Celso Amorim, excanciller de Lula, sobre Rusia: “Las sanciones matan, sobre todo a las poblaciones más pobres”

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Por Jorge Bittar e Carlos Henrique Árabe

O diplomata Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores nos governos Itamar Franco (1993-1994), nos governos Lula (2003-2010), ministro da Defesa do governo Dilma Rousseff (2011-2014), é o entrevistado desta edição de Teoria e Debate.

Atualmente o ex-ministro integra o Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo e tem acompanhado o ex-presidente Lula em suas viagens ao exterior e em eventos internacionais no país.

Nesta conversa, Celso Amorim tratou do tema mais candente do momento, a guerra da Ucrânia, além de falar sobre a fase progressista que embala a América Latina, as perspectivas de integração da região e o futuro das relações do continente com o mundo. Participaram da entrevista Jorge Bittar e Carlos Henrique Árabe, diretores da Fundação Perseu Abramo.

Jorge Bittar: Estamos diante de uma nova guerra no século 21. De um lado, há forte envolvimento das grandes potências ocidentais, seja por meio da grande mídia internacional, seja pelo fornecimento de armamento, seja pelas duras sanções econômicas, de outro, está a Rússia, condenando há bastante tempo a expansão da Otan, sobretudo, no período pós-guerra fria, para o Leste europeu, e fazendo uso da força militar para preservação de seus territórios. Como você vê esse quadro internacional delicado e complexo?

Celso Amorim: São muitos aspectos e muito complexos. Tenho de sempre prefaciar as minhas observações com o seguinte: A Rússia errou ao atacar a Ucrânia, não só do ponto de vista do direito internacional como também, creio, do ponto de vista político.

Eu estive diretamente ligado à criação do Brics, que tem a ver com a política externa do governo Lula, aproximação com os países emergentes… Para um país grande como o Brasil, o quinto em território, com muitos recursos naturais – não vou entrar na histeria militar –, cobiçados, é verdade, seja o petróleo do Pré-Sal, seja a biodiversidade amazônica, relativamente desarmado, que não tem arma nuclear, a preservação do direito internacional é fundamental.

A carta da ONU é muito importante para nós. Ela é construída em torno da renúncia ao uso da força militar. Os países entregam a capacidade de decidir sobre o uso da força às Nações Unidas, com uma única exceção, a legítima defesa. Esta não pode ser vista como medida preventiva, como usou os EUA em relação ao Iraque, sob a alegação de que o país tinha armas químicas. Ninguém pode agir por achar que vai ser atacado… Em função disso, a diplomacia brasileira tem de criticar a ação russa.

Outro aspecto no caso do Brasil, que também é importante para a China, se refere ao princípio da integridade territorial dos Estados. Um país com essas dimensões pode não ter nenhuma ameaça imediata, mas os princípios do direito internacional não são para dez, vinte anos, são para um ou dois séculos… A Rússia violou esses dois princípios. Fez o uso unilateral da força… Há quem diga, “os EUA fizeram isso tantas vezes”. Fizeram e estiveram errados tantas vezes, o que não justifica que aceitemos esse comportamento.

Temos de ter clareza sobre a preservação dos princípios do direito internacional, que são parte da Constituição brasileira, pois isso é fundamental em termos da nossa presença no mundo, a nossa presença na ONU.

A partir de uma análise mais profunda do que aconteceu, a expansão da Otan é evidentemente intolerável para a Rússia, um processo que começa contrariando as promessas feitas a Gorbatchev logo depois a unificação da Alemanha. A iniciativa da expansão começa em 1997, ainda no governo Clinton, primeiro com alguns países do Leste europeu, chamados “satélites” pelo Ocidente, e depois, já no início da década seguinte, incorporou países que eram parte da antiga União Soviética.

A Rússia foi aceitando isso sem grandes complicações porque queria se adaptar ao mundo novo do pós-guerra fria. Houve um momento até em que Putin queria entrar para a Otan, que era um símbolo dos grandes países ocidentais.

