Lehman Brothers: uma das piores crises do capitalismo, e que ainda perdura – Por Claudio della Croce

Por Claudio della Croce*

O colapso financeiro provocado pelo estouro da bolha hipotecária nos Estados Unidos causou uma reação em cadeia que derrubou as principais economias do planeta e deixou milhões de pessoas sem trabalho. Apesar de que muitos países voltaram a crescer anos depois, ainda sofremos com as consequências políticas dessa grande recessão, apesar de que neste decênio se produziu a maior intervenção pública para salvar o capitalismo e a democracia ocidental tal como a conhecemos.

Poucas vezes foi tão palpável a sensação de que o capitalismo global poderia colapsar como naquele 15 de setembro de 2008. O Lehman Brothers, um dos maiores bancos de investimentos do planeta, declarou falência e deflagrou a pior crise econômica mundial desde os Anos 30 do século passado. Fundado em 1850, o banco sobreviveu a numerosas crises e tinha ativos calculados em mais de 680 bilhões de dólares. Por isso, o caso é considerado a maior bancarrota da história dos Estados Unidos.

O Lehman selou o seu destino muito antes de 2008, ao se envolver com a bolha das hipotecas, o chamado subprime – centenas de milhares de créditos concedidos a pessoas que não estavam em condições de pagá-los, o que criou uma montanha de dívidas de péssima qualidade. Entretanto, essas hipotecas eram agrupadas em títulos e comercializadas pelos grandes bancos como investimentos de baixo risco, com a cumplicidade das agências qualificadoras, que fizeram vistas grossas e lucraram com a jogada.

O estouro da bolha levou à quebra de dezenas de entidades menores em 2007, e passou a comprometer todo o sistema financeiro estadunidense. A quebra do Lehman Brothers surpreendeu o mundo, após um fim de semana de intensas e infrutíferas negociações. O banco deixou uma dívida de 691 bilhões de dólares e 25 mil empregados despedidos, na maior falência já vista na história estadunidense. Em Wall Street, o índice Dow Jones afundou 500 pontos, sua maior queda desde os ataques às Torres Gêmeas, em 2001.

“Naquela quinta-feira (18 de setembro de 2008), às 11h, a Reserva Federal alertou sobre uma enorme diminuição das contas do mercado monetário nos Estados Unidos, um valor total de cerca de 550 bilhões de dólares, retirados em questão de uma ou duas horas. O Tesouro abriu a possibilidade de ajudar e injetou cerca de 105 bilhões no sistema, mas logo percebeu que não poderia conter a tendência”, lembrou o democrata Paul Kanjorski, presidente do comitê de mercado de capitais do Congresso.

“Tivemos uma afluência massiva eletrônica nos bancos. Eles decidiram suspender a operação, fechar as contas monetárias e anunciar garantias de 250 mil dólares por conta, de forma a não criar mais pânico. Sem essa medida, estimávamos uma perda de 5,5 trilhões de dólares do sistema de mercado monetário dos Estados Unidos até as 14h, e isso se transformaria em um contágio de toda a economia mundial. Seria o fim dos nossos sistemas econômico e político tal como os conhecemos”, completou Kanjorski.

Estas palavras são muito úteis para recordar o ambiente apocalíptico que se viveu há uma década, depois do fracasso de todas as tentativas das autoridades estadunidenses de vender o banco. Quando o secretário do Tesouro da época, Henry Paulson tentou endossá-lo ao britânico Barclays, seu colega do Reino Unido respondeu: “não queremos importar vosso câncer”.

Obviamente, os chefes de Lehman eram conscientes dos riscos excessivos que corriam ao aumentar seus lucros a curto prazo, mesmo sabendo desde 2005 da possibilidade de uma iminente queda abrupta do mercado imobiliário. Entre 2005 e 2007, operando no coração da bolha imobiliária e outorgando créditos hipotecários a compradores insolventes, o Lehman comprou muitos desses empréstimos e registrou recorde de lucro. Foi a partir de meados de 2007 que o banco passou a acumular perdas, e o golpe final chegou nove meses depois, em 16 de março de 2008, com a quase quebra de outro banco de investimentos, o Bear Stearns.

A um passo da bancarrota devido às suas apostas desastrosas, o Bear Stearns foi comprado pelo JP Morgan, com a ajuda da Reserva Federal, medida que soterrou a confiança dos mercados, que começaram a apostar na queda do Lehman. As autoridades tentaram encontrar um comprador para o Lehman, e negociaram primeiro com um banco sul-coreano, para logo buscar o Bank of America e o Barclays.

A Reserva Federal pressionou a agência JP Morgan e emprestou 30 bilhões de dólares para que adquirisse o Bear Stearns pagando dois dólares por cada ação (cujo preço era de 133 um ano antes). O objetivo era evitar a quebra de outros bancos de investimentos, como o Merryll Lynch e o Lehman Brothers, fortemente comprometidos.

O resgate do Bear Stearns contrariava todo o evangelho do neoliberalismo: em vez de deixar que se aplicasse a disciplina do mercado, a Reserva Federal interviu para atenuar os danos da quebra. No fim das contas, a salvação do banco não evitou o colapso. Meses depois da aquisição do Bear Stearns pelo JP Morgan, o banco Lehman Brothers também se declarou em quebra, mas desta vez a Reserva decidiu que não faria nada para resgatá-lo, provocando um terremoto no sistema financeiro global.

Uma semana antes da quebra do Lehman, os Estados Unidos acabavam de nacionalizar os gigantes hipotecários Fannie Mae e Freddie Mac, que garantiam mais de cinco bilhões de dólares em empréstimos. Pouco depois, o Estado salvou a companhia de seguros AIG, com 180 bilhões de dólares, antes de colocar à disposição dos bancos outros 700 bilhões de dólares, em um polêmico plano de recapitalização… finalmente, deixou o Lehman cair, enquanto salvava o Goldman Sachs.

Milhares de companhias dos mais variados ramos fecharam suas portas, e milhões de pessoas ficaram desempregadas. Para evitar a demolição do sistema financeiro, muitos países tiveram que arcar com milionários resgates para salvar os mesmos bancos que haviam sido responsáveis pela hecatombe.

Esta combinação de fatores fez com que a crise econômica se transformasse rapidamente numa crise política. A indignação generalizada da população pela falta de trabalho e o fim do bem-estar foi alimentando um repúdio aos políticos que, em vez de apoiar as pessoas comuns e combater os efeitos da crise sobre elas, preferiram ajudar os banqueiros que foram os causadores da crise.

Washington mobilizou bilhões de dólares para salvar os setores que geraram a crise, mas fora de Wall Street, o resto do país sofreu bastante. Os suicídios aumentaram na medida em que os devedores perdiam suas casas em todo o país. Cerca de 10 milhões de estadunidenses ficaram sem trabalho. “Depois de 10 anos e centenas de bilhões em multas aos bancos, o maior legado da crise é o fato de que ninguém foi julgado ou preso”, denunciou Phil Angelides, político que presidiu uma comissão que investigou a crise de 2008.

A recessão desencadeada pelos bancos que se beneficiaram com os investimentos impagáveis – que, por sua vez, levaram à queda do sistema financeiro – trouxe como consequência uma maior regulação, que se implementou a partir de 2010, sob o governo do presidente Barack Obama, e que Donald Trump, pretende moderar.

Hoje, os riscos sobre a prosperidade mundial dentro da doutrina ocidental cristã incluem palavras e termos como “taxas”, “China”, “países emergentes”, “Brexit” e “Donald Trump”. Um coro de economistas, empresários e governos, além de organismos globais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), e nacionais, como a Reserva Federal dos Estados Unidos, todos advertem sobre os perigos de uma guerra comercial, que terminaria prejudicando a produção e os consumidores de toda a economia do planeta.

O contexto político atual não se parece em nada com o que havia antes. Os partidos tradicionais do mundo ocidental estão em crise e o populismo – principalmente em sua vertente de extrema direita – está no auge. A estabilidade prévia à Grande Recessão soa hoje como uma utopia, ou mera expressão do desejo.

A queda foi mais forte e de mais longa duração na Europa. Como os Estados Unidos, a média dos 28 países da União Europeia vinha crescendo ao ritmo de 3% anual, inclusive até 2007, já que o efeito das subprime tardou um pouco mais em chegar. Em 2008, o PIB se estagnou em 0,5%, e em 2009 despencou 4,3% pontos. Nos seis anos entre 2008 e 2013, o PIB europeu mediu 0% de crescimento. Em 2014, começou uma lenta recuperação, que em 2017 rondou os 2%, a mais alta cifra depois do colapso.

A crise financeira de 2008 causou uma década perdida no mundo desenvolvido. Muitos países, particularmente no sul da Europa, ainda apostam numa economia com elevado endividamento público e austeridade. As taxas de desemprego se mantêm altas, sobretudo entre os jovens. A desigualdade de renda continua aumentando. Os problemas atuais na Itália e na Turquia mostram o quão frágeis são essas economias”, relata Manuel Funke, investigador do Instituto Kiel para a Economia Mundial.

Os governos da Grécia, Portugal, Itália, Espanha e Irlanda implementaram políticas de austeridade, com o objetivo de reduzir o déficit orçamentário e acalmar os mercados financeiros, o que contribuiu para incrementar o desemprego. Os custos sociais e políticos foram elevados e ainda são sentidos.

Os casos mais dramáticos são os da Grécia e da Espanha. O desemprego entre os gregos se quadriplicou, saltando de 7,3% em maio de 2008 a 27,9% em julho de 2013. Após um resgate financiado pelo FMI e pela União Europeia, que impôs severas medidas de ajuste, os índices começaram a cair aos poucos, mas só saíram da casa dos 20% este ano – agora está em 19,1%. Na Espanha, onde o sistema financeiro também teve que ser resgatado, o desemprego passou de 7,9% em 2007 a 26,3% em 2013. Atualmente, se encontra em 15,1%, quase o dobro em comparação há 10 anos atrás.

A perda de empregos foi o efeito mais notório da recessão. Nos Estados Unidos, a desocupação passou de 5% em dezembro para 2007 para 7,3% em meados de 2008, e logo atingiu o ponto máximo de 10% em outubro de 2009, exatamente o dobro de dois anos antes. A partir desse momento, começou a baixar com alguma constância, até chegar aos 3,9% em agosto de 2018. A crise financeira de 2008 provocou uma década perdida no mundo capitalista.

Os sistemas bipartidários, que se mantiveram estáveis por décadas, foram varridos, e os parlamentos passaram a mostrar panoramas mais fragmentados, com a chegada de partidos novos e pequenos, muitos deles xenófobos e ultraconservadores. As sociedades se polarizaram politicamente nos últimos dez anos, o que faz com que a tarefa de governar e resolver as crises seja muito mais difícil.

A Grande Recessão continua: Mercado e Estado

Na última década, uma enorme lista de livros vem informando, analisando, comparando e inclusive produzindo alternativas ao funcionamento do sistema capitalista – que esteve por um triz de tornar realidade as profecias de Marx sobre sua autodestruição.

Entre eles, podemos destacar “Quebrados: Como uma década de crise financeira mudou o mundo” (título original: Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World), do professor da Universidade de Columbia, Adam Tooze, cujo relato começa no dia seguinte ao da queda do Lehman, com os mercados financeiros paralisados, as primeiras injeções de centenas de bilhões de dólares para salvar Wall Street, enquanto George W. Bush nacionalizava a AIG, uma das maiores corretoras de seguros do mundo, especializada em seguros de não pagamento de créditos, e a histeria que se contagiava em Manhattan, onde se iniciava mais um período da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

O jornalista espanhol Joaquín Estefanía conta que o primeiro orador daquela assembleia foi o presidente brasileiro Lula da Silva, que denunciou energicamente o caos especulativo que havia provocado a queda dos bancos. Depois dele, foi a vez de um Bush desconectado da realidade, que dedicou seu discurso ao terrorismo, enquanto a crise financeira só ocupou dois parágrafos no final de sua fala. Uma semana depois, o secretário do Tesouro pedia permissão ao Congresso para instrumentar o primeiro pacote de ajudas ao sistema financeiro, por um valor de 700 bilhões de dólares, com o argumento de que “se não fizermos isso, na segunda-feira já não haverá economia”.

