A volta de Cristina Kirchner! (promovida pelo governo de Macri) – Por Juan Guahán

Por Juan Guahán*

O governismo e o “peronismo moderado” (a favor do diálogo) voltam a colocar em pauta a candidatura da ex-presidenta Cristina Fernández de Kirchner. Os dados da realidade produzida pelo governo macrista e as pesquisas convocam a fazê-lo, enquanto os acordos com o FMI promoveram uma rejeição generalizada, e seus efeitos já se fazem sentir.

Atrás dos muros, surdos ruídos se fazem escutar, não são as tropas que o libertador San Martín reúne para lutar na batalha de San Lorenzo, como reza a épica patriótica argentina. Não, é algo muito mais elementar e tímido, é o ritual que nos ata às urnas e às disputas internas para as próximas eleições presidenciais.

Conhecidos dirigentes do peronismo mais moderado, como o chefe da bancada no Senado, Miguel Ángel Pichetto, e governadores como Juan Manuel Urtubey (da província de Salta) e Sergio Uñac (San Juan), já disseram: Cristina será candidata! E as usinas do macrismo foram as que se encarregaram de proporcionaram os amplificadores adequados a esta ideia.

Dentro do cristinismo, o rumor provocou comoção, alegrias e expectativas. Comoção pela descoberta, alegria pelo reconhecimento à sua liderança e expectativas pela possibilidade de ir à luta para recuperar a administração do Estado. Mas também há os que reagiram com alguma preocupação, mesmo entre a mais sincera e combativa militância do setor.

Se trata do temor a que essa ideia leve a acabar de vez com a possibilidade de uma unidade peronista e proponha uma luta eleitoral entre três sectores: o macrismo, uma parte do peronismo enquadrado no peronismo federal e o cristinismo da Unidade Cidadã. Nesse caso, essa militância teme ficar encurralada entre a “moderação” desse peronismo federal e o sectarismo do “aparato” cristinista.

Em todo caso, é interessante comentar sobre as causas que estão na raiz desse renascimento da figura de Cristina. Entre as questões que dão lugar a essa renovada presença cabe destacar: a evolução da situação socioeconômica; o generalizado repúdio ao “socorro” solicitado ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e a manifestação destes fatos em diferentes pesquisas.

Evolução da situação econômica e social

Os números da economia continuam atentando contra os interesses populares e afetam cada dia mais a popularidade do governo de Mauricio Macri. Tentando analisar friamente esses números, se pode observar que a dívida e os juros, além da inflação, a recessão e o temor a perder o trabalho, são os principais fatores para este fenômeno.

Sobre a dívida, apesar da ajuda do FMI, os números não fecham e será preciso mais recursos para pagar os déficits comercial e de caixa, as dívidas e os juros. Hoje, os juros consomem mais que os salários de todos os empregados estatais, e somente um pouco menos que as aposentadorias e pensões.

Sobre a inflação, os dados do mês de junho mostram que está acima do máximo aceito pelo FMI. Mas o futuro imediato não parece ser melhor se consideramos que –para o mesmo período – o aumento dos preços no atacado foi de 6,5% e o aumento do dólar alcançou os 15,9%.

A rejeição ao “socorro” ao FMI

O “acordo” com o FMI, imprescindível segundo a lógica do governo, parece ser impossível de cumprir e insuficiente para solucionar a crise gerada pelo governo, mas sim suficiente para provocar uma avalanche de críticas. Isso ficou ainda mais claro com a presença no país da diretora do FMI, Christine Lagarde, para o encontro de ministros de economia e presidentes de bancos centrais do G-20, em Buenos Aires.

Além das mobilizações e da revolta nas ruas, há outras duas mostras de atitudes condenatórias que devem ser destacadas. Uma delas provém da negociadora condução da Central Geral do Trabalho (CGT). Juan Carlos Schmid, um dos líderes dessa administração, sustenta que “não haverá consenso social para a chegada do FMI, e por isso teremos conflitos infinitos, num país que já está paralisado e em recessão”.

A outra expressão, ainda mais retumbante, provém de um documento, destinado à própria senhora Lagarde e assinado por mais de 400 militantes de organizações sociais e sindicais, políticos, legisladores, artistas e personagens da cultura. Tal material, promovido por setores próximos à Igreja, ao kirchnerismo e às organizações sociais, considera que este endividamento e suas condicionalidades são de duvidosa constitucionalidade, carentes de razão sólida e não servirão ao desenvolvimento nacional, nem ao bem-estar da população, e por isso qualificam a dívida contraída como “odiosa e execrável”, sem legitimidade perante a sociedade.

As pesquisas e suas dúvidas

Há muitas e contraditórias pesquisas. Já sabemos de seu valor relativo, mas há evidências mais ou menos concordantes entre umas e outras, de mostram como o apoio a Cristina se mantém igual ou crescente, enquanto o de Macri está em queda, maior ou menor, dependendo do caso, enquanto o peronismo federal se mantém como a terceira força. Devido às dificuldades para recuperar a unidade do peronismo numa só expressão eleitoral, cresce a possibilidade de que haja um segundo turno. Outra consideração genericamente compartilhada é a de que continua caindo o otimismo da população a respeito do governo, sua gestão e o futuro. Diante disso, e da ausência de outras políticas econômicas, o governo está considerando que a polarização em torno à ex-mandatária continua sendo sua maior fortaleza.

É por isso que a sempre presente rivalidade com Cristina, e o discurso sobre sua “herança” – agora ganharam o reforço de uma forte campanha contra os aparatos sindicais, o que se fortalece pela conhecida imagem negativa dos sindicalistas, particularmente entre os setores médios. Nesse contexto, aparece como notícia importante a recente e volumosa multa contra a associação dos caminhoneiros.

Os principais institutos de pesquisas mostram respostas diferentes para um eventual segundo turno. Para a consultoria de Hugo Haime, Macri perderia o desempate com sua antecessora ou com qualquer outro possível rival (Sergio Massa, Juan Manuel Urtubey, Felipe Solá ou Agustín Rossi), mesmo se mudar a sua vice – abandonando a atual, Gabriela Michetti, e reforçando a chapa com a governadora da província de Buenos Aires, María Eugenia Vidal.

Para a Rouvier – mais próxima ao kirchnerismo – um segundo turno entre Cristina e Macri terminaria com vitória do atual presidente. Finalmente, o instituto de Federico Aurelio considera que o macrismo tem um piso eleitoral de 35% e Cristina de 30%, e que num segundo turno Macri venceria, embora as coisas pudessem mudar se o candidato opositor a Macri não fosse Cristina ou um “afilhado” dela. Por isso a propaganda governista começa a ventilar o nome de Cristina.

Esses números não só semeiam a confusão dentro do peronismo, também se metem na disputa interna governista, e provocam diferente problemas. Não são poucos os que pensam que as recentes denúncias pelo uso fraudulento de fundos eleitorais na Província de Buenos Aires têm sua origem em um setor da própria Casa Rosada e estão sendo destinados a soterrar o peso eleitoral da atual governadora Vidal, para enterrar as possibilidades de um entre ela e alguns setores peronistas, às costas de Macri e sua equipe de governo.

(*) Juan Guahán é analista político e dirigente social argentino, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)