A rede colombiana de espionagem ilegal: quem os protege? – Por Camilo Rengifo Marín

Por Camilo Rengifo Marín*

Há várias décadas, a cada certo tempo, surge na Colômbia um escândalo sobre interceptações e espionagem, conhecidas popularmente no país como chuzadas. O último foi revelado no dia 4 de agosto, quando a Promotoria anunciou o desmantelamento de uma organização de espionagem ilegal conformada por uma hacker, militares e policiais aposentados que, pela quantidade de vítimas (ao menos mil pessoas), possivelmente se trata da maior rede já descoberta na história do país.

A revista Semana mostra que a lista de empresas e pessoas particulares que contrataram esses serviços ilegais é grande: desde industriais que queriam conhecer os movimentos dos seus rivais, passando por empresários que ordenaram o seguimento de alguns empregados para saber o que faziam e com quem falavam. Ainda mais grave é o caso dos políticos locais, que necessitavam chuzar os promotores que os investigavam, ou os criminosos que queriam saber a localização e os planos das forças de segurança. Essas são algumas das ofertas do serviço disponibilizado pela rede.

Tal investigação foi desvendada, em parte, graças a uma tragédia: a morte da equipe de jornalismo do diário El Comercio, ordenada por um sujeito de codinome El Guacho, que atua na fronteira com o Equador. Ele os sequestrou no dia 26 de março, e somente em 13 de abril apareceram provas do assassinato – embora os corpos só apareceriam em 22 de junho. Para as autoridades equatorianas, o caso se tornou uma prioridade.

Enquanto isso, a macabra história protagonizada por um grupo de policiais ativos e aposentados, autodenominados Los Magníficos, dedicados a cometer sequestros no departamento de Antióquia (zona de influência do ex-presidente Álvaro Uribe), colocou em xeque uma cidadania que não tem confiança nas forças de segurança. O caso ainda deixa muitas dúvidas, sobretudo no aspecto de quem são os chefes.

O sistema Esperanza, Uribe e a CIA

Há mais de 20 anos, o sistema Esperanza foi protagonista tanto de grandes operativos contra o crime quanto de escândalos judiciais e políticos, como as operações contra o secretariado das FARC (outrora Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, hoje partido político legal) Raúl Reyes, a interceptação de comunicações, muitas das investigações e complôs que marcaram a história recente do país, e que desfilaram pelas salas que compõem essa rede de inteligência operada pela Procuradoria.

O Esperanza saiu do anonimato ultimamente devido às interceptações do líder paramilitar de direita Juan Monsalve, em meio de uma investigação que envolve o ex-presidente Álvaro Uribe, pela fabricação de testemunhas falsas, em um caso que relaciona o ex-mandatário com a suposta conformação de grupos paramilitares em Antióquia. Estranhamente, o conteúdo de ao menos dez ligações importantes para o processo não ficou registrado, por supostas falhas no sistema. Por pedido da Corte Suprema de Justiça, há duas semanas, a Procuradoria investigará se alguém manipulou essa informação.

O histórico do sistema de interceptações da Procuradoria nos leva aos Anos 90, quando ele começou a funcionar, patrocinado pelos governos dos Estados Unidos e do Reino Unidos. Mas sua atual estrutura foi implantada em 2005. Segundo o informe “Um Estado na sombra”, da entidade Privacy International (PI), uma organização britânica dedicada a “vigiar as invasões à privacidade por parte de governos e corporações”, naquele então se estruturou um convênio inter administrativo para que a Procuradoria, a polícia e a já desaparecida Direção Administrativa de Segurança (DAS) operassem o sistema.

“O Esperanza permite à Procuradoria se conectar com os servidores dos provedores para receber e decompor a informação em pacotes de chamadas em tempo real, a fim de transmiti-la a uma sala central de monitoramento”, explica um comunicado da PI. Esse sinal chega às salas de monitoramento, onde os investigadores a processam e analisam. Entretanto, esses grampos só deveriam ser possíveis sob o controle da Procuradoria, ainda quando esta conta com 30 salas, desde as quais se opera o sistema – cinco delas “especiais”, para “missões mais complexas”.

