Xenofobia e migração: os africanos são europeus só para o futebol – Por Aram Aharonian

Por Aram Aharonian*

Inglaterra, França e Bélgica, três das quatro nações semifinalistas da Copa do Mundo da Rússia, têm em seus elencos uma grande quantidade jogadores de ascendência africana, mais um aspecto do legado do colonialismo e da imigração, que revela uma história que continua vigente, no ritmo da xenofobia e da discriminação.

São 14, dos 23 integrantes da seleção campeã (França?), os atletas de origem africana: Kanté é de Mali; Mendy, Dembelé e Sidibé têm suas raízes no Senegal, Pogba de Guiné, Umtiti e Mbappé de Camarões (embora o segundo também tenha parentesco argelino), Ramis é do Marrocos, Fekir é filho de argelinos, Kimpembé é do Congo, Tolisso do Togo, e ainda há três com origens na República Democrática do Congo: N´Zonzi, Mandanda e Matuidi.

Há 20 anos, na Copa que sediou, a seleção azul também foi campeã, justamente com o primeiro time que admitiu os descendentes de africanos como cidadãos franceses. Desde esse momento, não é raro ver negros, turcos e árabes em outras seleções “europeias” como Alemanha, Bélgica, Inglaterra, e até mesmo nas escandinavas.

Zinedine Zidane foi o primeiro craque que revolveu os sentimentos de culpa dos franceses. Afinal, “Zizou” é filho de uma Argélia onde o colonialismo francês realizou muitos horrores. Vinte anos depois, a equipe da Francia é ainda mais multicultural que em 1998.

A Inglaterra é outro exemplo de multiculturalidade que beneficia o futebol. Diferente é o caso da Croácia: os Balcãs não são terra de imigração, muito pelo contrário. A Suíça é prova disso, com vários balcânicos em sua seleção.

Talvez pareça ilógico, já que as equipes africanas jamais passaram das quartas de final nas Copas do Mundo, mas a verdade é que, nesta Copa da Rússia, os africanos triunfaram jogando pela Bélgica, Inglaterra e França. Homens e mulheres que deixaram o Congo, Guiné, Marrocos, Camarões, Argélia, Mali, Nigéria e Angola para tentar a vida na Europa, e que assistem com orgulho como seus filhos são heróis esportivos vestindo as camisetas desses países em que todos cresceram – e onde muitos desses jogadores nasceram, quando seus país estavam recém chegando ao Velho Continente.

Esses filhos são franceses, belgas, ingleses, dinamarqueses ou suecos, mas sabem bem de onde vêm suas famílias. É o caso do belga Romelu Lukaku, cujos pais chegaram do antigo Zaire, hoje República Democrática do Congo. A história de Blaise Matuidi é parecida: seus pais abandonaram a Angola devastada pela guerra civil que deixou mais de meio milhão de mortes. “Nunca esqueci minhas raízes angolanas. Tive que tomar uma decisão difícil ao optar pela França”, disse o meia, anos atrás.

Por sua vez, o zagueiro Samuel Umtiti, autor do gol que levou a França à final, nasceu em Camarões, mas cresceu na França. Sem dúvidas, a África colaborou muito com a maior hegemonia do futebol da Europa no mundo atual.

Os mortos pela xenofobia europeia

Entre janeiro e o começo de julho de 2108, mais de 1,4 mil imigrantes perderam a vida nas águas do Mediterrâneo. Não têm nome nem rosto – os meios hegemônicos os transformam em números –, e ficaram para sempre sepultados no anonimato do fundo do mar.

Seus sonhos se transformam em pesadelos, a esperança na tragédia. Segundo o diário italiano Corriere della Sera, cerca de 9% dos migrantes-refugiados do norte de África que tentaram cruzar o Mediterrâneo no primeiro quadrimestre de 2018 se afogaram nas águas do mar dos refugiados. Evidentemente, seria um exagero chamá-los de mártires da migração.

Com relação ao aumento do número de refugiados, o fenómeno se deve, entre outros fatores, à assimetria aguda entre os países das regiões centrais e os países periféricos. O progresso técnico e o crescimento econômico não levam ao desenvolvimento integral e à paz, que só são possíveis quando o crescimento é acompanhado de uma distribuição real e profunda da renda e da riqueza.

A assimetria é ainda maior quando comparamos as nações do velho continente europeu com as do novo continente africano. Com a revolução do transporte e das comunicações, coisas e pessoas correm e voam a uma velocidade sem precedentes: é assombrosa a velocidade de deslocamento de mercadorias, dinheiro, tecnologia, notícias, conhecimento, informação, armas, drogas e violência, às vezes apenas por Internet.

Sem dúvidas, a mobilidade humana se encontra umbilicalmente ligada à política econômica de cada país e de todo o globo. Hoje, os deslocamentos humanos massivos se transformaram em um fenômeno a escala planetária, e têm relação com a geopolítica mundial, com a guinada à direita (e ultradireita) de vários países europeus: França, Alemanha, Reino Unido, Áustria, Hungria, Polônia, Itália, República Tcheca, Eslovênia e até os escandinavos. Sem contar nos casos fora da Europa, onde se destacam os Estados Unidos.

O mais grave é que tal atitude xenófoba costuma ser uma caixa de ressonância das respectivas populações, nas que reina o medo, a ameaça e a rejeição ao outro, ao estrangeiro, nos que se baseia o preconceito e a discriminação, o racismo e a xenofobia.

A última cúpula da União Europeia (UE), realizada entre 28 e 29 de junho, deixou claro que o tema dos migrantes representa uma “batata quente”. Os governantes são pressionados por boa parte de suas populações, que não aceitam a presença dos migrantes; e também pelo Acordo de Berlim de 2017, com a promessa de um sistema de quotas para cada nação.

Progressos na cúpula? Nada mudou: cada país se apresenta com uma série de condições que mais parecem muros invisíveis, e rechaçam um posicionamento taxativo e solidário, ainda quando reconhecem que nenhum país pode resolver por si só o que eles chamam de “crise migratória”, mas ao mesmo tempo, se aferram às vantagens e desvantagens da política interior e exterior.

Os meios hegemônicos – que representam os poderes fáticos de cada país e da UE – continuam falando de imigrantes ilegais. A imprensa italiana, por exemplo, falou do fracasso da cúpula, enquanto outros meios se enfocaram no “caos, na indiferença e na insensibilidade”, ou na “decadência e na cegueira”, ou “na matança silenciosa”, para definir o resultado das negociações. E a resposta que prevalece é o nacionalismo de outros tempos, uma espécie renovada de ideologia da segurança nacional.

Criminalização dos migrantes

“A politização das migrações representa, em geral, a criminalização dos imigrantes”, comenta o vigário brasileiro Alfredo Gonçalves, da Congregação dos Missionários de São Carlos. “São fortemente indesejados, rejeitados. Para os governos de direita, constituem um `problema´ que exige solução; para certos meios de comunicação, eles são uma `ameaça´ disfarçada; para boa parte da população, eles provocam `medo e risco´, temem o que qualificam depreciativamente como “onda negra”, ou `avalanche humana´”.

Outros analistas falam sobre o argumento da demografia, já que vários países europeus estão em declínio populacional, com um crescimento abaixo de zero. Os migrantes, em sua maioria jovens, poderiam preencher o espaço de uma geração com respeito à substituição de mão de obra.

Outros comentaristas consideram que a Europa está colhendo o que semeou, em séculos passados, nos obscuros anos do colonialismo, que despojou vastas zonas da África e do Oriente Médio de todas as suas riquezas, levando também os trabalhadores que foram transformados em escravos e enviados às Américas.

A verdade é que o discurso da direita xenófoba – expatriar os indocumentados e impedir a entrada de novos imigrantes, copiando quase literalmente a política de “tolerância zero” de Donald Trump – tem grande apoio popular. Alguns governos de centro-esquerda, tentaram e tentam manter as fronteiras abertas, além de socorro, resgate, acolhida e inserção social, mas são poucos.

Há casos extremos, como o da Hungria, onde as pessoas, famílias e entidades que se dispõem a acolher e ajudar os imigrantes, podem ser consideradas criminosas, e portanto passíveis de pena, incluindo a prisão.

Em julho, o chanceler austríaco Sebastián Kurz, ditou medidas para reforçar o controle na fronteira com a Itália, em Brennero, O ministro ultradireitista italiano Matteo Salvini, enviou uma circular a todos os prefeitos para restringir o direito de asilo aos imigrantes, e levou ao Tribunal Supremo a ideia de fechar os portos italianos a todos os barcos internacionais.

Fronteiras como as que unem e dividem Turquia e Grécia, Norte da África e Sul da Europa, México e Estados Unidos, Myanmar e Bangladesh, o conflito entre Chile, Peru e Bolívia, e outro entre Venezuela, Colômbia e Brasil, ou entre Paraguai, Argentina e Brasil, são alguns exemplos de vulcões a ponto de entrar em erupção.

As motivações da migração são quase sempre as mesmas: pobreza, miséria, fome, falta de emprego e oportunidade, violência, guerra, conflitos que podem ser étnicos, religiosos ou político-ideológicos, desastres naturais, não raramente amplificadas devido às progressivas mudanças ambientais. A maioria dos que fogem são jovens rapazes, mas também há casos de mulheres, e cada vez mais crianças.

A população que chega à Europa vem, em sua imensa maioria dos países da África e Oriente Médio. No corredor entre Europa e África, o que está em jogo são os países pobres, onde domina a “limpeza” étnica, religiosa ou ideológica, as lutas fratricidas, secas e inundações, a perseguição política, as prisões ou execuções políticas, ou a morte a conta-gotas aos olhos das próprias famílias, devido às condições precárias em que as pessoas vivem.

Brasil e Argentina são europeus?

O governo golpista do Brasil e o neoliberal da Argentina também estudam como impedir a entrada dos cidadãos, a imigração, ou seja, a forma legal e documentada, para desencadear a repressão aos “ilegais” e indocumentados, não só contra os tradicionais migrantes dos países vizinhos, mas também aos provenientes do Haiti, da América Central, África e Oriente Médio.

Futebol e migração

Cerca de 7% da população francesa é de origem imigrante. Dentro da seleção francesa de futebol, essa proporção se multiplica por dez. A Suíça, onde um de cada quatro habitantes têm procedência estrangeira, levou à Rússia uma seleção com 60% de jogadores de origem imigrante. Similar é o caso da Inglaterra, onde os 10% de população imigrante salta a 50% dentro do universo particular da seleção masculina de futebol – com grande presença de jogadores de origem jamaicana.

No último Mundial Sub 17, os ingleses levaram seis futebolistas de origem nigeriana. Paradoxalmente, (ou talvez nem tanto), a própria seleção da Nigéria, maior campeã da competição, sequer se classificou. A Inglaterra é a atual campeã Sub 17 e Sub 20, e agora busca o título entre os adultos.

Mas não é só a África que renova e melhora o futebol europeu. Além dos jamaicanos da Inglaterra, a Alemanha tem entre suas figuras a jogadores filhos de imigrantes turcos, como Mesut Özil e Ilkay Gündogan, além de jogadores de origem africana, como Sami Khedira (de pai tunisiano) e Jerome Boateng (de pais ganeses, tanto que seu irmão Kevin-Prince, joga por Gana).

A Albânia também está representada na Copa pela equipe da Suíça. Edi Rama, primeiro-ministro albanês, abriu, dias atrás, uma conta bancária para que seus concidadãos doassem dinheiro e permitir pagar as multas de Granit Xhaka e Xherdan Shaqiri, por terem celebrado os gols contra a Sérvia fazendo o gesto da águia bicéfala, símbolo da Grande Albânia, que teve grande repercussão geopolítica nos Balcãs.

A Suíça conta com futebolistas nascidos em Camarões, Costa de Marfim e Cabo Verde. Xhaka e Shaqiri nasceram na Suíça, mas ainda são muito ligados à terra de seus pais. Emulando o caso dos irmãos Boateng, Taulant Xhaka, irmão de Granit, joga pela Albânia.

A Bélgica é outro exemplo claríssimo de talento da imigração. A seleção vermelha, terceira colocada na Copa, é uma Torre de Babel: seus futebolistas falam entre si em inglês durante as partidas, devido a essa mistura de origens, mesmo este não sendo um dos idiomas oficiais do país.

Apesar de que as próprias seleções do continente não tenham conseguido maior destaque na competição, a África é sim grande responsável pelo sucesso da Europa. Há uma revolução que se gesta nas periferias das grandes cidades europeias: após mudar a cara da sociedade europeia, a imigração está mudando também o seu futebol, apesar da xenofobia e da discriminação promovida pelas elites dos mesmos países.

(*) Aram Aharonian é jornalista e comunicólogo uruguaio, fundador do canal TeleSur e presidente da Fundação para a Integração Latino-Americana (FILA)