Há quase uma unanimidade entre os analistas sobre o fato de que a Grande Recessão não foi um acidente pontual da economia, e sim uma transformação global, cujas consequências se multiplicaram no território da política: crise de representação, com a aparição de novas agrupações de direita e de esquerda, o ressurgir do populismo e dos autoritarismos, além da multiplicação dos movimentos de indignados.

Mas também houve mudanças profundas na geopolítica, com as guerras comerciais, a saída do Reino Unido da União Europeia, a permanência definitiva da China como superpotência mundial, entre outras transformações que levam alguns estudiosos a classificar a crise como a “Segunda Grande Depressão”.

Na comparação entre ambos os períodos recessivos se destaca o fato de que os problemas entre o ano de 2008 e a atualidade foram menos profundos que os da Grande Depressão dos Anos 30 do século passado, porém mais longevos e, sobretudo, mais complexos que aqueles.

Muitos autores, como Guy Standing e Owen Jones, defendem que a Grande Recessão ainda não acabou, embora o mundo tenha entrado numa etapa de retomada do crescimento econômico e redução dos índices de desemprego. Consideram que o momento atual é de uma mutação silenciosa, uma metástase que logo mostrará seus efeitos negativos mais estruturais, como a precarização da vida e dos mercados de trabalho, além do aumento da desigualdade.

Uma série de estudos científicos situam esta característica central da economia capitalista no frontispício de suas deficiências. Durante a Grande Recessão, se expandiu uma redistribuição inversa dos lucros, da riqueza e do poder dos cidadãos, como em poucos momentos da história contemporânea.

Os economistas ortodoxos não foram capazes de prever a chegada da crise, e tiveram que abandonar suas convicções para recuperar as lições do keynesianismo com o fim de superar os mais dilacerantes desequilíbrios. Durante a última década, foi necessário ampliar irremediavelmente o marco cognitivo neoliberal, hegemônico na prática política desde os Anos 80 do século passado, operando o sistema em muitos momentos como uma espécie de capitalismo de Estado.

Pela primeira vez, se tratava de uma crise da qual não podia culpar a periferia, pois esta nasceu e se expandiu dentro do coração do capitalismo. Durante as três últimas décadas, a revolução conservadora impôs ao mundo o princípio teórico de que “o mercado soluciona tudo”. Porém, com Wall Street se afundando, tal ideia foi para a lata do lixo, e foi necessário fazer a maior intervenção com dinheiro público que já se viu na história.

O célebre Consenso de Washington (que pregava uma rigorosíssima disciplina fiscal e monetária) não deixava de ser uma piedosa ejaculação dos teóricos, sem contato com a realidade. “O problema não era, como diziam, de Estados inchados, ogros filantrópicos, e sim de governos frágeis, desarticulados, sem os instrumentos regulatórios adequados diante da magnitude das dificuldades”, analisa Estefanía.

Outras análises – de jornalistas financeiros como Guillian Tett, do Financial Times – indicam que as crises financeiras como a do Lehman mostram duas coisas. “Primeiro, devemos lembra que o período anterior à crise está marcado pela arrogância, a cobiça, a opacidade e uma visão unilateral das entidades financeiras, e todos esses elementos tornaram impossível avaliar os riscos. Logo, quando a crise golpeou o mundo, houve uma perda repentina de confiança nos investidores, nos governos, nas instituições em geral”, comentou o jornalista. A arrogância se transformou no seu contrário, e os “espíritos animalescos” (segundo descrição de Keynes) desapareceram de repente.

Para Tett, as crises financeiras se repetem a cada certo tempo, devido à imprudência e à cobiça, além da falta de regulação. O economista marxista Michel Roberts acredita que entre 2007 e 2017, a proporção da dívida com relação ao PIB aumentou de 179% a 217%. Mas desta vez, a “orgia do endividamento não ocorreu nas áreas de finanças que causaram a última crise, como os empréstimos de alto risco. Em vez disso, o auge da dívida afeta empresas em risco e governos como o da Turquia e dos Estados Unidos, cujo endividamento público se acelerou durante a administração de Donald Trump.