Durante anos, o Esperanza passou desapercebido, mas agora, devido ao caso do ex-presidente Uribe e a recente rede de espionagem descoberta, volta a ser notícia no país. Cada uma das salas tem um coordenador, um objetivo especial, casos específicos a investigar e certas metas de interceptação, com determinados investigadores encarregados de operá-los. Por exemplo, a Sala Cinza, uma das salas especiais, dispunha de 440 entradas para interceptações, para apoiar a Central de Inteligência e Contra Inteligência Militar (CIME, por sua sigla em espanhol) do Exército. Tudo isso com o patrocínio da Agência Central de Inteligência (CIA, por sua sigla em inglês) dos Estados Unidos.

Foi a partir do trabalho dessa sala que se difundiu um dos maiores escândalos do país nesse âmbito, em 2014: graças pelo menos 100 escutas que os militares – e não os agentes de inteligência, como manda a norma – realizaram irregularmente contra dirigentes políticos e inclusive contra altos membros das forças policiais. As revelações levaram ao fechamento da Sala Cinza. Em 2009, e mesma já havia estado no olho do furacão, pelo caso de espionagem ilegal de desaparecido da DAS, interceptando ilegalmente juízes, jornalistas e políticos da oposição. O escândalo ficou conhecido popularmente como as chuzadas do DAS, e foi concluído a partir do fechamento dessa agência de inteligência, em novembro de 2011, após uma investigação de mais de dois anos.

Equatorianos sequestrados

Em 4 de maio, os chefes da Secretaria de Inteligência do Equador receberam uma particular oferta. Um tenente-coronel da reserva do Exército colombiano, Jorge Humberto Salinas (com 26 anos de serviços nos organismos de inteligência), os contatou e ofereceu os serviços de sua empresa, a JHS, comandada pelo major-general da polícia, Humberto Guatibonza,

A Procuradoria citou Guatibonza, para que explicasse sua relação com a rede de interceptações ilegais. O promotor do caso afirmou que tem em seu poder várias conversas entre o oficial e os detidos. Salinas entregou aos equatorianos alguns informes que detalhavam os avances e os pormenores das ações que a Procuradoria, o Exército e a Polícia da Colômbia adiantavam contra El Guacho e seus homens, dados confidenciais bastante relevantes.

As autoridades equatorianas optaram por contar à Procuradoria colombiana o que havia ocorrido, e esses, após analisar os dados, descobriram que o nome e a empresa do coronel Salinas estavam relacionados em outra investigação por um tema de contrabando na fronteira. Quando uniram as duas investigações, surgiu um dos pontos de partida do escândalo, e um juiz permitiu o grampo das linhas celulares de Salinas.

O ex-tenente Salinas levou dois companheiros também da reserva para trabalhar na JHS: o coronel Carlos Pérez e o major Luis Quiroga, hoje capturados pela Procuradoria, junto com María Alicia Pinzón – que também teria prestado seus serviços a uma rede de inteligência do Comando Geral das Forças Militares –, a “hacker” da rede, todos acusados de utilização ilícita de redes de comunicação, acesso abusivo a um sistema informático agravado e violação de dados pessoais agravados, já que se dedicaram a “obter ilegalmente informação reservada de políticos, empresas, integrantes da força pública, casais, funcionários judiciais e da procuradoria, para vender a terceiros interessados”.

A página web da empresa vendia o serviço de “assessoria em segurança física e eletrônica”, e se especializavam em investigações no campo da inteligência empresarial, vazamento de informação, furto, extorsão, sequestro, delitos informáticos, ataques cibernéticos e pirataria terrestre, junto à sua aliada estratégica, a firma Humberto Guatibonza Consultoría (HGC), de propriedade do general policial aposentado.

Mas o porta-fólio de serviço incluía dados de processos judiciais, contramedidas empresariais (grampos às comunicações dos empregados, a fim de descobrir condutas dos mesmos, que incluíam mensagens eletrônicas, celulares e whatsapp), localizações (vendiam a localização em tempo real de suas vítimas, localizando os IP´s dos celulares) e contatos (relação das chamadas que entram e saem, com os respectivos números), e a análise para determinar relações baseadas no cruzamento dos números telefônicos), além dos seguimentos e invasão dos e-mails e telefones celulares para descobrir problemas de infidelidade entre casais.

