Elecciones en Brasil | 264 candidatos fueron asesinados este año, cinco veces más que en 2016

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Eleições 2020: TSE registra 264 crimes contra candidatos desde janeiro

De janeiro a novembro deste ano, Brasil registrou 264 crimes contra candidatos e pré-candidatos das eleições 2020. O número é cinco vezes maior do que em 2016, quando foram apontados 46 crimes nas eleições municipais. Os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que a violência contra os candidatos neste ano incluiu: tentativas de homicídio, ameaça e lesão corporal, além de assassinatos. Em pronunciamento, o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, ressaltou que a violência de gênero foi uma das altas em 2020. “Esse tipo de agressão às mulheres, física ou moral, é pior do que o machismo, é covardia. Nós precisamos de mais mulheres na política e enfrentar essa cultura do atraso, da discriminação, do preconceito, da desqualificação.”

Neste ano, 100 casos de homicídios foram tentados ou consumados contra candidatos ou pré-candidatos. Apenas entre outubro e novembro, depois da confirmação das candidaturas, 12 postulantes foram mortos. O crime de ameaça foi mais apontado pelo TSE no período eleitoral de 2020, com 146 casos. Para Luís Roberto Barroso, as forças de segurança desempenham papel determinante para coibir os atentados. “A violência é incompatível com a democracia. É preciso jogar limpo e civilizadamente. E os órgãos de segurança pública estão vigilantes em relação à atuação do crime organizado”, afirma. O presidente do Tribunal reforçou ainda que os crimes eleitorais, como boca de urna, compra de voto e transporte ilegal de eleitores caíram na votação deste ano.

JP


O diabo na campanha das eleições municipais no Brasil

Por Magali Cunha

O diabo é uma figura surgida na tradição cristã, que está relacionada à encarnação do mal. São variadas as interpretações, religiosas e científicas, antigas e modernas, de como a existência deste mal encarnado se dá. Boa parte das vezes, a figura do diabo é reduzida à imagem de uma entidade, representada de muitas formas, dependendo da cultura e do clima social. Por isso, as imagens variam de um homem vermelho, com tridente e rabo, a um galã elegante e sedutor, e são tanto fonte de medo, de narrativas orais, teatrais ou cinematográficas, algumas bem atrativas, como motivo de humor ou de fantasia do Carnaval.

Entretanto, vale refletir que, na teologia cristã, o diabo está para além de uma entidade. A origem do termo explica. No grego, diabolos e no hebraico, satan, o sentido é o mesmo: “aquele que divide”, “provocador de confusão, discórdia”. Isto significa que, enquanto Deus, o Criador, age para transformar o caos, unir, harmonizar, trazer paz, o diabo trabalha no contrário: divide, confunde, mente, causa injustiça, destruição e provoca violência seja ela física, psicológica ou simbólica. Diabolos é, portanto, nas bases da teologia cristã, uma postura, uma força, um caráter, revelados nas pessoas que assumem tais expressões.

Não vamos adiante com discussões teológicas, que são importantes, mas não são objetivo deste artigo. Importa aqui, neste espaço, refletir como o significado de diabolos pode nos ajudar a pensar sobre o que está acontecendo neste exato momento do Brasil, com as expressões de confusão, mentira, injustiça, destruição e violência no processo eleitoral.

É fato que temos o permanente desafio de superarmos os controversos binarismos certo-errado, legal-ilegal, bem-mal, entre outros, que disfarçam as complexidades das relações humanas e de sua extensão na cultura, na economia, na política. No entanto, em nome da promoção da vida em sua plenitude, em todas as suas dimensões, pela causa da paz e da justiça, precisamos chamar o mal pelo nome (como já escrevi em artigo neste espaço) e denunciar ações diabólicas que estão em curso. Algumas delas, para dividir e confundir, usam até mesmo o nome de Deus para seduzir cristãos (coisa que, de acordo com registros da Bíblia cristã, o diabo faz muito bem).

Por isso, Jesus, ao se deparar com as ações antivida, aquelas que instituem privilégios, segregação, desigualdade, que impedem a plenitude e a abundância de vida a todas as pessoas, desejo de Deus, compara estas práticas diabólicas às de um “ladrão”, que surge para roubar, matar e destruir (João 10.10). Ele também identificou disseminadores de mentiras como quem age a partir de desejos diabólicos: “… [no diabolos] não há verdade; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio; porque é mentiroso, e pai da mentira” (João 8.44).