Em 2004, já não eram apenas países do Leste europeu, mas sim países da antiga União Soviética, três países bálticos, Letônia, Estônia e Lituânia. Não eram parte do “império soviético”, como se dizia eram parte do império do czar. A Rússia teve conflito com a Georgia, em 2008, com a ideia de que os americanos poderiam ter base militar no país. Com a Ucrânia o problema se agravou em 2014 com o golpe/revolução para depor o governo Yanukovitc, em que houve intromissão norte-americana. Anteriormente não havia grandes problemas, pelo menos ostensivamente. Por exemplo, quando eu era embaixador na ONU, no final dos anos 1990, houve um presidente da Assembleia Geral da ONU ucraniano, com apoio russo. Não havia essa tensão. A partir de 2014, a tensão se acentua com a “revolução colorida”. O ingresso da Ucrânia na Otan tornou-se um objetivo explícito, que passou a fazer parte da constituição ucraniana. E houve a questão da Criméia, território cuja maioria da população fala russo e que havia sido transferido para a Ucrânia por Nikita Krutchev, ao tempo em que esta era uma das repúblicas soviéticas.

Interessa agora ver como resolver a questão e para isso é preciso conhecer os problemas básicos. A ameaça de entrada na Otan é um elemento fundamental da crise, antecede a invasão da Ucrânia, que em russo quer dizer “fronteira”, terra da fronteira era vista como fazendo parte da Rússia. Gosto muito de literatura russa do século XIX, e um dos grandes escritores do período, conhecido por todos como um autor russo, Nikolai Gogol, é ucraniano.

Quando se fala da Guerra da Crimeia, ninguém pensa numa guerra entre a Ucrânia e o Império Otomano. Era uma guerra entre Rússia (o império czarista) e o Império Otomano. Não digo isso para justificar a ação de Putin, mas vejo nesses aspectos um lado emocional que vai além da preocupação com a Otan. Acho que essas duas coisas se mesclaram. Houve um plebiscito e a incorporação da Criméia pela Rússia. Seguiram-se os Acordos de Minsk para tratar da situação de outros territórios fronteiriços, cuja maioria da população era cultural e etnicamente russa. Os dois lados se acusam mutuamente de desrespeito dos acordos.

Nós estamos vivendo hoje uma situação de guerra no coração da Eurásia, em que os países ocidentais estão muito envolvidos com fornecimento de armas e com sanções econômicas jamais vistas. Há um artigo do Financial Times, que se refere a essas sanções como “shock and awe”, choque e horror – expressão usada, entre outras situações, para caracterizar o bombardeio do Iraque pelos EUA. Em termos econômicos há uma guerra total, que afeta o equilíbrio global. Estamos falando da Rússia, país que tem o maior território do mundo. A Rússia tem onze fusos horários, com certeza é um repositório de recursos naturais imenso, além dos já conhecidos, energia, gás e petróleo. E esse país, três ou quatro semanas antes do ataque, publicou uma declaração conjunta com a China – o país mais populoso do mundo, que vai ser a maior economia do mundo – na qual ambos declaram uma “aliança sem limites”.

A ideia que corre na imprensa ocidental, correspondente à expressão brasileira de “fazer sangrar”, de derrotar Putin aos poucos, é absurda. Primeiro porque o sangue que está correndo é dos ucranianos, principalmente, e segundo, não se sabe o que vem depois.

Eu resumiria o objetivo que deveria orientar a comunidade internacional com uma frase: “É urgente negociar”. E na minha opinião o único país que pode efetivamente liderar um esforço desses, não sozinho, mas com países europeus, é a China. E não estou vendo da parte dos países ocidentais esforço nesse sentido.

Inevitavelmente tudo isso tem repercussão no Brasil. Esse conflito que, do ponto de vista norte-americano, é uma luta das democracias contra as autocracias é uma nova guerra fria projetada na nossa região.

Jorge Bittar: Você poderia avaliar um pouco mais os efeitos da guerra econômica deflagrada com as sanções e as consequências para todo o planeta e, particularmente, para as populações mais pobres, uma vez que os preços dos combustíveis, do trigo, das commodities, estão aumentando de forma absurda?

Celso Amorim: Essas questões são muito complexas e muito amplas e na parte econômica não sou especialista, mas do que acompanho de críticos à esquerda até o Financial Times, passando pelo FMI, há uma ameaça muito grande à própria ordem financeira. O dólar, como moeda de aceitação universal, está ameaçado por uma fragmentação que já está ocorrendo. Isso não é dito por mim, mas pelo presidente do maior fundo de investimentos do mundo. “A globalização acabou”. Talvez não no sentido mais amplo, tecnológico, mas a globalização financeira está ameaçada.