Durante meses, segundo o que relata o informe, a Procuradoria escutou as conversas de Salinas, o que permitiu aos investigadores recompilar centenas de horas de comprometedoras evidências sobre o modus operandi da rede, seus sócios e seus clientes. Nas redes sociais, e alguns meios de comunicação, vários dos capturados e envolvidos no caso disseram que se trata de uma montagem, e que a Procuradoria os persegue, apesar o arsenal de evidências ampla e contundente.

Nos operativos nos quais se vasculharam as sedes das empresas e nas casas dos envolvidos, em Bogotá, Cali e Ipiales, os agentes de inteligência só encontraram grande quantidade de computadores e dispositivos eletrônicos, e também cadernos e livretas nos quais se consignavam as “missões”, assim como os nomes daqueles que os contrataram e as vítimas. Arquivos com nomes como Granga, Carreño, Cafeteritos, Acacías e Guatibonza fazem parte desse material analisado pela Procuradoria.

Diante do juiz, a Procuradoria revelou uma lista de clientes da ampla rede, que inclui servidores públicos e políticos que os buscavam se utilizar dessas atividades não santas. Também mostrou que essas interceptações ilegais afetaram integrantes da força pública e promotores.

Durante a audiência, o procurador revelou várias conversas, para mostras a forma na que os integrantes da quadrilha se comunicavam com seus contatos no Exército e na própria Procuradoria. Após as capturas de Salinas e seus sócios, Guatibonza anunciou que se apresentaria à Justiça, mas não o fez. Seu nome apareceu na investigação de uma quadrilha de policiais ativos e aposentados, conhecidos como Los Magníficos, capturados recentemente e acusados de realizar milionários sequestros em Antióquia

A “hacker” Mary e seus dois patrões

A Procuradoria descobriu em suas pesquisas vários fatos graves e inquietantes sobre a forma como a rede de interceptações operava e conseguia a informação. Está documentado o fato de que a quadrilha pagava integrantes do Gaula (a Direção anti sequestro e anti extorsão da Polícia Nacional) e outras unidades policiais para que incluíssem linhas de celulares para intercepta-las através de diferentes salas do chamado sistema Esperanza, a plataforma base para as interceptações e a luta contra as organizações criminosas no país.

Uma das colunas vertebrais da rede era María Alicia Pinzón, codinome Mary, que trabalhou no Ministério de Tecnologias da Informação e das Comunicações, como engenheira. Os investigadores a descrevem como uma “gênia, uma mente brilhante em temas tecnológicos”. Tinha a habilidade de subtrair informação de contas, e hackear no tempo real as conversas de aplicações como whatsapp e telegram, e conseguir a localização exata do portador de um celular, e recuperar o conteúdo de conversas.

Pinzón não só será a chave para estabelecer as responsabilidades neste caso. Segundo a revista Semana, Mary realizou, nesse mesmo período, o mesmo tipo de trabalho de interceptação ilegal para a Regional de Inteligência Militar Estratégica Conjunta (RIMEC), ligada ao Comando Geral das Forças Militares. A publicação também revelou em abril como vários milhões de pesos de gastos reservados nessa e outras unidades terminaram desviados para operações pouco claras.

Os peritos informáticos colombianos trabalham na desencriptação dos elementos apreendidos e estabelecer com certeza os números e identidades das vítimas desta rede. O procurador-geral, Néstor Humberto Martínez, anunciou que as pesquisas se estenderão não só contra quem oferecia os serviços ilegais, como também contra as pessoas e empresas que os contrataram. Ainda falta descobrir muitos segredos desta rede de espionagem ilegal.

Segundo a Procuradoria, essas são algumas das ações ilegais que a quadrilha oferecia. Os preços por essas atividades iam de 700 mil até 6 milhões de pesos (2 mil dólares) mensais segundo o tipo de serviço. Entre esses serviços, se destaca a espionagem industrial e as informações classificadas e confidenciais da força policial e das agências de inteligência, cedidas ou hackeadas, para serem vendidas como informes próprios.

(*) Camilo Rengifo Marín é economista e acadêmico colombiano, investigador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)