Neste sentido, podemos classificar como diabólicas as campanhas políticas para eleições municipais no Brasil, que fazem uso de mentiras agressivas para destruir a imagem de concorrentes. Isto acontece principalmente, mas não exclusivamente, nas capitais Rio de Janeiro, Vitória, Recife, Fortaleza e Porto Alegre. Estas ações, que visam convencer eleitores pela confusão que causa medo, partem de candidatos como o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus que pleiteia a reeleição como Prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella (Republicanos). Em vídeo espalhado pela internet, Crivella afirma que o concorrente Eduardo Paes (DEM), tem apoio do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), pela promessa de ocupar a Secretaria de Educação e introduzir pedofilia nas escolas.

Além da mentira sobre pedofilia nas escolas, o atual prefeito do Rio afirmou, na companhia de deputado federal da Igreja Assembleia de Deus Otoni de Paula (PSC/RJ), que o PSOL é inimigo do Presidente da República e deseja dar uma segunda facada nele (referindo-se ao atentado sofrido por Jair Bolsonaro em 2018). A campanha diabólica de Crivella também distribui panfletos com o mesmo conteúdo na porta de igrejas e em espaços públicos, usando funcionários da Prefeitura.

Pesquisa sobre este discurso acusatório em vídeos de candidatos e apoiadores (inclusive do Presidente da República e seus ministros), folhetos sem identificação e registro (por isso, ilegais) e áudios que circulam por grupos religiosos no Whatsapp, verifica prioritariamente o convencimento com mentiras pela imposição do medo. Há também vídeos com falsidades e pânico moral (terrorismo verbal produzido para criar aversão social a pessoa ou grupo) de contra-campanha, ou seja, de influenciadores políticos e religiosos que não apoiam candidatos, mas agem contra outros que querem destruir. Os vídeos do pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, para interferir em cidades com as quais, curiosamente, ele não tem qualquer relação, são fortes exemplos de contra-campanha.

Desde as eleições de 2018, candidatos que buscam apoio de eleitores religiosos recorrem a conteúdo falso e ao pânico moral com base em temas relacionados à sexualidade humana, ao que chamam de “defesa da família tradicional” aliada a “proteção das crianças nas escolas”, e ao enganoso conceito de “ideologia de gênero” (como já tratei neste espaço). Neste 2020, foi acrescentado o tema da “perseguição a cristãos”, criando pânico em torno de candidatos que, se eleitos, atuariam para “fechar igrejas usando como desculpa a prevenção ao coronavírus”.

É fato que qualquer tema que levante o assunto “sexo” e “sexualidade” mexe com o imaginário dos cristãos e provoca muitas emoções (tratei disto também no artigo “Por que os evangélicos só pensam em sexo?”). É de se considerar também que, nos últimos anos, o contexto político brasileiro ressuscitou e realimentou o velho temor do comunismo e do marxismo. Como a maioria nunca leu uma linha das teorias de Karl Marx, acaba acreditando nos irmãos de fé que falam de “doutrinação de mentes”.

É fato ainda que os avanços nas políticas que garantem mais direitos às mulheres e a LGBTI+, e ampliam a participação destas populações no espaço público, causam desconforto às convicções e crenças de grupos que defendem, por meio de leituras religiosas, a submissão das mulheres e a cura dos LGBTI+. Uma moralidade ressentida.

Por isso, para estes grupos, o trabalho das agências de pesquisa e dos sites que promovem a checagem de informações, por mais detalhado e correto que seja, acaba não tendo um efeito suficiente. Não adianta que interlocutores, pacientemente, tentem mostrar que o que se divulga é falsidade e mentira. Isto porque o que sustenta este processo de crença nas mentiras não é apenas a ignorância, mas o fato de que a audiência acredita no que escolhe acreditar.

Quando um grupo se identifica com mentiras, mesmo que elas sejam demolidas em nome da ética e da justiça, permanece com elas e as defende de qualquer jeito. Não importa que seja uma falsidade, o conteúdo não é apagado dos espaços virtuais e continua a ser reproduzido. Mais: aquele que desmascarou a notícia ou a ideia, que pode ser um familiar, amigo ou irmão na fé, chega a ser objeto de desqualificação e rancor.

Eis aí o sentido do diabólico, da imposição de divisão, confusão, de destruição da imagem do outro com mentira.

A despeito de tudo isto, sempre há chance de exorcizar o diabo: expeli-lo do processo. Por isso há que se ter esperança da presença pública de cidadãos e grupos, religiosos ou não, que atuam pela superação das ações diabólicas em nome da paz e da justiça. Eles/as estão por aí, pessoas eticamente responsáveis, agências de checagem de notícias, como fermento na massa, tentando juntar e não dividir, construir e não destruir. Como disse Jesus, “pelos frutos os conhecereis” (Mateus 7.20).

Carta Capital


História e antigas rixas se reencontram no segundo turno em Recife

Por Vitor Nuzzi

Depois de um primeiro turno disputadíssimo, com quatro forças se destacando, a capital pernambucana se prepara para a decisão, no próximo domingo (29), evocando história e antigos desentendimentos políticos – e até familiares. A reta final acirrou rixas e deixou para trás um período de alianças no campo dito progressista. Depois de ficar à frente no primeiro turno, com 29,13% dos votos, o candidato do PSB à prefeitura de Recife, o deputado federal João Campos, aparece atrás na pesquisas de intenção de voto. A também deputada Marília Arraes, do PT (27,9% no último dia 15), se mantém à frente. Pelo menos até hoje (25), quando o Ibope apontou situação de empate técnico, com apertada vantagem para o pessebista.

Mas já havia sido o bastante para Campos apelar para o “antipetismo“, prática mais comum entre partidos conservadores, subindo o tom da campanha. Certamente de olho nos votos da direita: o terceiro colocado, o ex-governador e ex-ministro Mendonça Filho, do DEM, teve 25,07%.

Raízes familiares

Marília, 36 anos, e João, que completa 27 anos nesta quinta-feira (26), ambos deputados, são primos. Têm origem na mesma raiz política, o ex-governador, prefeito e deputado Miguel Arraes (1916-2005), avô de Marília e bisavô de João. Este é filho de Eduardo Campos, ex-governador, candidato à Presidência da República em 2014 e morto em plena campanha, vítima de acidente aéreo. Eduardo morreu, por sinal, em um 13 de agosto, aos 49 anos, mesmo dia do avô Miguel.

Mas até que ponto toda essa carga político-genética influencia na decisão dos 1,1 milhão de eleitores recifenses? “A gente tem de pensar qual é o eleitor, de que grupo nós estamos falando”, observa o professor e historiador Pablo Porfírio, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O peso pode ser maior ou menor conforme a classe social.

“Para uma classe média de Recife, esse histórico é algo mais presente. Muitos integrantes dessa classe média, sobretudo dos bairro da zona norte, militaram em campanhas de Arraes, principalmente na década de 1980, no processo de redemocratização, setores dos grupos artísticos, movimento muralista”, lembra o professor. “Há uma classe média, acadêmica, mais intelectualizada, mas também ligada ao funcionalismo público, em que esses nomes têm uma entrada maior.”

Discurso conservador

Já para uma classe A, “formada por uma nova elite ligada mais a serviços, acho que não pesa tanto, até porque é um grupo que está focado nas opções mais de direita, onde esse discurso conservador entrou com mais força”, prossegue Porfírio. Por fim, entre a população mais pobre, das periferias, ele acredita que o “elemento decisório” é outro.

Segundo o pesquisador, Marília ganhou espaço na periferia, uma área em que o PT já teve muita presença. Foram três administrações seguidas, duas com João Paulo Lima e uma com João da Costa, de 2001 a 2012. Desde 2013, o PSB comanda a prefeitura, com Geraldo Júlio. Nessas regiões, talvez, a discussão principal se dê sobre partidos, mais do que nomes.

Antes e depois de 1964

O pesquisador discorda da identificação de Miguel Arraes como um político basicamente da geração pré-1964 – governador eleito em 1963, ele se exilou após o golpe. “Ele também ganha notoriedade a partir da década de 1980, com a sua volta (ao Brasil). A eleição de 1986 é um marco para ele (Arraes se reelege governador e assume em 15 de março de 1987). Depois, programas como o Chapéu de Palha formam muito essa imagem do “pai” para os trabalhadores canavieiros.” Diferente de outros políticos do pré-64, como Francisco Julião e Gregório Bezerra, Arraes consegue um retorno “de forma muita sólida”, avalia Porfírio.

