Referendo em contagem regressiva – Por Yorka Gamarra Boluarte

Por Yorka Gamarra Boluarte *

O que o presidente peruano Martín Vizcarra pretende conseguir com o desafio que lançou ao Congresso, propondo a consulta junto à cidadania de quatro projetos-de-lei, mediante referendo? O que acontecerá em dezembro, se o Congresso não aceitar ou não aprovar a convocação da consulta, como indica o mandatário?

A reação presidencial aos chamados “áudios da vergonha” (nos quais foi revelado um complexo esquema de propinas e venda de sentenças até mesmo nos altos escalões do Poder Judiciário, e as instrumentalização política do mesmo), surpreendeu todos os sectores políticos e a própria opinião pública, dando a ele um importante salto positivo em sua aprovação – chegando a 46%, segundo a última pesquisa do instituto Ipsos. Manter o país relativamente tranquilo lhe dá fôlego para governar com certa calma.

Mas este desafio ao Congresso, de esmagadora maioria fujimorista, teve um raio de ação maior. Colocou em xeque quase todos os setores políticos do país. Ninguém tem coragem de se opor às medidas de luta contra a corrupção planteadas pelo governo, estão obrigados a apoiar essa ideia, embora manifestando dúvidas sobre a viabilidade de sua realização, mas sem se arriscar a uma postura de maior oposição a elas. A jogada de Vizcarra permitiu a retomada das rédeas do jogo, ser quem toma a iniciativa política.

Agora, os olhares da opinião pública estão sobre o Congresso da República, que deve dar luz verde ao referendo para a reforma parcial da Constituição, e Vizcarra necessita manter esta aliança com as ruas para manter o fujimorismo incapaz de recuperar a força que usou durante a primeira parte deste período governamental. O ideal para o Executivo seria que o fujimorismo não se solte dessas amarras, pois apesar de ter sido bastante afetado em sua imagem, ainda é uma força com ampla maioria no Legislativo.

Por sua parte, o fujimorismo deve permitir o debate das propostas do Executivo de forma rápida, e aprovar o referendo com a celeridade a que a lei obriga. Se não o faz, a população voltará a se mobilizar. Não esqueçamos que as últimas marchas anticorrupção protestaram contra o Legislativo e o Judiciário, mas também contra a “Força nº 1”. O fujimorismo se encontra na berlinda, preso ao dilema de dar lugar ao debate dos projetos-de-lei e à aprovação do referendo, como a população exige, ou proteger os corruptos próprios e alheios. Esse é o cenário ideal para o Executivo.

Vizcarra já não pode retroceder, nem deixar que o tempo passe e que o debate dos projetos se estenda indefinidamente, visto que foram apresentados ao Congresso em 28 de julho, já se passaram 30 dias, e ele mesmo impôs o mês de dezembro como data limite para a sua realização. Ou seja, o presidente terá que manter o fujimorismo em xeque, o que inclui não descartar a possibilidade de adiantar eleições, com o consequente fechamento do Congresso, como as ruas estão pedindo.

* Yorka Gamarra Boluarte é jornalista peruana. Texto distribuído pelo Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)