Eleições que importam a Brasil e Argentina – Por Celso Guanipa Castro

Por Celso Guanipa Castro*

No dia 22 de abril, os paraguaios irão às urnas por sétima vez desde a queda da ditadura de 45 anos de Alfredo Stroessner, para eleger um presidente, um vice-presidente, parlamentares, governadores e conselheiros departamentais – o que seriam os estaduais no Brasil. Os principais candidatos estão representados pelos tradicionais partidos: o Colorado e o Liberal.

Brasil e Argentina devem observar com muita atenção este processo, pois a profundidade da regeneração dos tratados das hidroelétricas de Itaipu (com o Brasil) e Yacyretá (com a Argentina) dependerá de quem ganhe as eleições, seja o colorado Mario Abdo Benítez ou o liberal Efraín Alegre.

Nesta eleição, os liberais se aliaram novamente com a centro-esquerda, como aconteceu há 10 anos atrás. Naquela primeira versão da coalizão, eles conseguiram vencer as presidenciais e eleger Fernando Lugo, que depois seria derrubado pelo golpe parlamentar, que contou, paradoxalmente, com os votos dos liberais – e que levou o liberal Federico Franco, então vice-presidente, a encabeçar o resto do mandato, numa traição semelhante à de Michel Temer contra Dilma, no Brasil.

Como era previsível, as pesquisas propiciadas pelos meios hegemônicos de comunicação mostram um favoritismo do candidato colorado, Mario Abdo Benítez, que garantiria a continuidade do governo conservador-neoliberal de Horacio Cartes, com baixos impostos para os agroexportadores e maior endividamento externo para financiamento da infraestrutura.

As mesmas pesquisas mostram que o Efraín Alegre, o candidato liberal, está em segundo lugar, com sua promessa de mudanças na política energética e em matéria tributária.

O ex-sacerdote católico Fernando Lugo, que liderou uma aliança opositora com os liberais, derrotando o coloradismo após quase 60 anos de poder sem interrupções, agora tenta uma vaga no Senado. Após aquela “primavera democrática”, que durou somente até a sua destituição em 2012, Lugo sofreu com um golpe à sua imagem, que o impossibilitam como candidato presidencial, embora também haja impedimentos legais para isso.

A fratura daquela bem-sucedida aliança entre a centro-esquerda e o Partido Liberal já havia sido uma das razões da vitória de Horacio Cartes e do retorno do coloradismo ao poder em 2013. Cartes é empresário multimilionário, e naquele então venceu o mesmo Efraín Alegre com uma diferença de pouco mais de 8% dos votos. Mas esse retorno dos colorados ao poder também considerou as 19 vagas das 45 existentes no Senado, e 44 das 80 da Câmara dos Deputados, além 13 dos 17 governadores do país.

Cartes não desperdiçou essa enorme hegemonia, aprovando leis de duvidosa legalidade constitucional – como a Lei de alianças público-privadas, e a que autoriza as Forças Armadas a intervirem em questões de segurança interna.

Apesar da cômoda maioria no Senado, um grupo de colorados formaram um bloco, em meados deste atual mandato, que começou a confrontar abertamente a Cartes. Esse grupo era liderados, curiosamente, pelo atual candidato colorado à sucessão, Abdo Benítez, filho do secretário de Stroessner durante a ditadura.

Pelo lado da oposição, os liberais e a centro-esquerda concordaram em reviver a aliança que deu certo há 10 anos, mas agora numa candidatura liderada pelo Partido Liberal, e com um vice-presidente de centro-esquerda: o jornalista Leo Rubín, sem trajetória política, e conhecido por defender os direitos indígenas, o meio ambiente e os camponeses.

Três temas fundamentais estarão na agenda política nos próximos cinco anos: a reforma constitucional, a renegociação dos tratados das hidroelétricas de Itaipu (com o Brasil) e Yacyretá (com a Argentina), e o enorme crescimento (de 109%) da dívida externa durante a gestão de Cartes.

Abdo Benítez, o novo candidato colorado propõe o serviço militar obrigatório para todos os jovens, especialmente aqueles filhos de mães solteiras, com o objetivo de que aprendam disciplina e patriotismo, e defende a necessidade de limpar as dívidas dos empresários que tenham contas pendentes com o Estado.

A principal proposta da aliança opositora é a da recuperação da soberania energética. Alegre propõe transformar o excedente de energia que o Paraguai possui com as hidroelétricas de Itaipu e Yacyretá em fontes geradoras de trabalho, além de reduzir drasticamente o custo do serviço de luz aos usuários.

Efraín Alegre assinou em cartório um compromisso público sobre os cinco primeiros decretos que impulsará caso seja eleito: redução drástica do custo da luz, renegociar o tratado de Itaipu e deixar sem efeito o acordo entre Horacio Cartes e Mauricio Macri sobre a dívida de Yacyretá, investir num sistema de saúde pública gratuita, promover a qualidade na educação e a participação dos pais nos investimentos de infraestrutura para as escolas, e, finalmente, combater o crime organizado.

(*) Celso Guanipa Castro é jornalista e cientista político paraguaio, do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)