Para ele, tanto Miguel Arraes como Eduardo Campos eram políticos agregadores. Mas também centralizadores. “Agregam muitos setores, muitos grupos políticos, sabem fazer essa formação das frentes. Mas também essa formação de frentes políticas, conjunção de grupos, devem existir tendo eles como cabeça. São políticos que não aceitam dividir espaços de liderança. Lembro muito que o Arraes, quando voltou, perde a eleição do PMDB na eleição de 1982 e fica indignadíssimo.”

Naquele ano, o candidato do PMDB ao governo pernambuco foi Marcos Freire, que perdeu para o governista Roberto Magalhães (PDS, o partido que sucedeu a Arena). Arraes foi o candidato a deputado federal mais votado, seguido de Jarbas Vasconcelos, que mais adiante deixou o PMDB.

Tradição política

“O estilo de fazer política de Miguel Arraes, do meu ponto de vista, encontra-se muito próximo de toda uma tradição política nacional.Ou seja, uma liderança ao se afirmar, não compartilha o espaço político em termos democráticos com nenhuma outra liderança”, diz um historiador pernambucano, que pede para não ser identificado. “Lembro Agamenon Magalhães e Carlos de Lima Cavalcanti (ex-governadores), em que o segundo foi excluído do poder por manobras do primeiro junto a Getúlio e se torna interventor em 1937. Arraes não colabora com a eleição para governador de Marcos Freire em 1982 e depois para a de Jarbas Vasconcelos em 1990, quando é derrotado por Joaquim Francisco. Eduardo Campos fazia política no mesmo estilo.”

Para ele, o que os separa é a visão de desenvolvimento econômico. “Enquanto Arraes era contra o turismo e tentava políticas de assistência ao agricultor, como a eletrização no meio rural, o programa Chapéu de Palha, distribuindo dinheiro aos canavieiros na época da entressafra, quando não tinham emprego, Eduardo trouxe montadora de carro, refinaria, estaleiro investindo fortemente na consolidação do parque industrial do Porto de Suape.”

Ele não vê PSB e PT como “progressistas”, mas como “grupos políticos distintos que negociam com as forças dominantes no Congresso e na sociedade”. “A grande diferença entre esses dois grupos, eu diria, deve ser avaliada na maior ou menor aproximação com os negacionistas que constituem hoje o presidente e seus aliados diretos”, acrescenta.

Ainda desigual

Apesar da longa trajetória de Miguel Arraes, o professor Porfírio acredita que Eduardo Campos conseguiu uma projeção nacional maior. Expressada, por exemplo, nos 10% de intenção de votos que as pesquisas apontavam em 2014. “O Arraes sempre foi um político muito ligado às suas bases regionais, e o Eduardo tinha uma visão nacional que eu acho que era muito mais agressiva.”

Ele chama ainda atenção para o fato, principalmente para quem vê de fora, de Recife ser considerada uma cidade com presença marcante de forças políticas progressistas. Uma imagem que vem ainda da década de 1950, com Pelópidas da Silveira (prefeito cassado em 1964) e com o próprio Miguel Arraes. “Mas ao mesmo tempo Recife é a cidade que tem a maior desigualdade social, uma cidade de traficantes de escravos no século 19 e onde Bolsonaro teve grande votação no primeiro turno (em 2018)”, pondera.

Assim, a capital pernambucana ainda convive com práticas conservadoras que se reproduzem ao longo da história. “Recife abre espaço para governos progressistas, populares, uns mais, outros menos, mas ao mesmo tempo é uma sociedade extremamente desigual, com uma concentração de renda muito grande. É algo a se pensar.”

O próprio resultado do primeiro turno, em alguma medida, mostra que o conservadorismo também tem força na capital pernambucana. Enquanto partidos mais à esquerda (PSB e PT) somaram 57% dos votos, o DEM e o Podemos (com a candidata Delegada Patrícia, apoiada por Bolsonaro) tiveram 39%.

Rede Brasil Atual


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