A Arábia Saudita está vendendo petróleo para a China em yuans. São mudanças muito importantes na ordem econômica internacional. Para países como a Alemanha será terrível o choque de perder o abastecimento russo, caso isso ocorra. Quando o Putin pede que paguem em rublo é uma maneira de dizer indiretamente que ele pode fechar a torneira.

Tudo isso pode levar a uma recessão mundial. Mais imediatamente, como você mencionou, o aumento dos preços da energia, particularmente o gás, tem influência na questão da mudança climática. Por exemplo, na Europa e na Alemanha, especialmente, o plano de transição a uma economia verde está muito ligado ao gás, que toma o lugar do carvão e da energia nuclear. O outro problema, que vai além do aumento do preço das commodities, é que pode haver realmente uma crise alimentar, um desabastecimento, sobretudo por causa do trigo e outros cereais, produzidos pela Rússia e pela própria Ucrânia.

O europeu poderá pagar mais caro, e o alimento não faltará, mas para o africano ou o latino-americano pode ser uma questão de sobrevivência.

Existe a ideia de que as sanções econômicas seriam uma maneira mais suave, mais tolerável de responder a certas ameaças. Sanções matam! E matam sobretudo as populações pobres dos países atingidos. Não é o Putin que vai passar fome… é o povo.

Quando presidi algumas comissões da ONU sobre o Iraque, pude constatar com total clareza os efeitos das sanções: aumento enorme da mortalidade infantil, queda na expectativa de vida, surgimento de doenças antes inexistentes, entre outros. Pode haver problema de abastecimento de água limpa. Lembro que até a educação foi afetada. O Iraque não podia importar grafite, porque também é um elemento moderador na energia nuclear, e as crianças não tinham lápis.

Então, a situação econômica dependerá da urgência com que se tratar isso. Mas se a estratégia for deixar o Putin sangrar, ou alimentar uma guerra para durar cinco, seis meses, é muito grave.

Jorge Bittar: Vimos uma grande fragilização do papel da ONU, particularmente do seu Conselho de Segurança, parecem ser mais organismos espetaculosos do que eficazes e eficientes na busca dessa negociação a que se refere. Não está na hora de se reformar a ONU, o Conselho de Segurança e a própria ordem econômica e financeira mundial?

Celso Amorim: A reforma da ONU já era necessária há muito tempo. Não é possível viver numa situação, hoje em dia, com problemas como o clima, pandemias globais, em que o único órgão com poder real na ONU é o Conselho de Segurança. Talvez não devesse nem tratar desses temas, mas como o Conselho é o único órgão com poder real, há uma tendência de os países e das organizações e até das ONGs levarem tudo ao Conselho. Eu vi isso. Participei de um painel sobre Ebola. Falando de temas mais atuais, há uma pandemia e as medidas necessárias para combatê-la ou limitar seus efeitos estão sujeitas a veto por causa da rivalidade entre China e EUA. O que eu tenho a ver com isso? Eu quero vacina!

Tratei muito desse tema fundamental, como embaixador na ONU e como ministro do governo Lula. Uma americana, do governo Obama, que trabalhou com a Hillary Clinton, seu nome é Anne Marie Slaughter, dizia o seguinte: Imaginem o mundo do pós-guerra, 1945, 1950, sendo regido pelas regras de 75 anos atrás… É inadmissível. Daqui a 22 anos fará 100 anos que o acordo de Bretton Woods e Carta de São Francisco foram firmados e o mundo mudou de maneira estrondosa. A carta da ONU foi assinada por cinquenta países, hoje são mais de 190. A China entrou para o Conselho de Segurança como membro permanente por insistência dos EUA, que apostavam no seu aliado, Chiang Kai-shek. Veja como a história guarda ironias. Um país subdesenvolvido, subjugado, hoje, dependendo do critério que se use, é a maior potência do mundo. A África praticamente não existia, a Índia ainda estava lutando pela independência e os países da América Latina, o Brasil entre eles, não tinham expressão. Então, a reforma da ONU é urgente, uma nova governança global é urgente.

Carlos Henrique Árabe: A atuação dos EUA parece ter sido atualizada pela situação da guerra. Em que aspecto podemos ver uma atualização da política dos EUA para o mundo? Como está sendo atualizado o imperialismo a partir desse grande conflito e das iniciativas dos EUA?

