O Brasil arde junto com a Amazônia – Por Ana Paula Lemes de Souza

As árvores são tornadas em pó para se transformarem em dinheiro, para darem vez à mineração, à pecuária, à grilagem

“El error consistió

en creer que la tierra era nuestra

cuando la verdad de las cosas

es que nosotros somos de la tierra“

– Catastrofista? – Nicanor Parra

Esse é um texto que demoro a escrever. Foi maturado vagarosamente no meu peito, junto com essa dor, um tanto inexplicável, pouco explanável, que encontra dificuldades de se transformar em palavras. Elas foram cozinhadas uma a uma, tão miúdas e pequenas, porque se fizeram repletas de silêncios, emudecidas de tanto doer. Calamitoso e estrondoso, meu peito se fratura, faz-se cacos, enquanto os pensamentos, enuviados, querem começar a chover, mesmo que de água da cor preta de fuligem, para o céu se abrir em poesias. Mas agora o céu está caindo e tudo que vejo são chamas.

O Brasil arde nas chamas da Amazônia. Junto com cada árvore, cada elemento não humano, pedra, água, bicho, planta ou coração, ardem tantos sonhos, o futuro subitamente roubado, ardente, ausente, temente, dolente.

Arde como tudo vem ardendo, colocado em sacrifício, alimentando as brasas de todo o ódio e horror que assombram o ecocida e suicida poder. Cada palavra soprada para reavivar as brasas, solta ou amarrada, fazem estreita a visão empoeirada, arde em mentiras, por entre as verdades escondidas nas cortinas de fumaças.

Junto com a Amazônia, ardem nossos filhos e netos, nosso céu.

O firmamento cai junto com a Amazônia, junto com todo o bom senso, ética e alegria. A latência insofismável dessa arrogância inculta expulsa os espíritos da natureza, entrando em cena os fantasmas inglórios das leis, que cinicamente fingiam defender as árvores, enquanto nos sopravam mentiras aos pés dos ouvidos. Mas o fogo lançado na Amazônia é fogo lançado em nosso próprio corpo, fogo bastardo, ignóbil; filho impuro do nosso próprio cinismo.

A floresta arde em febre, como ardem os seus povos autóctones, mais uma vez queimados, destruídos, torturados. Ardem as palavras da Constituição, apequenada, como ruídos ou ruínas de doce utopia. Somos os filhos da Terra, os povos guerreiros que ardem febris.

Nosso sentimento é de dor ou tortura, misturados nesses muitos Brasis, poucos brasis, subitamente em brasas.

Mas quando as árvores finalmente se transformarem em pó, quando nossos corpos doentes desmontarem-se em leito de morte, veremos o quão nossa visão era tacanha, o quão pequena era a nossa “razão”, essa que passou a fazer da floresta, indústria, do corpo, desculpa, da leveza, o escárnio. A Amazônia não precisa de nós, nós é que precisamos da Amazônia.

As árvores são tornadas em pó para se transformarem em dinheiro, para darem vez à mineração, à pecuária, ao agronegócio de exportação, à grilagem; para tirarem a vez, a nossa vez, a nossa voz.

Nós, a geração mais estúpida, odiosa e odiada, que conseguiu destruir a si mesma, enquanto se achava monumental, visceral, indisputável, senhora da natureza, que fez da palavra, o poço e, da ganância, o desconforto. Como se fosse possível ou desejável se alimentar de outra que não a frondosa terra, como se o verde maquínico impresso em notas de dólar pudesse alimentar o corpo e saciar a alma. O verde, tornado em outro verde, faz do corpo fuligem, retorna com implacável indiferença, não cura a dor do espírito e nem as feridas da carne.

A partir das cenas de fogo que cortam e nos fazem ter arrepios podemos pensar em toda situação do país. Não é apenas a divina floresta que está em chamas. Pois quando a Amazônia cai, é que todo o mais já caiu: a Constituição, a lei, a visão, a ética, o bom senso.

Mas que, ainda nesse triste cenário, saibamos nesse leito ardente, no meio das piras, renascer das cinzas como uma fênix e fazer do nosso próprio desconforto a chama para outros voos.

Carta Capital