Corrupção e pacificação em xeque nas eleições de 2018

Corrupção e pacificação em xeque nas eleições de 2018

Por Camilo Rengifo Marín  
Em meio de uma grande incerteza política e do alto desprestígio e falta de credibilidade do governo de Juan Manuel Santos, começou a campanha presidencial na Colômbia, com a extrema direita definindo Iván Duque como seu candidato e a centro-esquerda tentando clarificar sua estratégia para formar uma aliança. O primeiro turno das eleições está marcado para o dia 27 de maio e contará pela primeira vez com a presença do partido criado pelas FARC – outrora Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, agora chamado Força Alternativa Revolucionária do Comum.
Dois meses antes, no dia 11 de março, acontecerá o pleito para os cargos legislativos, que elegerá os membros de ambas as casas do Congresso: estarão em disputa 102 vagas para o Senado e 166 para a Câmara.
Os aspirantes presidenciais são de espectro político, o que desperta certos temores nos centros financeiros internacionais, e pressões para que os mesmos se comprometam em realizar “as reformas restantes que o país tem que fazer” – segundo comunicado publicado pelo banco de investimentos Morgan Stanley – considerando que o país possui o maior déficit em conta corrente de toda a região.
Hoje, o desastre produzido pelas medidas de choque implementadas pelo ministério da Fazenda deixou suas profundas marcas: a cifra de desemprego é preocupante (8,4%), o que supõe 226 mil desocupados a mais que em 2016, chegando a um total de 2,09 milhões de trabalhadores sem emprego em todo o país. Além disso, o consumo também foi bastante afetado pelo aumento do imposto sobre mercadorias e serviços.
Santos deveria temer os conselhos de seus assessores – nacionais e estrangeiros – mas parece não ter aprendido a lição. Eles são os que sugeriram o plebiscito para consultar sobre o Acordo de Paz com as FARC, que não só terminou em derrota como ressuscitou o cadáver político de Álvaro Uribe.
Agora, esses especialistas insistem em que Santos deve reduzir os gastos que em favor da população mais vulnerável. O governo pretende que aumentar a idade de aposentadoria e o valor da contribuição previdenciária – que se elevaria a 18%, seguindo as recomendações do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, entidades que defendem como única forma de redução do gasto público a que afeta as classes trabalhadoras, as que jamais são ouvidas, tampouco consultadas.
Alguns analistas propõem um cenário onde os trabalhadores e camponeses colombianos, em pleno ano eleitoral, se mobilizem e exijam uma remodelação profunda na política nacional.
A realidade é que o país registra 80 bilhões de dólares anuais de evasão de impostos (9% do PIB) e o governo não faz nada para recuperar as contribuições dos setores que sempre estiveram à margem da tributação. As pensões custam 40 bilhões anuais, ou seja, com a metade do que se sonega seria possível cobrir as mesmas sem necessidade de alterar o regime atual.
Houve quem sugerisse reduzir os imensos gastos de publicidade do Estado, ideia que não foi bem recebida pelos meios de comunicação hegemônicos, que vivem da verba de conseguida com esses anúncios.
Além da queda na credibilidade do presidente Santos, a revelação de numerosos casos de corrupção que atingem a poderosos juízes, promotores e políticos, e as campanhas de terror midiático, como a lançada pelo ex-presidente Uribe – acusado de genocídio e de vínculos com o narcotráfico em alguns processos – afirmando que seu partido é a única alternativa contra o “castro-chavismo radical” e o “castro-chavismo moderado”.
Mas enquanto a imprensa segue a pauta ditada por Uribe, o centro-esquerdista Gustavo Petro continua liderando as pesquisas com 17% de aprovação, seguido por social-liberal Sergio Fajardo com 15%, três pontos a mais que o governista Germán Vargas Lleras, ex-vice-presidente de Santos.
Nada mudou nas últimas semanas de dezembro. Durante o último fim de semana do ano, uma granada lançada na discoteca Bora Bora, na cidade de Caucasia (Departamento de Antioquia), feriu ao menos 31 pessoas. Os autores? Membros do clã do Golfo, em vingança pela extorsão que o dono do lugar não pagou. A realidade é que a criminalidade produzida pelos grupos paramilitares e pelos cartéis do narcotráfico continuam atuando fortemente na Colômbia, um país ainda cheio de incentivos para a criminalidade, a começar pelo melhor de todos: a impunidade.

Apesar de todos os obstáculos enfrentados pelo Acordo de Havana no Congresso, a aposta pelo diálogo e pelo desarmamento continua dando seus frutos, e por isso deve-se ressaltar que a disposição do Exército de Liberação Nacional (ELN) a não renunciar à paz e não abandonar a mesa de diálogo, apesar das incongruências do governo e das pressões da ultradireita.

A segurança, a saúde, o desemprego e a corrupção são as principais preocupações dos colombianos. A narrativa hegemônica aponta a guerrilha e os acordos de paz como causadores desses problemas, no entanto quem lidera as pesquisas hoje é o ex-guerrilheiro do Movimento 19 de Abril, ex-senador e ex-prefeito de Bogotá Gustavo Petro, ainda que os “especialistas” não acreditem que ele possa se impor às forças do poder fático e apostam numa perda de fôlego do candidato progressista.
Aquelas forças ultradireitistas que lideraram o voto pelo “não” aos Acordos de Paz no plebiscito de 2016, com o apoio das Igrejas Evangélicas e dos ex-presidentes Andrés Pastrana e Álvaro Uribe, pretendem chegar com um candidato único em maio, para garantir a continuidade do poder fático no poder, enquanto há um movimento que vem de baixo e agita toda a Colômbia, a urbana e a profunda, e que está pedindo paz, mas também justiça e inclusão social.
Camilo Rengifo Marín é um economista e acadêmico colombiano, e analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégico (CLAE)

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