Celso Amorim: Não que eu acredite que não exista o imperialismo, mas acho que um reducionismo conceitual à questão do imperialismo não nos ajuda a compreender o mundo de hoje. Há muitas influências, muito complexas em jogo. A Europa ensaiava uma certa autonomia, mas no frigir dos ovos teve de se alinhar. Seja pelas relações financeiras, seja pelas relações políticas, seja por relações militares, há uma limitação. Não é que a Europa tenha se subjugado aos interesses norte-americanos. Por isso que eu digo que o Putin errou, não só do ponto de vista jurídico, mas político. Havia uma tendência da Europa, sobretudo da Alemanha, de ter certa neutralidade em relação à crise entre a Rússia e a Ucrânia. Até certo ponto, também havia a mesma atitude por parte da França. Pouco antes da invasão, Olaf Scholz, primeiro-ministro alemão, esteve na Rússia. Ao regressar a Berlim, declarou que o ingresso da Ucrânia na Otan não estava na agenda. Talvez não solução fosse o ideal, do ponto de vista de Moscou, que queria algo mais formal, mais solene. Mas talvez fosse a solução temporária para a questão. O tempo é muito importante na política. Quando houve a aproximação entre os EUA e a China, alguém teria perguntado a Mao-Tsé-Tung: “E Taiwan?”. Ao que ele respondeu: “Taiwan é uma questão para se resolver em cem anos”.

O Trump foi um governo brutal. Independentemente de imperialismo ou não, eu torci pela vitória do Biden porque, sobretudo na nossa região, seria menos brutal. Não ficaria ameaçando a Venezuela com o uso da força ao qual quase arrastou o Brasil de Bolsonaro/Araujo. A ligação de Trump e Bolsonaro também incomodava bastante.

Quando eu ouvi o discurso do Biden ao Congresso americano, há um ano, com relação à política interna só podia aplaudir. Aliás, é até adequado para a política brasileira – claro que tudo tem de ser adaptado à nossa realidade –, falava em infraestrutura, melhor distribuição de renda (a pobreza caiu), inclusão digital, combate ao racismo, discriminações de gênero… estou de acordo com tudo isso. Quando ele começou a falar da política internacional, há dois aspectos distintos. Um foi o lado positivo de os EUA voltarem – em teoria ao menos – ao multilateralismo, o que se expressou sobretudo em relação ao clima e à OMS. Mas a visão democrata sobre o que é multilateralismo é muito diferente da nossa. Está muito ligada à ideia de que é uma missão norte-americana expandir a democracia (a visão deles de democracia). O mundo estará perfeito quando todos adotarem o american way of life, tanto no plano político como no plano econômico. Nesse ponto o discurso revelava uma preocupação com a hegemonia mundial dos EUA e a rivalidade com relação à China e à Rússia. Fiquei um pouco preocupado no que isso poderia resultar. Não imaginei o cenário atual, isso não estava em jogo. Era mais o conflito com a China. Os Estados Unidos estão sempre querendo fazer com que sua visão de mundo prevaleça e isso está acontecendo agora. E o pivô foi a Ucrânia.

A expansão da Otan é uma questão de segurança, mas é também um modo de encurralar os países considerados “autoritários”. Para começar, isso é uma tolice. Como encurralar o bloco formado por China e Rússia, o maior país em população e o maior país em território, sem falar na economia e nos arsenais militares? Nesse aspecto, a atual administração contraria inclusive os analistas e pensadores conservadores norte-americanos. George Kennan, criador da teoria da contenção na época da União Soviética, defendia a ideia de que era preciso contê-la e não a ameaçar. Quando em 1997 começou a expansão da Otan, no governo Clinton, Kennan, pouco antes de falecer, foi muito crítico. Henry Kissinger, unilateralista total, como vimos em nossa região com a derrubada de Allende, foi muito crítico em relação à expansão da Otan até a fronteira da Rússia, com a incorporação da Georgia e da Ucrânia. Escreveu um famoso artigo sobre o tema, em 2014.

Enfim, é muito difícil os EUA, que foram a maior economia do mundo durante muito tempo, a “única superpotência remanescente”, segundo Madeleine Albright, cujas ideias dominaram o mundo e chegaram a anunciar o fim da história (na expressão de Fukuyama), conviverem com a diferença e, sobretudo, com o fato de não serem mais hegemônicos. O único que tinha uma visão um pouco mais complexa a esse respeito e dentro de certas limitações foi o Obama, que chegou a falar em multipolaridade.

Na Europa a ação da Rússia foi vista como uma agressão contra um país europeu. Li um artigo francês recentemente que dizia que a Rússia era intrinsecamente expansionista. Pensei: não foi o Nicolau I que esteve em Paris, foi Napoleão que foi a Moscou. Veja o que é a ideologia.

Jorge Bittar: Passamos por um período de golpes e ações antidemocráticas na América Latina e mais recentemente temos assistido à retomada de situações mais progressivas e democráticas, como as eleições da Argentina, o caso da Bolívia, a experiência ainda complexa do Peu, a experiência do México, onde você esteve com o ex-presidente Lula em longa conversa com o presidente López Obrador. E há ainda avanço no Chile e boas perspectivas em eleições na Colômbia e no Brasil. Como você vê a possibilidade de reconstruirmos a integração latino-americana, incluindo esses países do outro lado da Cordilheira dos Andes, para uma atuação mundial mais multipolar? E mais: Fernando Haddad e Gabriel Galípolo em artigo sugerem a criação de uma moeda sul-americana (Criação de moeda sul-americana pode acelerar integração regional), que pareceu uma ideia muito interessante.

Celso Amorim: Elogiei muito esse artigo, até iniciei uma intervenção em um grupo de analistas/líderes latino-americanos falando sobre ele. É uma excelente ideia, mas não será simples. Aliás, quando ouvimos que a inflação acabaria no Brasil através da Unidade Real de Valor (URV) era muito difícil de admitir que isso ocorresse de fato. A minha geração tinha vivido não mais de um ou dois anos com a inflação de um dígito. Então, uma moeda sul-americana terá de passar por uma espécie URV, que será no espaço (na região) o que a nossa URV foi no tempo, que permita uma acomodação. É uma ideia muito positiva e muito oportuna pensar outras formas de transação, tendo em vista essa crise da globalização financeira. É uma proposta corajosa, proposta por um pré-candidato ao governo do estado mais rico do Brasil.

Devo dizer uma palavrinha sobre a dialética América do Sul/América Latina. Claro que temos de fazer tudo que for possível pela integração da América Latina e Caribe, até porque está na Constituição e porque é justa e necessária politica e culturalmente. O México nos entusiasma, tem Rua da Revolução, Praça do Patriotismo, no Brasil não tem nada disso. Perto de casa tem a Escola Pedro Álvares Cabral, um “herói nacional”, que veio conquistar o país. Mas sendo realista em termos geopolíticos e geoeconômicos, a América do Sul pode vir a formar uma unidade, como a Europa formou. No caso, a Inglaterra sempre foi um problema. Por exemplo, a moeda única, que seria o elemento fundamental para a integração, para toda a América Latina pareceria inviável, pois o México tem quase 90% do seu comércio com os EUA. No caso da América do Sul, a maioria dos países tem mais comércio com a China do que com os EUA. Há pelo menos 20 milhões de mexicanos nos EUA, o que é um grande problema. É muito complexo pensar em América Latina, em termos de integração econômica.

Se me perguntassem: Você sonha em ser Estados Unidos da América Latina? Não dá para sonhar. Agora, Estados Unidos da América do Sul dá para sonhar, daqui a uns 200 anos, quem sabe?

Por que, quando se formou a União Europeia, o Canadá embora tivesse muita coisa em comum, não foi chamado? Porque o Canadá está longe, enfim, tem outra realidade. A proximidade física é um fator fundamental na própria integração.

Por exemplo, com relação a questões como saúde, mudanças climáticas, temas globais tipo desarmamento, perfeito, podemos ter a América Latina e Caribe todos juntos. Mas se for pensar um acordo, por exemplo, com a China em conjunto, é possível pensar em Mercosul, até a América do Sul inteira, mas não a América Latina.

Sem dúvida, vivemos uma onda de libertação, de governos com justiça social, de fim do lawfare, que foi vencido pela democracia. Eu sou otimista, mas precisamos ter consciência do que vamos enfrentar. O que está acontecendo com a China, que era previsível antes, agora está dramatizado e a tendência dos EUA de pensar “quem não está comigo está contar mim” é muito grande. Então, nós vamos enfrentar um problema sério.

