Incendio en el Museo Nacional: Luzia sobrevivió a 12 mil años de historia pero no a Brasil

O Cranio de Luzia sobreviveu a 12 mil anos de história, mas nao sobreviveu ao Brasil

Por Eliana Alves Cruz

AS CHAMAS QUE consumiram o Museu Nacional, que fica a poucos passos da minha casa, são metáfora para tantas coisas no Brasil de 2018 que quase não consigo enumerar. Em poucas horas, arderam 200 anos de história do Brasil em 20 milhões de peças. O caso mais grave foi o de Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas, que já dormia por lá de modo nada digno, dentro de uma gaveta.

Descoberta nos anos 1970 em Minas Gerais, Luzia quebrou a narrativa de que o homem das Américas teria chegado aqui vindo da Ásia depois de cruzar o estreito de Bering, entre a Rússia e o Alasca. O crânio de cerca de 12 mil anos indica que a população de Lagoa Santa, onde foi encontrado, tenha chegado aqui muito tempo antes. A fisionomia de Luzia – reconstituída anos depois – era emblemática: seus traços lembravam nossas origens africanas. O crânio que virou cinzas, no entanto, não estava exposto aos visitantes do Museu Nacional.

O custo para fazer uma área de exposição era de insignificantes R$ 100 mil, dinheiro que o museu nunca conseguiu levantar. Enquanto estudantes alemães podem sentir orgulho do homem de Neandertal – descoberto na Alemanha – e estudantes franceses se vangloriam do homem de cro-magnon (o esqueleto europeu ancestral), nossos jovens nunca mais poderão olhar para Luzia.

A reconstituição do rosto de Luzia, feita a partir do fóssil considerado o mais antigo de um ser humano nas Américas, apresentada no Museu Nacional, no Rio, observada pelo professor Ricardo Santos.
A reconstituição do rosto de Luzia, feita a partir do fóssil considerado o mais antigo de um ser humano nas Américas, estava em uma gaveta no Museu Nacional por falta de verbas para a sua exposição. Foto: Patrícia Santos/Folhapress

O incêndio no palácio, que abrigou a família real, está fincado na Quinta da Boa Vista e é lugar na memória afetiva da infância de tantos cariocas, foi alvo de uma tragédia de gigantescas proporções materiais e simbólicas. O fogo consumiu quase tudo e, talvez o pouco que restasse, a água dos bombeiros terminaria de destruir. Na mesma área, a poucos quilômetros de distância entre si, outras tragédias estão lá, anunciadas, esperando pelo seu dia: do outro lado da estação de trem de São Cristóvão temos o que sobrou do Museu do Índio, ali perto os escombros da favela do metrô e uma Uerj em desmonte. Tudo no mesmo raio de um Maracanã descaracterizado por obras de mais R$ 1 bilhão. É o país esfacelado.

Qualquer ministro do Supremo Tribunal de Federal embolsa por ano mais do que o Museu Nacional pleiteava para a sua manutenção que poderia ter salvo o prédio do desastre. Considerando o salário de R$ 33,7 mil mensais, sem os penduricalhos, o custo é de pouco mais de R$ 400 mil anuais – isso sem falar no reajuste de 16% esperado para o ano que vem, com impacto de R$ 8 bilhões, o dobro do orçamento anual das bolsas de pesquisa da Capes, algumas delas usadas justamente no museu. Nossa versão do Louvre não valia, por ano, uma ministra Cármem Lúcia, um Barroso, um Gilmar Mendes. É claro que ministros são pessoas preparadas e que seus salários precisam estar à altura de suas representações democráticas. A comparação é apenas para tentar contextualizar o peso que deveria ter uma instituição como o Museu Nacional.

O próprio edifício do STF, construído nos anos 1960, consome mais recursos do que o museu. Só em obras, em 2017, o prédio gastou R$ 4,9 milhões do meu, do seu, do nosso dinheiro. Sem contar gastos básicos de manutenção como água, luz e outros. Não estou nivelando por baixo. Brasília é patrimônio da humanidade e seus prédios merecem todo o cuidado e zelo. Merecem tudo isso e muito mais. O questionamento é: por que “dois pesos e duas medidas”? Onde o desmonte da educação tem sua parcela de culpa no abandono de bem tão precioso? Está valendo a pena o alto custo que estamos pagando por relegar a ciência ao segundo plano?

O mais antigo museu do país, com dois séculos de história entre suas paredes e um acervo inestimável, tinha recentemente parcos R$ 200 mil de verbas anuais de um total de R$ 520 mil mínimos que seriam necessários. Seus diretores chegaram a fazer uma “vaquinha virtual” para manter aberta a sala onde estava exposta a ossada do dinossauro, que fascinava crianças e adultos. Tudo isso fala muito sobre nós.

Não é de se espantar que um governo que congela gastos em saúde e educação por duas décadas, que suprime direitos duramente conquistados por trabalhadores ao longo de anos, que não se importa com pesquisa científica e que promove uma reforma na educação sem ouvir a sociedade e muitos dos maiores nomes da área, encare com desdém um museu que tem a posse de peças importantes não apenas para o país, mas para o mundo.

O que é de se espantar é a enorme paixão e força de ânimo da comunidade acadêmica mesmo diante do rescaldo de uma preciosidade perdida. Horas depois do incêndio, nenhuma autoridade das três esferas governamentais havia se manifestado publicamente. O presidente Michel Temer só publicou uma nota em seu Twitter às 21h59 – o incêndio teve início às 19h30min. Ele não esteve na comemoração dos 200 anos do museu, que aconteceu este ano. O último presidente a visitar a instituição foi JK. O Museu Nacional recebeu Einstein e Marie Curie.

A exceção foi Marco Antonio Perruso, coordenador do Curso de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a qual o museu pertencia. Em uma nota de pesar e revolta, ele disparou: “Estão destruindo a história e a memória da sociedade brasileira e da diversidade de seu povo. Os responsáveis por esta situação são os que agravam as condições de financiamento da educação, da cultura e dos serviços públicos no Brasil, especialmente o atual governo federal, que está inviabilizando nosso futuro com medidas tais como o congelamento de gastos públicos em 20 anos”. O Ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, veio depois, dizendo que os trabalhos de restauração “começarão nesta segunda-feira”.

A MEMÓRIA SEMPRE foi um problema para o Brasil. O país que sofre de amnésia voluntária profunda, de um esquecimento proposital de sua história, não consegue mais esconder as marcas deixadas por uma cultura que não valoriza o passado. Por esse motivo, também tem muitas dificuldades para caminhar para o futuro.

O Rio de Janeiro se orgulha do belíssimo prédio do Museu do Amanhã, que se ergue majestoso na Praça Mauá, em frente a Baía de Guanabara, e hoje é um dos cartões postais da cidade. No entanto, se fecharmos os olhos talvez ainda possamos sentir o peso do local por onde entraram tantos escravizados. A entrada acontecia pelo Cais do Valongo, distante poucos metros, mas toda a área fazia parte do cenário da história da escravidão na cidade. Somos capazes de edificar um monumento ao que ainda não veio, mas não suportamos lembrar do que nos formou. O risco de repetir os erros é enorme.

Museu do Amanhã, na região portuária do Rio, foi erguido no local por onde entraram negros escravizados.
Museu do Amanhã, na região portuária do Rio, foi erguido no local por onde entraram negros escravizados. Foto: Luiz Souza /Fotoarena/Folhapress

Escrevi dois romances históricos com momentos da nossa trajetória marcada pela diáspora africana. O primeiro, “Água de barrela”, conta a saga de parte de minha família da África da metade do século 19 até nossos dias. O segundo “O crime do cais do Valongo”, retrata o local por onde entraram em 20 anos (de 1811 a 1831) entre 500 mil a um milhão de pessoas escravizadas. Escrever essas obras me exigiu mergulhos profundos em arquivos das cidades de Cachoeira, Salvador, Rio de Janeiro, do Arquivo Nacional e da Biblioteca Nacional. Um museu é um tesouro. Fico imaginando tudo o que não será feito, pela inexistência do que tínhamos e perdemos nestas chamas.

O cais do Valongo, por exemplo, foi maior porto escravagista das Américas e, por causa disso, ganhou o título de Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco. E o que vemos? Uma luta intestina entre esferas governamentais para que os projetos de preservação saiam do papel e preservem um sítio arqueológico único no mundo, ameaçado pela falta de cuidados. Moradores denunciaram até mesmo a presença de usuários de crack no sítio histórico. O Brasil tem apenas 14 desses patrimônios reconhecidos pela Unesco, e pode perder um deles – justamente o Valongo – por total desprezo.

Outro sítio arqueológico muito próximo ao Valongo, o da igreja de Santa Rita, onde obras do VLT desenterraram as ossadas também de escravizados – sabe-se que o local foi o primeiro cemitério dos chamados ‘Pretos Novos’, ou seja, recém chegados – é alvo também de disputas. Após protestos, decidiu-se não mais escavar o lugar, mas já está marcada uma manifestação na próxima quarta-feira,

No Brasil dos nossos tempos, como se diz, o buraco é mais embaixo. A falta de mão de obra especializada e investimentos ata as mãos do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, o Iphan, que por pouco não fechou as portas este ano, colocando em risco todo o enorme patrimônio histórico do país. O Brasil de 2018 parece pensar que os únicos problemas da nação são segurança, trabalho e as questões que giram em torno da economia. Os debates entre candidatos e propagandas políticas têm forte apelo neste sentido e nenhum jornalista que conduziu as sabatinas até o momento fez nem uma pergunta sequer sobre projetos para a cultura, que também é um setor gerador de renda, mas sobretudo de educação e conhecimento.

O rock do grupo Titãs dos anos 1980 do século 20 soa atual no século 21. Olhando em volta, parece mesmo que a gente quer só “comida, dinheiro” e ponto final. Cruelmente, nesse momento de crise, “bebida é água, comida é pasto”. Mirando ao redor, também vemos parcela significativa da nação clamando por armas, trancas, cadeias e repressão. Queremos a supressão total dos nossos direitos e, entre eles, o aniquilamento do direito de possuir uma história.

The Intercept Brasil


Memoria quemada

Por Eric Nepomuceno

El fuego empezó a eso de las siete y media de la noche del domingo. Los bomberos llegaron al inmenso palacio que abrigada el Museo Nacional unos cuarenta minutos después y no había agua suficiente en los camiones hidrantes más cercanos.

Se intentó buscar agua de un laguito. Luego llegaron camiones con agua. A lo largo de cuatro infinitas horas continuaban llegando camiones-cisterna. Pero ya era inútil.

A eso de las ocho de la noche algunos investigadores que trabajaban en el Museo se arriesgaron e invadieron el predio de doscientos años que se quemaba. Estaban desesperados, y la desesperación venció el miedo.

Salieron cargando cajones. Lograron sacar a unas mil especies de moluscos. Pero adentro había decenas de miles, muchos de ellos desaparecidos del planeta. Lo que lograron sacar es nada más que un rasguño de aquella memoria.

Quisieron volver a entrar, pero ya no les fue posible. Vieron, impotentes e inertes, cómo se derrumbaba todo. Todo fue siendo devorado por un fuego feroz.

Había una invaluable reliquia: el esqueleto de la primera mujer que existió en Brasil. Se llamaba Luzia y tenía una edad calculada entre doce mil y trece mil años. Convivió con mastodontes y otros seres gigantescos. Gracias a ella se rehízo toda la investigación sobre la ocupación de las tierras que conforman esta nuestra pobre América.

Había momias egipcias, unas 700, la mayor colección de América latina. Había frescos sobrevivientes de la destrucción de Pompea. Había una formidable recolección de idiomas y leyendas y tradiciones indígenas. Estudiosos aseguran que era el más amplio y completo acervo de idiomas indígenas del continente latinoamericano. Había miles de objetos de naciones originarias de Brasil y de otras latitudes que desaparecieron de la faz de la tierra.

Había una de las principales colecciones de distintos tipos de saurios. Había el sarcófago de Sha Amum Em Su, uno de los únicos del mundo que jamás fueron abiertos. Y una colección de cinco millones de insectos.

Había dos bibliotecas extensas que, entre sus miles de ejemplares, abrigaban libros centenarios.

Había fósiles de animales y plantas que ya no existen. Había parte importante de la historia de la antropología y de la ciencia no del país o de la región, sino de la humanidad.

Había explicaciones sobre el surgimiento de Brasil, material para ayudar a conocer y entender el cruce de raíces que nos creó.

Había veinte millones de piezas. Veinte millones.