As conclusões políticas de tudo isso apontam soluções como uma maior regulação, a divisão dos bancos e das grandes corporações, ou a eliminação da legislação anti sindical para ajudar a reverter um pouco as tendências de aumento da desigualdade e do poder monopolista.

Contudo, Roberts lembra que a crise financeira global e a Grande Recessão mostraram que estas medidas sozinhas não impedirão outra crise e recessão, quando os “espíritos animalescos” voltarem para criar um novo boom, que depois se transformará em novo período de recessão – e a longa depressão posterior confirmou essa possibilidade. De qualquer forma, não há progressistas no poder em quase nenhum país do mundo atual, para que possam implementar tais reformas.

O mercado e o Estado são apresentados como entidades separadas e inclusive antagônicas. “Os ignorantes porta-vozes do neoliberalismo querem impor a tese de que o mercado surge espontaneamente, num processo de evolução natural. Ao mesmo tempo, popularizam a visão de que o Estado é um ogro invasivo, capaz de distorcer o funcionamento eficiente dos mercados”, comenta o economista Alejandro Nadal.

“Nesta visão de mundo, se supõe que as leis impõem certa segurança, ao evitar a arbitrariedade. Mas quando a crise ameaça a estabilidade de todo o sistema, o Estado e as entidades como a Reserva Federal intervêm com grande arbitrariedade. Tudo isto levou à erosão do Estado de direito, da legitimidade do Estado, e consagrou a farsa como fator essencial nas operações mercantis”, acrescenta Nadal.

Agora, temos um coquetel explosivo. Depois do colapso financeiro, o sistema de empréstimos interbancários se congelou (2008-2012). O resgate dos bancos e grupos corporativos através da política fiscal não foi suficiente para dar confiança ao sistema financeiro. A Reserva Federal inaugurou então sua postura de flexibilidade quantitativa, que intensificou a compra de ativos em poder dos bancos.

O economista pós-keynesiano Hyman Minsky dizia que, no estalar de uma crise, os bancos buscariam liquidar os ativos que tinham em garantia dos empréstimos outorgados, e isso provocaria o colapso do valor desses ativos: a intervenção da Reserva Federal estava justamente dirigida a conter essa queda de preços.

Tudo isso contribuiu para acalmar os ânimos nos mercados financeiros, mas a um custo que envolvia novos perigos, e a composição dos ativos da Reserva Federal demonstram isso. Em 2009, não havia entre seus ativos nenhum título respaldado por hipotecas. Hoje, 40% dos ativos são desse tipo – e não se sabe quantas dessas hipotecas são de má qualidade.

Por outra parte, o volume astronômico de liquidez injetado pela Reserva no sistema bancário serve para promover a criação de uma nova bolha especulativa. A flexibilidade quantitativa introduziu mais de 4,4 bilhões de dólares no sistema financeiro, que deviam servir para reativar a economia real, mas o banco central só opera mediante o mundo financeiro, e é aí onde ficou estacionada a liquidez criada pela flexibilidade quantitativa.

A prova deste fenômeno é o crescimento dos índices econômicos mais importantes. A especulação e os grandes vícios do processo de financeirização da economia real se mantiveram como antes da crise de 2007-2008. Os esforços por estabelecer uma regulação robusta para o sistema bancário e financeiro (como a Lei Dodd-Frank, de 2010) foram brandos, e hoje até os democratas estadunidenses contribuem com a agenda de desregulação e fragilização dessa norma. E com os efeitos da superbolha nos mercados financeiros, estamos na presença de uma mescla tóxica.

“O futuro do capitalismo estará em jogo nestes próximos anos”, vaticina Nadal. Quarenta anos de neoliberalismo a escala planetária deixaram uma cicatriz que não desaparecerá facilmente. São décadas de crescente domínio do setor financeiro sobre a economia, de um forte castigo ao gasto social e uma repressão dos salários. Este décimo aniversário nos lembra que talvez estejamos diante de uma nova transformação da essência do capitalismo.

(*) Claudio della Croce é economista e acadêmico argentino, investigador associado ao Centro Latino-Americano de Análises Estratégica (CLAE)

Publicado em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli–