Guerra comercial ou crise do capitalismo mundial – Por Eduardo Camín

Por Eduardo Camín *

Os analistas alertam que o crescimento econômico mundial pode ter alcançado seu ponto máximo no final do primeiro semestre de 2018, e que nos encontramos diante da perspectiva de uma guerra comercial total, enquanto soa entre as minhas coisas o silêncio incontido da informação.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) enviou um comunicado às redações jornalísticas em todo o planeta. Eu o vi, divaguei sobre ele, e me perguntei se talvez, nestes tempos em que vivemos, do vão capricho do homem só, ausente, não mereçamos sequer a correspondência dos sons cotidianos. O relato é exíguo, entre dúvidas e incertezas que espreitam a alvorada de uma nova e eterna guerra comercial.

Apesar de que a lista de países integrantes da OMC não deixou crescer, com um extenso catálogo de limitações e (des)acordos entre seus países membros, as estratégias políticas rompem com frequência o equilíbrio idílico proposto por esta organização, com sede na cidade de Calvino. Poderíamos, uma vez mais, começar a nos por perguntar: o que é uma guerra comercial?

Alguns documentos da OMC a definem como “a imposição de medidas restritivas ao comércio entre nações”. Nasce, geralmente, da decisão unilateral de um país de restringir suas importações, acompanhada de medidas similares dos países exportadores afetados, como represália. Logo, isso se transforma numa espiral de restrições tarifárias que se expande e termina prejudicando todas as economias do sistema, e não somente as das partes envolvidas.

É verdade que as guerras comerciais acumulam muitos episódios ao longo da história, com uma infinidade de diferentes regulações como resultado. Proibir as importações de um determinado país, ou fechar as fronteiras, poderia ser catalogado como exceção hoje em dia, mas há vários países que já sofreram medidas como essas. Tanto é assim que mesmo nas últimas décadas há casos de restrições tarifárias que afetaram algumas relações entre países.

Mas as tarifas não são as únicas barreiras ou elementos de coação que podem incidir sobre os bens exportados. Existem outras medidas não tarifárias que escondem em sua finalidade uma restrição direta ao comércio exterior, como pode ser a implantação de novas normas sanitárias, novos requisitos de qualidade, desvalorização de divisas, subsídios à produção nacional, acordos bilaterais entre países, entre outras.

Na verdade, assistimos, de forma inequívoca, a uma crise do capitalismo. A contração do mercado mundial desatou o incremento das medidas protecionistas e a política de sanções com a que as potências se atacam mutuamente. Por exemplo, os Estados Unidos e a Europa não param de denunciar que a China usa suas finanças públicas para subvencionar empresas deficitárias, que vendem produtos abaixo do custo de produção.

Uma política que, por outra parte, tem emulado o melhor estilo de Barack Obama, que fez o mesmo quando “ajudou” suas empresas automobilísticas, para não falar das subvenções à produção agrícola, ou o resgate bancário, com bilhões de dólares do orçamento público. Não é essa, por acaso, a mesma estratégia utilizada pelo Banco Central Europeu, de comprar centenas de bilhões de euros em dívida pública das nações europeias, ou, mais diretamente, dívida privada das empresas?

As medidas protecionistas do presidente estadunidense Donald Trump têm implicações tão graves que, colocadas em prática em toda a sua dimensão, gerariam uma guerra comercial com a China e a Europa, de consequências catastróficas. Uma política de ação e reação semelhante arrastraria a economia internacional a uma depressão profunda, e não parece que os setores decisivos do capitalismo estadunidense – que dependem do mercado mundial – estejam saltando de alegria diante deste cenário.

Pelo contrário, dão sinais de uma eloquente inquietude. É muito o que está em jogo, e por isso haverá muitas pressões para impedir que Trump precipite esta situação ao extremo.

As graves contradições que corroem o capitalismo do Século XXI voltaram a instalar os velhos demônios, abrindo a caixa de Pandora de todos os problemas acumulados durante décadas.

E isso afeta também a produtividade do trabalho, que está diminuindo – apesar do avanço da robótica, das tecnologias da informação e da globalização –, lastrada pela queda do investimento na produção.

A outra cara da moeda

A crise de superprodução continua. A luta pelos mercados se torna mais aguda. O capitalismo europeu e estadunidense, junto com a China, registrou, em algum momento, um importante crescimento, interrompido pelos ciclos de crise e recessão inerentes ao sistema. Não obstante, o recurso do endividamento massivo e a expansão do capital fictício ajudaram a prolongar a bonança para além dos seus limites naturais, e a dar um carácter ainda mais explosivo à crise atual.

A grande interdependência econômica e financeira da globalização criou um substrato, pelo qual a grande recessão de 2008 poderá se estender virulentamente. A partir de então, novas contradições se desenvolveram em grande escala. O caso da China é muito relevante.

O gigante asiático foi um fator chave para absorver quantidades ingentes de capital ocidental e mercadorias de alto valor agregado (provenientes dos Estados Unidos, Japão e Alemanha), com as quais o Estado e a burguesia chinesa levantaram seu aparato industrial e exportador. Os efeitos nos países desenvolvidos foram evidentes, aumentando a taxa de benefícios capitalista, deprimindo os salários e reduzindo os custos de produção, graças ao deslocamento da indústria.

Mas o auge expansionista da China teve também outras consequências: ao se converter no núcleo central da produção mundial e obter um superávit comercial extraordinário, se transformou numa potência econômica. A China fala a mesma língua que os Estados Unidos e a União Europeia, e passou, dialeticamente, de representar um fator de progresso para o capitalismo, a se transformar numa fonte de desestabilização, concorrência e contradição.

Evidentemente, também chegou o momento de a China sofrer os efeitos da superprodução e os males que as demais economias desenvolvidas já vinham enfrentando. Os desequilíbrios do capitalismo chinês se multiplicaram nestes últimos anos: a dívida pública triplicou desde 2008, e roçando os 300% do seu PIB (4,45 bilhões de euros) – embora, segundo o FMI, a mesma se situe em torno de 230% do PIB, enquanto os mercados a cifrem em 260%, o que pouco importa em termos de análise.

A realidade é que se criou uma formidável bolha financeira, bancária e imobiliária que estourou parcialmente, e a perspectiva de milhões de demissões pende como uma espada de Dâmocles sobre a cabeça dos trabalhadores.

Enquanto isso, seus principais sócios na economia europeia caminham rapidamente em direção ao abismo. Apesar de o Banco Central Europeu ter gastado mais de 1,6 bilhões de euros em dois anos comprando dívida soberana dos países e dos bancos, isso não se traduziu numa retomada do investimento em produção.

Além disso, o consumo permanece estagnado, e o desemprego não para de crescer nos países centrais do capitalismo. Os governos asseguraram ter aprendido “todas as lições” do colapso financeiro de 2008, e prometeram que as coisas mudariam, mas estamos justamente uma década depois e o que se constata é o pouco que se mudou, e como foram sendo reinventados os caminhos na direção de uma nova bolha imobiliária, como é o caso da Espanha, com consequências de um alcance inimaginável.

Os planos de ajuste, cortes e austeridade não chegam a generalizar a recuperação, e provocam graves desequilíbrios econômicos, sociais e políticos. A dinâmica caótica do sistema capitalista se observa também numa atividade especulativa frenética. Desde o verão europeu de 2015, devido à abrupta queda dos índices chineses, as bolsas mundiais acumulam uma perda de capitalização de mais de 18 bilhões de dólares, e a situação não tem se revertido.

Mas há uma grande quantidade deste capital que é fictício, e portanto não reflete a criação de riqueza produtiva. Instituições como a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e outras, alertam sobre o fato de que o mundo está a ponto de “entrar na terceira fase da crise financeira”.

Cada vez mais economistas neoliberais reconhecem que, se as tendências atuais se mantêm, pode ser inevitável uma nova recessão na Europa e nos Estados Unidos, e inclusive uma depressão severa da economia mundial. Portanto, seria imprudente menosprezar as manobras do grande capital para evitar a qualquer custo uma nova recaída que desemboque numa depressão similar à dos Anos 30 do Século XX.

Não obstante, alguns defensores ortodoxos do sistema dizem que as tensões comerciais servem ao menos como um lembrete de que a economia mundial não tem fronteiras, e destacam que as disciplinas jurídicas da OMC estão funcionando adequadamente.

Apesar de tudo o que se fala a respeito de guerras comerciais, a economia mundial não se parece em nada ao que foi nos Anos 30 do século passado. Entretanto, alguns dados preocupam: o crescimento econômico mundial (e o estadunidense) pode ter alcançado seu ponto máximo no final do primeiro semestre de 2018, e talvez nos encontremos, atualmente, diante da perspectiva de uma guerra comercial total.

É difícil afirmar de antemão se, no marco atual da evolução capitalista, será possível evitar este desenlace, ou ao menos adiá-lo a curto prazo. Mas há algo sobre o que não há a menor dúvida: a atual situação de estagnação do comércio mundial, de guerras comerciais, de crise de superprodução e de desemprego massivo – atenuado pelo subemprego informal e a desigualdade crescente – seguirá alimentando a polarização econômica, política e social. O que, a curto ou médio prazo, terá consequências dramáticas.

* Eduardo Camín é jornalista, membro da Associação de Correspondentes de Imprensa da ONU, redator-chefe internacional do Hebdolatino e analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)