma nova geração ao poder, o que é desejável na atual conjuntura”.

O editorial também lembrou que o maior temor do que se opõem a Duque é a preocupação de que ele seja uma espécie de títere de Álvaro Uribe. “Sem desconhecer que o ex-presidente é seu mentor, consideramos infundada a teoria de um regresso deste ao Executivo”, assegurou.

Mas é difícil esperar peras de um ulmeiro. As alianças políticas onde prevalecem os líderes que têm dívidas pendentes com a justiça, estão fugitivos ou já pagaram suas multas defendem o candidato da ultradireita que obviamente não estará interessado em combater a enorme corrupção que se observa no governo de Juan Manuel Santos.

O ex-presidente Álvaro Uribe, padrinho político de Duque, enfrenta uma série de investigações – entre elas por apoio ao narcotráfico e suspeitas por assassinatos de testemunhas que declararam contra ele – e seu irmão, Santiago Uribe, espera a decisão judicial de sua detenção, depois de ser apontado como fundador do feroz grupo paramilitar Os 12 Apóstolos.

Publicidade e campanha suja

O publicitário brasileiro Duda Mendonça é quem dirige a campanha de Duque, mas uma equipe de programadores e jornalistas trabalha nas campanhas de desinformação e difusão de calúnias pelas redes sociais. O ex-presidente da rede Más Noticias, Juan Pablo Bieri, é o assessor de comunicação, enquanto Carlos Alberto Cortés, chefe de imprensa, é gerente da empresa Do Consulting.

A pós-verdade também está presente na campanha eleitoral, com suas fake news espalhadas pelas redes sociais, entre elas a de que a atriz pornô Mia Khalifa era uma filha renegada de Petro, o que o próprio candidato teve que desmentir. Durante as últimas semanas, uma rede de portais especializados nos mais variados temas – como motos, animais de estimação, maternidade e esportes – vem publicando peças da campanha de Iván Duque e informações falsas sobre Petro para que sejam difundidas pelas redes sociais.

A Emotions Media Group, responsável por essa rede de sítios web, é “uma empresa especializada na geração de conteúdo digital através de elementos emocionais e de predileção”, que conta com poderosas empresas como clientes e que acumula uma audiência de 43 milhões de pessoas, dividida em 18 sitios temáticos, entre eles o ElNoti.com, PaginaDeMascotas.com, OKMotos.com, DeporteOk.com, Mamasybesosok.com, entre outros.

O representante legal da companhia, Camilo Sastoque, alega que: “a empresa não é um meio de comunicação, e sim uma empresa privada que sustenta sítios segmentados de audiência por interesses específicos”, algo similar ao que fazia a empresa britânica Cambridge Analytica.

Dizem que tudo na política já foi inventado, até mesmo o plágio. Carta a Eloisa é uma peça publicitária de Duque (um vídeo de 90 segundos publicado no YouTube no dia 6 de março) na qual ele escreve a sua filha sobre o país que quer deixar, a ela e às crianças colombianas. O problema é que o vídeo é uma cópia da mensagem Mi carta a Daniela, lançada pelo deputado direitista espanhol Albert Rivera, presidente do partido Cidadãos (nova direita econômica espanhola) e candidato presidencial nas eleições de 2015.

Mi carta a Daniela foi indicada aos Victory Awards 2016, os prêmios onde a Academia de Arte Política e Ciências de Washington reconhecem o melhor da indústria política de fala hispana. A carta de Duque está enterrada no YouTube.

(*) Camilo Rengifo Marín é economista e acadêmico colombiano, investigador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)