Migrantes hondurenhos não podem avançar nem querem retroceder – Por Gerardo Villagrán del Corral

Por Gerardo Villagrán del Corral*

Quase quatro mil migrantes hondurenhos, que saíram em caravana do seu país, atravessaram nesta sexta-feira (19/10) um bloqueio de policiais e militares que estavam em veículos blindados na fronteira guatemalteca de Tecún Umán, e só conseguiram entrar no México rompendo uma cerca metálica que impedia a passagem. O objetivo da caravana é chegar aos Estados Unidos.

O caso reforçou a discussão sobre o tema entre os governos estadunidense e mexicano. “O México sempre promoveu uma política migratória segura, regular e ordenada, e continuará definindo soberanamente suas ações nesta matéria com pleno respeito aos direitos humanos e ao direito internacional humanitário”, afirmou o presidente Enrique Peña Nieto, em mensagem ao governo dos Estados Unidos.

Durante a noite da mesma sexta-feira, o mandatário mexicano acrescentou que, como qualquer país soberano, o seu “não permitirá a entrada de imigrantes de forma irregular, e muito menos violenta, como ocorreu com um numeroso contingente da caravana que saiu de Honduras e tenta chegar aos Estados Unidos, passando pelo México. O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, viajou ao México para se reunir com o presidente Peña Nieto e o chanceler Luis Videgaray.

Pompeo disse em entrevista que teve uma boa conversa com o mandatário mexicano, e que falaram particularmente sobre a caravana de centro-americanos. Destacou de forma positiva o envio de 500 policiais federais à fronteira entre México e Guatemala. Antes, o chanceler Luis Videgaray disse que a política migratória do México é definida pelo governo do país, assim como a política migratória dos Estados Unidos é tarefa do governo norte-americano.

Pompeo contou que “o chanceler Videgaray e eu falamos sobre a importância de frear este fluxo antes que chegue à fronteira entre os Estados Unidos e o México. Somos conscientes de que a maneira em que o México resolve este assunto é uma decisão soberana. Seus líderes e seu povo decidirão qual é a melhor forma de alcançar o que consideram seus objetivos e agradeço a eles pelo esforço realizado durante estes últimos dias, incluindo o pedido de ajuda humanitária às Nações Unidas, para enfrentar esta caravana de migrantes”.

Acrescentou que o desafio do seu país para defender sua fronteira sul também é um desafio para a soberania dos Estados Unidos: “temos que reformar as leis para poder enfrentar corretamente este problema, e, como disse o presidente Trump, resolver essa questão internamente, para assegurar que vai ser bem feito. Se conseguimos isso, também ajudaremos a melhorar a relação entre os nossos dois países”.

Em um vídeo publicado no YouTube, Peña Nieto disse que a entrada violenta dos migrantes não somente atenta contra a soberania mexicana, mas também põe em risco os próprios integrantes da caravana, especialmente as crianças e pessoas idosas que fazem parte dela, se referindo à situação que se viu na fronteira entre a mexicana Ciudad e a guatemalteca Tecún Umán.

A caravana

A caravana partiu da cidade de San Pedro Sula, no norte de Honduras, no sábado 13 de outubro, após uma chamada divulgada pelas redes sociais. Os hondurenhos tentam fugir da violência e da pobreza que enfrentam em seu país, apesar das ameaças do presidente estadunidense Donald Trump, de que militarizará a faixa fronteiriça com o México para proibir a sua entrada.

Antes de as autoridades cederem e deixarem a caravana passar, foram vistos momentos de tensão, quando um bloco de migrantes chegou gritando em coro o lema “sim, é possível”, avançando com mulheres e crianças na frente, contra um grupo de cerca de 20 policiais que formavam um cordão de isolamento. A polícia mexicana lançou gases lacrimogêneos para conter a multidão, que ficou sobre a ponte internacional, esperando para poder entrar em solo mexicano.

Suportaram de tudo, e fizeram de tudo para chegar ao México, que para eles é a parada intermediária antes de chegar aos Estados Unidos. Se toparam contra as cercas de custódia instaladas pelo Exército guatemalteco na ponte internacional sobre o rio Suchiate.

A decisão de entrar de qualquer jeito foi tomada pelo grupo em assembleia, que foi realizada na manhã de sexta-feira, no parque central de Tecún Umán, cidade guatemalteca fronteiriça com o México, onde estavam acampando desde o dia anterior. Após o meio-dia, foram em filas até a fronteira. Primeiro, forçaram para passar pelo pelotão de militares guatemaltecos, que colocaram três tanques pequenos para obstruir a passagem, e depois começaram a saltar por cima da cerca.

Logo, ocuparam totalmente a ponte internacional, que possui meio quilômetro de extensão e atravessa o rio Suchiate – que divide o México e a Guatemala. Derrubaram a cerca metálica colocada pela polícia mexicana, para se encontrar com outra cerca de barras grossas, a qual conseguiram abrir parcialmente, provocando uma fissura.