Participei de um seminário com Steven Levitsky, autor do livro Como as Democracias Morrem, que se demonstra simpático a nós e critica o Bolsonaro. Na ocasião, comentou que era muito otimista com a América Latina porque exceto Cuba, Nicarágua e Venezuela, não há quem defenda a Rússia e China. Então, não quero ser injusto e ele depois matizou, mas a primeira atitude seria que basta não defender Rússia e China para ser uma democracia. Não é bem assim.

Então, eu acho que temos um momento de grande complexidade, em que por um lado, em que a América do Sul e mesmo a América Latina com governos progressistas (aí o México joga um papel muito importante também, é preciso frisar, inclusive na defesa de Cuba), mas no jogo geopolítico mundial vai ser difícil e temos de estar preparados.

Já era difícil. Não acho que deveríamos ter feito diferente. Resolvemos manter o Pré-Sal e colocar a Petrobras para controlar o petróleo, fizemos uma integração com a América do Sul como nunca houve antes e, ao mesmo tempo, ajudamos ativamente a criar os Brics… Como diz meu amigo Samuel Pinheiro Guimarães, “você acha que aqueles caras da CIA, da NSA, do Pentágono, quando se reúnem é para jogar bridge?”

Jorge Bittar: Há um consenso de que as orientações históricas da política externa brasileira foram dramaticamente afetadas e o Brasil se apequenou no cenário internacional. Diante do fato de que temos a possibilidade de uma vitória progressista nas próximas eleições, quais seriam os princípios e diretrizes para a reconstrução de nossa política externa?

Celso Amorim: Não precisa mudar muito. Quando foi anunciado meu nome a ministro das Relações Exteriores pelo presidente Lula, eu disse que a política deveria ser ativa e altiva. Os princípios estão na Constituição: autodeterminação dos povos, não intervenção, solução pacífica de controvérsias, independência nacional, direitos humanos… A questão era fazer tudo isso com maior protagonismo, com mais desassombro. Isso foi o que fizemos e acho que voltaríamos a fazer.

O Itamaraty tem tomado uma posição razoável nesse conflito. Por exemplo, na OIT em uma resolução proposta para suspender a Rússia, os países desenvolvidos votaram a favor, oito países se abstiveram, entre eles o Brasil. Infelizmente todos os empresários e trabalhadores votaram a favor. Será que uma central mundial de trabalhadores é manipulada pelo imperialismo? Não sei.

Mas a grande diferença é que se fosse Lula o presidente, ele estaria telefonando para o Scholz, para o Macron, para o Xi Jinping, para o Biden… Não digo que resolveria o problema, mas o Brasil seria um ator importante nesse contexto. Quando digo que a China tem um papel importante, reconheço também que ela não pode desempenhar esse papel sozinha, até porque é vista como pró-Rússia. Ela precisa dos europeus, de outros países em desenvolvimento, tem de ter diálogo.

Fizemos o grupo de amigos da Venezuela porque o Lula era o único capaz de conversar com o Chaves e com o Bush. O Brasil assumiu sua grandeza e com uma pessoa extraordinária que é o presidente Lula.

Não conheço outro caso de acolhida de um ex-chefe de Estado como a recepção que Lula teve recentemente pelo Macron. Esteve no Parlamento Europeu, na Alemanha, na Espanha etc. mas uma pessoa que não está no poder ser recebido como chefe de Estado, pode ser que tenha ocorrido, eu nunca vi. O encontro já era algo notável, Macron é um chefe de Estado no poder, não é um socialista, não tem laços históricos com Lula. Mas Lula foi recebido com honras de chefe de Estado, com a guarda presencial perfilada.

Fernando Henrique era respeitado intelectualmente, mas não era visto com essa liderança que o Lula tem no mundo, amado e cultuado na África, respeitado e cultivado pelos europeus.

Então, temos uma série de governos progressistas, cuja tendência internacional deve ser a de procurar maior equilíbrio, o que o ex-senador chileno, Carlos Ominami, chama de não alinhamento ativo, que seria a nossa posição, e de outro lado uma imensa pressão norte-americana para colocar todos em fila contra a Rússia e China.

Jorge Bittar é diretor da Fundação Perseu Abramo

Carlos Henrique Árabe é diretor da Fundação Perseu Abramo

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