Pacto com o diabo: a hipócrita dependência de Trump dos cristãos evangélicos dos EUA

Por Sputnik News 

O governo do presidente dos EUA Donald Trump depende muito do apoio de seguidores do cristianismo evangélico como uma ”força motivadora” por trás de suas políticas, e isso pode ser perigoso para a estabilidade global, de acordo com uma reportagem recente do The Guardian.

Durante um discurso na quinta-feira no Cairo, Egito, na Universidade Americana no Cairo, o Secretário de Estado Mike Pompeo, que é um autodeclarado cristão evangélico, fez referência a um texto da Bíblia cristã e afirmou que uma cópia dela é mantida no sétimo andar do Departamento de Estado dos EUA, em seu escritório.

“Esta viagem é especialmente significativa para mim como um cristão evangélico”, disse Pompeo, um ex-homem de negócios com profundas ligações com a direita religiosa dos EUA.

“Mantenho uma Bíblia aberta na minha mesa para me lembrar de Deus, de Sua Palavra e da Verdade”, declarou Pompeo, comentando que os EUA “não se retirarão [do Oriente Médio] até que a luta contra o terrorismo esteja terminada”, também afirmando que o governo Trump “aprendeu que quando os EUA batem em retirada, frequentemente o caos vem em seguida”.

A crença de Pompeo na versão cristã evangélica da “verdade” é destacada por muitos como o cerne do que faz o governo Trump ser um perigo para a estabilidade global.

De acordo com uma recente reportagem do The Guardian, a “versão cristã apocalíptica do futuro” de muitos dos cristãos evangélicos dos EUA é profundamente ligada a Israel e à população judaica do mundo. Essa crença, conhecida como “dispensacionalismo pré-milenista” ou “Sionismo Cristão”, impacta diretamente na política externa dos EUA na Palestina e no Irã, de acordo com o atual evangelismo político personificado nas políticas do governo Trump.

“Ele [Pompeo] sabe melhor do que ninguém como sua fé interage com suas crenças políticas e com as tarefas que realiza como Secretário de Estado”, comentou Stan van den Berg, o pastor veterano da igreja pessoal de Pompeo em Wichita, Kansas. “É suficiente dizer que ele é um homem de fé”, adicionou o pastor, citado pelo The Guardian.

Muitos veem essa dependência da sobrevivência política de Trump da aprovação dos cristãos evangélicos dos EUA como um “calcanhar de Aquiles”, ameaçando qualquer conversa inteligente em Washington DC sobre política externa por causa da sua dependência de um sistema de crenças de 2.000 anos de idade.

“Muitos [cristãos evangélicos] adoram o segundo advento, porque para eles isso significa a vida eterna no paraíso”, comentou Andrew Chesnut, professor de estudos religiosos da Universidade Virginia Commonwealth.

Um “segundo advento”, de acordo com como é descrito na Bíblia cristã, refere-se à crença de que o messias cristão, Jesus Cristo, voltará dos céus para julgar a humanidade.

“Existe um perigo palpável de que pessoas em posições importantes que concordem com essas crenças estejam mais dispostas a nos levar a um conflito que leve ao Armagedom [a descrição cristã do fim do mundo]”, comentou Chesnut, tendo sido citado pelo The Guardian.

Muitos evangélicos estadunidenses brancos, afirma Chesnut, acreditam em uma forma de sionismo cristão, lembrando a volta à chamada Terra Santa daqueles que acreditam na fé judaica.

Cerca de 80% dos evangélicos estadunidenses brancos votaram em Trump em 2016 e sua popularidade entre este grupo demográfico em particular manteve-se constante em cerca de 70%, reportou o jornal The Guardian.

Estima-se que cerca de um quarto da população dos EUA acredita em alguma forma de evangelismo cristão, enquanto que existe cerca de meio bilhão de devotos do grupo religioso por todo o mundo, de acordo com a Pew Research.

Alguns evangélicos veem Trump como um Rei Ciro dos últimos dias, o fundador do primeiro Império Persa, sob quem a captividade babilônica terminou.

Esta comparação foi feita em The Trump Prophecy (A Profecia Trump), um filme pseudorreligioso postado na internet em outubro de 2018 sobre um bombeiro aposentado que diz ter ouvido Deus dizer a ele, “escolhi este homem, Donald Trump, para esses tempos”.

Lance Wallnau, que aparece no filme, descreve Trump como “o Candidato do Caos de Deus” e um “Ciro moderno”, destacou o jornal The Guardian.

A escolha feita por Trump do proeminente cristão evangélico linha-dura Mike Pence como seu vice-presidente é indicativa da lealdade do primeiro aos pastores evangélicos, junto com a ordem recente de Trump de mover a embaixada dos EUA em Israel da cidade de Tel Aviv para Jerusalém, revelando a pesada influência evangélica na política externa de seu governo.

(*) Publicado originalmente em sputniknews.com | Tradução: equipe Carta Maior