As cenas dramáticas, transmitidas ao vivo pela televisão, se produziram quando muitos dos que sonham com ser imigrantes ilegais se jogaram da ponte para cair no rio, ou se penduraram em laços para chegar até as águas e nadar até onde eram esperados por balsas improvisadas. Na metade da ponte, diante de um letreiro que dizia  “bem vindos ao México”, com letras brancas sobre um fundo verde, a polícia lançou gases lacrimogêneos, o que fez com que os hondurenhos buscassem refúgios.

Então veio a resposta: uma chuva de pedras caiu sobre os policiais e demais pessoas que estavam do lado mexicano, entre elas jornalistas. Em meio a confusão, caos e desordem, muitos terminaram desmaiando no meio da ponte, incluindo mulheres e crianças.

Com um megafone na mão, o oficial Manelich Castilla Craviotto, da Polícia Federal mexicana, tentou fazer um apelo à ordem: “recomendamos a todos os migrantes que não agridam os policiais, vamos dar as condições para que todos sejam atendidos de forma ordenada, não coloquem em risco a vida de mulheres e crianças. Vamos criar uma comissão para determinar a forma de levá-los a um albergue”.

“Por que nos matam? Por que nos assassinam? Nós somos a esperança da América Latina”, cantavam alguns em coro. “Não somos delinquentes, só queremos trabalho e segurança, porque em nosso país há muita violência e pobreza”, disse outro jovem que viaja “com a ilusão de encontrar um emprego no norte (Estados Unidos)”.

Entrada ordenada

“Evitamos a vulneração da nossa fronteira e não precisamos do uso da força”, comentou Castilla Craviotto. “O propósito principal era a entrada ordenada dos migrantes, e assim foi, seguindo as condições estabelecidas pela autoridade migratória e não as da violência, que alguns pensam que funciona em países como o nosso, como medidas de pressão”, disse o oficial, após a política tomar o controle total da situação.

Duas horas depois, o governo mexicano começou a permitir a passagem de menores de idade, depois de adultos, para que subissem nos ônibus que os levavam a albergues localizados no centro de Ciudad Hidalgo, onde receberam alimentos, água, colchonetes e cobertores, enquanto as autoridades migratórias estudavam seus casos individualmente.

Rubén Figueroa, representante do Movimento Migrante Mesoamericano, que organiza todos os anos uma caravana de mães centro-americanas em busca de seus filhos desaparecidos no México, disse que os migrantes “foram reprimidos pela polícia mexicana, foi a Polícia Federal que deu as `boas vindas´, aos migrantes no Instituto Nacional de Migração (INM). O governo mexicano havia dito que não iria reprimir, mas isso não foi verdade”.

Na noite da sexta-feira, milhares de migrantes permaneciam sobre a ponte, sentados ou deitados no chão, esperando para poder ingressar no México. Funcionários do INM estavam preparados para receber os migrantes em grupos pequenos, para tramitar suas solicitações de refúgio ou visto humanitário, que é a única forma sob a qual o governo mexicano diz que deixará passar pela fronteira.

Há muitas câmaras de televisão por perto. Uma delas mostrou um jovem hondurenho que esteve presente na Comissão de Direitos Humanos e disse que “para eles (os policiais), nós (os migrantes) somos dejetos humanos. Ninguém nos defende”.

López Obrador

Mike Pompeo e Marcelo Ebrard, futuro responsável da Secretaria de Relações Exteriores – assumirá em dezembro, junto com o próximo governo – se encontraram em uma reunião privada, que abordou a proposta do presidente eleito, Andrés Manuel López Obrador, de estabelecer um projeto de desenvolvimento na América Central, para que a migração seja optativa e não obrigatória.

Ambos comentaram o encontro que Ebrard teve em Tegucigalpa, na quarta-feira (17/10), com a presença dos países do chamado Triângulo Norte da América Central (Guatemala, Honduras e El Salvador), no qual a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) apresentou uma proposta para o desenvolvimento da região, seguindo dois conceitos expostos por Obrador em sua carta a Trump.

Na missiva, López Obrador diz a Trump que o problema migratório deve ser encarado de forma integral, através de um plano de desenvolvimento que inclua os países centro-americanos, onde milhões de habitantes não têm oportunidades de trabalho e se sentem obrigados a deixar suas terras de origem, abandonar suas raízes para buscar a vida e fugir da fome e da pobreza.

“Se o México e os Estados Unidos participam deste plano, e incluímos os países centro-americanos, com cada um acrescentando de acordo com a dimensão da sua economia, poderíamos reunir uma considerável quantidade de recursos para o desenvolvimento da região, dos quais 75% se destinariam ao financiamento de projetos para criar empregos e combater a pobreza, e os demais 25% ficariam nas mãos dos órgão de controle fronteiriço e de segurança”, continuou a carta.

A reunião entre Pompeo e Ebrard se enfocou em temas como a agenda de trabalho que seu mandato impulsará a partir de dezembro, e também tratou do diálogo político entre México e Estados Unidos, o qual o vai muito além dos temas comerciais, de segurança e de migração.

(*) Gerardo Villagrán del Corral é antropólogo e economista mexicano, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

Publicado em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli