O retorno da doutrina de segurança nacional… e dos massacres – Por Camilo Rengifo Marín

Por Camilo Rengifo Marín*

As declarações de Guillermo Botero, atual ministro colombiano de Defesa, contra os protestos sociais no país não são surpresa alguma, nem um lapso verborrágico do empresário. Fazem parte de uma bem desenhada estratégia, no marco da política de segurança nacional baseada na estigmatização, satanização e perseguição dos movimentos sociais e da expressão da cidadania.

Durante o Congresso da central empresarial Confecámaras, em Cartagena, Botero se descontrolou devido a uma manifestação social, e disse que “os grupos armados organizados (dissidências das guerrilhas FARC, ELN, Clã do Golfo, Pelusos e Puntilleros) são responsáveis por financiar os protestos sociais (…) com dinheiro ilícito”. Depois, afirmou sem nenhuma vergonha que “as máfias foram as que criaram a má fama do glifosato”.

São meras pataquadas ou ordens de ataque? É a pergunta que se fazem os analistas. Ao acusar os manifestantes de serem financiados por grupos ilegais, máfias organizadas, colocando no mesmo balaio narcotraficantes, paramilitares, quadrilhas de delinquentes e outras organizações, o objetivo evidente é o de agudizar a criminalização da expressão popular e do direito a protestar. A verdade é que este governo não considera o direito à oposição como algo legítimo, e sim uma atividade de carácter delinquencial, ilegal, e portanto punível.

A paz dos sepulcros

Os colombianos nascidos nos últimos 60 anos só conhecem um país em guerra. São poucos os que podem afirmar que se lembram de uma Colômbia sem violência. A guerra já deixou mais de 260 mil mortos, dos quais 215 mil civis e 46 mil combatentes. Cerca de 95 mil mortes são atribuídas aos paramilitares e quase 10 mil aos agentes de segurança do Estado.

Também deixou 80 mil desaparecidos (dos quais 70 mil ainda não tiveram seus corpos encontrados), 37 mil vítimas de sequestro, 15 mil de violência sexual e 17 mil menores de 18 anos recrutados. Nos primeiros seis meses do ano, 25 mil pessoas foram expulsas a força de suas terras de origem, o que dá um total de seis milhões de pessoas obrigadas a migrar nos últimos anos.

A “paz” avança a base de pistolas na Colômbia. Cerca de 500 líderes sociais já foram assassinados desde que o ex-presidente, Juan Manuel Santos alcançou o Acordo de Paz com as FARC (guerrilha transformada, graças ao acordo, no partido político legal Força Alternativa Revolucionária do Comum, mantendo a sigla original), em novembro de 2016, cuja implementação tem sido permanentemente sabotada.

Os massacres de paramilitares e narcotraficantes voltam a ser rotina no interior do país. O deslocamento de pessoas em função deles significa o despojo de oito milhões de hectares de pequenos e médios produtores agrários. Os paramilitares, grupos armados ilegais que mais causaram mortes e espoliação no país, em vez de serem desmantelados pelo Estado, ressurgem com trágicas e repetidas consequências.

O mandatário anterior, Juan Manuel Santos, “vendia um conceito de paz centrado nos benefícios que isso traria ao investimento estrangeiro e ao grande empresariado multinacional, o que serviria para avançar na exploração dos recursos naturais, principalmente os mineiros e energéticos, sem o temor de ataques ou extorsões de grupos insurgentes”, relatou o sacerdote jesuíta Javier Giraldo.

Hoje, sem o obstáculo das FARC, a presença das multinacionais e do cultivo de folha de coca – para a produção de cocaína – aumentou bastante.

Não se trata de um pensamento somente de Álvaro Uribe, Santos ou do novo presidente Iván Duque. É o pensamento da ultradireita que hoje está no poder, colocado em prática durante os dois mandatos de Uribe, e logo usado para liderar a oposição aos processos de paz com as FARC e qualquer outra opção que leve a avanços em termos democráticos e de participação real da sociedade.

Agora, com Duque, se reafirma a prática histórica da utilização da violência, com a que a elite colombiana lucrou durante seis décadas, e que se materializa nos massacres recentes contra líderes sociais. Para o establishment, a paz não é um bom negócio.

Se o propósito de um acordo de paz é tirar a violência da política, isso deveria servir para as duas partes: o regime e os de baixo – e não só para alguns, como parece que foi o caso. Ou então, avançaremos, não no caminho da paz, e sim no da enganação, rumo a novas frustrações e novas guerras.

Recentemente, o governo de Duque oficializou sua negativa em nomear a equipe negociadora da paz que o representará na mesa de conversas com a guerrilha ELN (Exército de Liberação Nacional), o que é somente mais um caso, junto com as múltiplas declarações por parte do uribismo contra os processos de paz em curso na Colômbia, nestes últimos seis anos.

Cocaína e… Venezuela

Ralph Emanuel, ex-chefe de gabinete de Barack Obama e atual prefeito de Chicago, alertou em entrevista com a emissora CNBC que o presidente Donald Trump poderia intervir na Venezuela durante o mês de outubro, para desviar a atenção de importantes problemas de sua administração, e obter benefícios políticos que garantam a sua vitória nas eleições legislativas, que acontecerão no dia 6 de novembro.

“Por aqui, nós usamos o termo `a surpresa de outubro´. Creio que, nestes momentos, ele (Trump) está buscando fazer qualquer coisa, e fará qualquer coisa”, foi uma das frases pronunciadas por Emanuel, para denunciar a iminência de uma intervenção imperial na Venezuela.

A Colômbia sempre teve a ambição de uma saída ao Mar do Caribe através do Lago de Maracaibo, que desse ao país um acesso mais competitivo aos mercados da Europa e da América do Norte aos seus produtos – tanto os legais quanto os ilegais. Transformado no maior produtor de coca do mundo, a Colômbia precisa do corredor venezuelano para que a droga possa ser levara ao principal mercado: o estadunidense.

Além disso, a Colômbia deve enfrentar, daqui até 2021, um esgotamento total de suas reservas petroleiras, o que impactará negativamente a elaboração da cocaína, e por isso necessita controlar as reservas de hidrocarbonetos do ocidente venezuelano – para deixá-las nas mãos das empresas multinacionais, o que requer uma ação para destruir o Estado-nação vizinho.

A dúvida dos analistas é se Duque está em condições de manter dois conflitos ao mesmo tempo: o interno e o externo. As ameaças permanentes de intervenção na Venezuela, tentando insuflar um nacionalismo xenófobo, servem como mão de obra para os interesses dos Estados Unidos e das multinacionais – especialmente as petroleiras e o narcotráfico.

(*) Camilo Rengifo Marín é economista e acadêmico colombiano, investigador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

Publicado em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli