Paraguai muda de presidente – muda algo? – Por Celso Guanipa Castro

Por Celso Guanipa Castro*

Mario Abdo Benítez, de 46 anos, líder do Partido Colorado, assumiu o poder e será o presidente do Paraguai durante os próximos cinco anos. Tomou posse do cargo prometendo devolver o país à normalidade institucional, eliminar a corrupção – que ele qualificou como “o maior câncer que aflige a nação” – e a impunidade, afirmando que são essas as causas do atraso do país.

Abdo Benítez fez o seu juramento diante do presidente do Congresso, Silvio Ovelar, junto com o novo vice-presidente, Hugo Velázquez. Entre os mandatários que assistiram à cerimônia estavam o presidente boliviano, Evo Morales, a mandatária de Taiwán, Tsai Ing-wen, e também os chefes de Estado da Argentina, Mauricio Macri; Uruguay, Tabaré Vázquez, da Colômbia, Iván Duque, da Guatemala, Jimmy Morales, e o presidente golpista do Brasil, Michel Temer.

“A paciência dos paraguaios com os corruptos chegou ao limite”, diz o diário conservador ABC Color em seu editorial: “o presidente, em síntese, deve enfrentar decididamente a corrupção e os corruptos, e especialmente a impunidade que os protege. Se espera que ele entenda que a paciência dos paraguaios com os que acumulam riquezas de forma ilícita chegou a um limite e que, portanto, não há espaço para novos enganos e novas decepções”.

Sem contar com tanta força interna, Abdo se encarrega de apontar à rede internacional que espera que lhe garanta a estabilidade política, em um cenário de governo debilitado inclusive antes de assumir. Esteve em Washington, há poucos dias, onde se reuniu com o secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, com o secretário de Comercio, Wilbur Ross, com a diretora-executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, e com o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luis Alberto Moreno. Também conseguiu programar um encontro com o senador republicano de ultradireita Marco Rubio, conhecido financiador da oposição radical venezuelana.

Depois, em Nova York, se reuniu com representantes das agências de qualificação Moody’s e Fitch, e com bancos e fundos de investimentos, em busca de recursos e investimentos estrangeiros. Avançou na cessão da soberania energética a favor da Argentina na represa de Yacyretá, por mais 40 anos, depois da aprovação das notas reversadas do acordo Cartes-Macri, que contou com a anuência da maioria dos legisladores do país. Abdo tenta, dessa forma, consolidar a aliança com os vizinhos imediatos, e assegurar um tratamento favorável da comunidade política mais próxima.

Entre seus principais aliados políticos se encontra o legislador colorado Juan Carlos “Calé” Galaverna, um político influente, que também ajudou a levar à Presidência o seu antecessor, Horacio Cartes. Outras figuras destacadas são Enrique Bacchetta, advogado com tentáculos no Poder Judiciário, a ex-candidata presidencial Blanca Ovelar e o pastor evangélico Arnoldo Wiens. Entre os deputados, um dos seus principais apoios será o de José María Ibáñez, que está sendo processado por corrupção.

Abdo Martínez também é empresário da construção, proprietário de duas empresas: Aldía, criada em 1997 – e com a qual, entre os anos de 2010 e 2014, obteve contratos com o Ministério de Obras Públicas e a Prefeitura de Assunção, no valor de 18,5 milhões de dólares –, e Createc, que faturou 3,8 milhões de dólares em contratos com o Estado, no mesmo período. Mas o número de contratos de suas empresas com o Ministério de Obras Públicas caiu a zero após o seu afastamento do setor político ligado a Cartes, quando ele começou a liderar a dissidência.

O governo de Horacio Cartes se caracterizou por seus negócios entre amigos e pela turbulência deliberada em busca de consolidar o regime, e também deixa um legado a “Marito” – como é conhecido o novo presidente, que é filho de um secretário privado do ditador Alfredo Stroessner (1954-1989) –, com números vermelhos na economia, a pobreza total passando dos 28% em 2013 e ficando em 26,4% em 2017, a pobreza extrema ficando em 4,41%. Isso significa que 1,8 milhão paraguaios vivem em condições precárias e quase 300 mil estão em alta vulnerabilidade.

Segundo a Direção de Estatística, o desemprego subiu de 5% (2013) para 6% (2017), em vez de baixar, como resultado do crescimento. A dívida pública total, que era de 4,17 bilhões de dólares em 2013, disparou a 7,76 bilhões em junho deste ano. Um aumento de 85,9% em cinco anos, que equivale a 3,58 bilhões de dólares mais (24,3% do PIB).

O período eleitoral marcou cinco meses de trégua nos quais o olhar deixou de lado elementos como a pobreza, o desemprego, a blindagem política, a manipulação da Justiça e a impunidade, para se enfocar nas lideranças políticas (e sobretudo nos enfrentamentos entre Cartes e Abdo), e o debate público tocou apenas de leve o tema da corrupção institucional.

O autoritarismo do governo de Horacio Cartes teve seu ponto mais alto quando, ao buscar a reeleição, fez “uso e abuso” do terrorismo de Estado na noite de 31 de março e madrugada de 1º de abril de 2017. Após recuperar a incendiada sede do Congresso – abandonada por ordem superior, dando lugar a sua invasão e incêndio por parte de manifestantes –, agentes da Polícia saíram a “caçar” manifestantes, registrando todo tipo de abusos: centenas de feridos e a morte de Rodrigo Quintana, um militante do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), de oposição.

A faísca voltou a se acender na população em agosto do mesmo ano, quando 27 legisladores votaram pela perda de mandato do corrupto confesso José María Ibáñez, acusador de tráfico de influências e estafa ao Estado, e não conseguiram os dois terços requeridos para destitui-lo. Na ocasião, funcionou a nova lei de auto blindagem, aprovada para eternizar os políticos corruptos nas instituições.

São problemas antigos (talvez sequelas do stroessnismo), que ficaram claros para a Missão de Observação Eleitoral da União Europeia quando esta encontrou candidatos denunciados nas listas das eleições de 22 de abril: os órgãos judiciais foram os que certificaram a validade dessas candidaturas e confirmaram a impunidade. Embora a cidadania se organize para travar a luta contra a corrupção, não existe uma liderança política opositora ao governo colorado nem uma estratégia mais clara sobre como e que objetivos buscar. A demanda é pelo surgimento de lideranças alternativas que possam convencer e seduzir o povo para tirar do poder um partido montado em base à corrupção e à impunidade, e as práticas clientelistas, para benefício do modelo agroexportador.

Por sua parte, o Partido Paraguai Pyahura (esquerda) afirmou em uma carta, que este sistema eleitoral “está preparado para que os corruptos, os mafiosos, os bandidos e os sem vergonhas, em muitos casos, se mantenham em cargos do Estado. A denúncia de fraude nestas últimas eleições se fez mais evidente pela mesma contradição existente na oligarquia. O circo politiqueiro se armou de novo, bastardeando a vontade popular e deixando exposto um sistema eleitoral fraudulento que beneficia somente um pequeno grupo de privilegiados, que se serve da política para benefícios particulares ou grupais”.

Mario Abdo Martínez se aproveitou das contradições internas do seu partido, especialmente com Cartes, sempre apoiado pela embaixada estadunidense, que aparece como suporte do novo governo. Para os movimentos sociais, este período que se inicia será a continuação dos governos entreguistas, antinacionais e antipopulares, servil aos interesses dos Estados Unidos, das transnacionais e do Fundo Monetário Internacional, que já começou a atacar os direitos dos trabalhadores com a privatização da segurança social, entre outras reformas exigidas para os próximos dois anos.

Nada mudará, segundo o dito pelo novo ministro da Fazenda (Benigno López, meio irmão do presidente), que evitou dizer se tomara medidas para cobrar os impostos daqueles que não pagam com a metáfora de que isso seria como “sair a caçar no zoológico”. No zoológico do ministro, aqueles que sonegam e acumulam grandes riquezas a partir da evasão fiscal estão protegidos.

Sobre a sociedade, recaem as ameaças aos direitos dos trabalhadores, as privatizações, mais impostos aos pobres, entre outros problemas. Com a imposição do modelo de produção através da agroexportação, especialmente da soja, nas mãos de grandes latifundiários nacionais e estrangeiros.

(*) Celso Guanipa Castro é jornalista e cientista político paraguaio, do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)