Desde hace años que el Museo Nacional creado en 1818 por el entonces rey de Portugal Don João VI gritaba por socorro. La antigua residencia de la familia imperial brasileña necesitaba manutención urgente. Había cables de electricidad expuestos, había filtraciones, había madera siendo devorada por insectos. La pintura de las paredes estaba descascarada.

El presupuesto para manutención se respetó hasta 2014. Al año siguiente, cuando se empezaba a gestar en el Congreso el golpe institucional que en 2016 destituiría a la presidenta Dilma Rousseff, ese presupuesto se redujo a poco más de la mitad de lo previsto. E, instalado el gobierno de Michel Temer, a menos de un tercio. Menos de un tercio.

El mes pasado la dirección del museo lanzó una colecta por las redes sociales. Necesitaba 50 mil reales –unos doce mil de los dólares de hoy– para rehabilitar y reabrir la sala más visitada.

No logró siquiera eso del gobierno federal. Doce mil dólares.

En el gran palacio del cual ahora no quedan más que las paredes quemadas se firmó la Ley Aurea, que liquidó con la esclavitud en Brasil. Y la primera constitución del país.

Quedaron las paredes chamuscadas y nada más. Hay riesgo de que las paredes internas se derrumben. Quedará entonces la fachada y nada más.

Si ocurre ese derrumbe, tendremos la metáfora perfecta del Brasil en que vivo: pura fachada. Nada más que fachada y una gran puerta que no conduce a nada.

Había la memoria de un país desmemoriado. Había.

Todo o casi todo se quemó. Su acervo era considerado uno de los cinco más importantes del mundo. Biólogos y antropólogos cruzaban aires y mares para estudiar un material considerado único.

Asesinaron al Museo Nacional con la misma frialdad con que tratan de asesinar al país. La misma perversidad, el mismo cinismo, la misma atrocidad helada.

Se quemó la memoria, la historia. El abandono y la desidia quemaron todo. Faltó quemarnos a nosotros, a los sobrevivientes de un país devastado y desgraciado.

Una colección de meteoros y meteoritos se salvó. Sabían enfrentar el fuego, sobrevivieron al abandono a lo largo de los tiempos.

Pero son fríos. No calientan ni alumbran a la memoria.

Quizá por eso se salvaron.


Incêndio de grandes proporções destrói o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista

Um incêndio de grandes proporções destruiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio.

O fogo começou por volta das 19h30 deste domingo (2) e foi controlado no fim da madrugada desta segunda-feira (3). Mas pequenos focos de fogo seguiam queimando partes das instalações da instituição que completou 200 anos em 2018 e já foi residência de um rei e dois imperadores.

A maior parte do acervo, de cerca de 20 milhões de itens, foi totalmente destruída. Fósseis, múmias, registros históricos e obras de arte viraram cinzas. Pedaços de documentos queimados foram parar em vários bairros da cidade.

Segundo a assessoria de imprensa do museu e o Corpo de Bombeiros, não há feridos. Apenas quatro vigilantes estavam no local, mas eles conseguiram sair a tempo.

As causas do fogo, que começou após o fechamento para a visitantes, serão investigadas. A Polícia Civil abriu inquérito e repassará o caso para que seja conduzido pela Delegacia de Repressão a Crimes de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico, da Polícia Federal, que irá apurar se o incêndio foi criminoso ou não.

Foto mostra a tentativa de conter o incêndio no Museu Nacional no Rio de Janeiro (Foto: Reuters/Ricardo Moraes)

Falta d’água atrapalhou bombeiros

Pesquisadores e funcionários do Museu Nacional se reuniram com o Corpo de Bombeiros para tentar auxiliar no combate das chamas. O objetivo era orientar o trabalho dos bombeiros numa tentativa de impedir que o fogo chegasse a uma parte do museu que contém produtos químicos. Alguns deles são inflamáveis e usados na conservação de animais raros.

Bombeiros precisaram pedir caminhões-pipa para auxiliar no combate ao incêndio. Segundo o comandante-geral, coronel Roberto Robadey Costa Junior, a falta de carga em hidrantes atrasou o trabalho em cerca de 40 minutos. Foi necessário retirar água do lago que fica na Quinta da Boa Vista para ajudar no controle das chamas.