Brasil no ganará nada en la Copa América – Por Valdete Souto Severo

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Por Valdete Souto Severo*

Para todas as famílias que perderam alguém ou tem alguém internado, a Copa América é um deboche

Um torneio de futebol, especialmente internacional, é um espetáculo lindo, envolve toda a comunidade, faz vibrar, torcer e, especialmente, esquecer um pouco a dura realidade em que vivemos. Mas há um limite para isso.

Há momentos em que o maior espetáculo da terra pode significar o ato final, inconteste, da perda total de sanidade social. Perdemos a bússola. Mais de duas mil vidas são perdidas por dia, pela covid-19, no Brasil, há meses. Das que se recuperam, 13,2 mil entraram em benefício previdenciário em razão das sequelas deixadas pelo vírus, apenas no primeiro trimestre de 2021. Muitos de nós conhecemos pessoas para as quais a recuperação tem sido um doloroso processo de reaprender a comer, falar, caminhar.

A microbiologista ouvida na CPI do Senado afirmou essa semana que, segundo pesquisa, 3 de cada 4 mortes teriam sido evitadas se houvesse política pública de testagem, isolamento social, compra de vacinas e campanha de conscientização para uso de máscara, álcool gel e distanciamento.

Esse dado é impressionante. Significa que não perdemos nossos afetos em razão apenas da pandemia. Somos vítimas de um projeto político. Confirma, portanto, estudo divulgado pela CEPEDISA/USP sobre a possível existência de estratégia deliberada para a disseminação do vírus, por parte de um governo que chama de maricas quem chora por seus mortos ou exige prevenção. Não espanta, portanto, que esse governo tenha se oferecido para realizar a Copa América, quando a Argentina, em razão do aumento de casos de adoecimento, se negou a permitir a realização em seu território.

Aliás, faz todo o sentido.

A Copa América extrapola nossas fronteiras. Implica trânsito em aeroportos, corpos que irão trazer e levar cepas para as quais não sabemos sequer se as vacinas existentes funcionam. Outros campeonatos com esse potencial de disseminação mundial do vírus ocorrerão em breve. Assim como negaram-se a sediar a Copa América, é presumível que outros países se neguem a realizar as Olimpíadas ou a Copa do Mundo, se a pandemia seguir em descontrole. E novamente nós seremos oferecidos em sacrifício, dentro desse projeto insano que aposta na morte.

Para que um jogo de futebol aconteça são necessários os jogadores de cada equipe, além de preparador físico, preparador técnico, auxiliares e assistentes. Trabalhadores e trabalhadoras em segurança, limpeza e recepção. Duas ambulâncias, cada uma com no mínimo duas pessoas disponíveis: uma para fazer o atendimento e outra para dirigir até o hospital. A maioria dessas pessoas é jovem. Muitas não estão imunizadas, pois o governo se negou a comprar vacinas em 2020.

Muitos jogos resultam acidentes em que os jogadores precisam de atendimento, por vezes até de cirurgia de urgência. O sistema hospitalar no Brasil está em colapso. Nas cidades em que os jogos da Copa América serão realizados, a ocupação dos leitos está no limite ou acima dele, trabalha-se além das forças e das possibilidades materiais.

A Copa América envolve times de 10 países diferentes, todos com altas taxas de contaminação e morte pela covid-19. Mais de 2.300 jornalistas já estão credenciados para acompanhar as equipes, pelo menos 1.200 estrangeiros. A seleção da Venezuela, que participou do primeiro jogo com o Brasil ontem (13), teve 13 pessoas, sendo 8 jogadores, que testaram positivo para covid-19. A Colômbia, que também jogou nesse domingo, anunciou dois testes positivos na equipe. A Bolívia, 4 infectados. E nem assim o torneio foi suspenso.

Para realizar a Copa América é necessário que existam pessoas que silenciem diante desse cenário ou que com ele concordem. As medidas requeridas para tentar barrar a competição, foram todas rejeitadas. Em seu voto, o ministro Lewandowski concedia em parte o pedido para o efeito de determinar fosse apresentado, em até 24h, um “plano compreensivo e circunstanciado” sobre estratégias e ações para a “realização segura” da Copa América. Foi vencido.

E talvez não haja mesmo planejamento possível, pois a própria realização da Copa é a aposta na exposição ao vírus. Afinal, trata-se de um governo que rejeitou compra de vacinas, não revogou a EC95 que congela gastos com saúde, não aumentou o contingente de pessoas que atuam nos hospitais e postos de saúde, não protegeu contra a despedida e até hoje incentiva a aglomeração, enquanto critica o uso de máscara e chama de “idiota” quem evita sair de casa. Um governo que se ofereceu como sede, mesmo sendo primeiro lugar em número de novos infectados e de mortos, por dia, na América Latina.

O que mais impressiona é que algo tão fora de lugar numa realidade em que a mortalidade supera números de guerra e anuncia-se a terceira onda, seja normalizado também por boa parte das brasileiras e brasileiros, e não apenas aquela parte que se aventurou em passeio de motocicleta nesse domingo.

Parece um filme de terror em que espectadores e jogadores são coadjuvantes, cujos personagens podem ser eliminados (e muitos serão) sem comprometer o prosseguimento da narrativa. Em que as cenas, desde a CPI até as decisões da Corte Constitucional, produzem pouco ou nenhum efeito, apenas permitem que a trama prossiga, trágica e dolorosa.

Alguns jogadores anunciaram sua oposição, mas foram silenciados. E não nos enganemos, seus salários milionários não os tornam menos dependentes do trabalho que realizam. Suas carreiras estão em jogo. Nesse espetáculo, são inclusive as suas vidas e a de seus afetos que estão expostas.

Para todas as famílias que perderam alguém, que convivem com alguém internado ou em recuperação, a Copa América é um deboche. É a prova irrefutável de que essas vidas não importam. O espetáculo não pode parar. O único imperativo é o do gozo que não respeita a dor, não respeita o luto, empilha os cadáveres e segue apostando em uma política de morte.

O Brasil não vencerá a Copa América, ainda que ganhe todos os jogos.

O Brasil já está derrotado.

*Doutora em Direito do Trabalho pela USP/SP, juíza do trabalho no Tribunal Regional do Trabalho da Quarta Região, professora de Direito e Processo do Trabalho da UFRGS


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