Dois anos depois, 10 teses e 10 mitos sobre as forças armadas e Bolsonaro

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Dois anos depois do governo Bolsonaro, é perceptível o aumento da cobertura sobre as forças armadas na imprensa em virtude da identificação dos militares como integrantes do bloco no poder brasileiro atualmente.

Até pouco tempo atrás, poucos jornalistas cobriam as matérias relacionadas às forças armadas, política de defesa ou indústria de defesa. Atualmente, aqueles envolvidos na cobertura do cenário político passaram a se debruçar sobre o assunto e, gradualmente, foram se acostumando à linguagem, símbolos e identificações militares.

As matérias variam no tom, mas, em geral, pintam uma imagem negativa da participação militar no governo, uma grande mudança para aqueles que eram considerados racionais, bons administradores, incorruptíveis e capazes de moderar os arroubos do bolsonarismo.

Essa visão crítica não esteve presente apenas em veículos da esquerda, mas notabilizou-se nos grandes oligopólios, como as Organizações Globo e a Folha de S. Paulo, numa reação ao ódio explícito que o presidente nutre por parte considerável dos veículos de comunicação.

Acreditamos que, passado esse tempo de maturação, é possível identificar algumas teses e mitos sobre as forças armadas na política.

Sobre mitos, lembramos que estes têm o propósito de tornar uma realidade crível e que, no caso do comportamento político-militar, trata-se de uma realidade fabricada que os beneficia, por isso é necessário contrapô-las.

Não discutiremos extensamente nenhuma delas, algumas já abordadas em outros textos de nossa autoria. Aqui pretendemos oferecer uma síntese-balanço, baseada na experiência dos últimos dois anos.

10 teses que se confirmaram

1. O anticomunismo é forte na caserna, foi recentemente repaginado como marxismo cultural e direcionado a amplos segmentos. A chamada ala militar se nutre e fomenta o anti-esquerdismo;

2. Bolsonaro não faz apenas promessas aos militares. Ao longo de dois anos, fez entregas, muito concretas e diversas, que melhoraram a carreira militar e ofereceram oportunidades de renda alternativa para um contingente ainda maior;

3. Não importa, para as forças armadas, o quanto os governos petistas investiram nas políticas de defesa, seja na melhora do soldo ou em equipamentos. A relação nunca foi “ótima”. Nem com Lula. Houve um pacto de coexistência pacífica: nem importunaram e nem foram importunados – com raras exceções, como a Comissão da Verdade ou manifestações de militares contrários à demarcação de terras indígenas. Bolsonaro, por sua vez, ofereceu aos militares algo além: o status de conselheiros do rei;

4. Existe um modus operandi no governo típico de operações psicológicas, com ações polêmicas geradoras de caos. O presidente as gera e causa desorientação, enquanto as agendas política, moral e econômica de fato são impulsionadas nos diversos ministérios, a metade deles comandada por militares;

5. As forças armadas reproduzem relações coloniais de poder no sistema internacional. Nosso colonialismo é ontológico e epistemológico, no próprio pensar da defesa. Isso se reflete na postura dos militares no governo à política externa submissa, ao contrário do esperado nacionalismo;

6. A participação no governo afetou a imagem dos militares junto à opinião pública, embora a instituição ainda goze de apreço popular. As forças armadas são o berço e garantia do governo Bolsonaro aos olhos da população;

7. Os militares não vão para o governo enquanto indivíduos, pois continuam pertencendo a uma corporação. Não são militares no governo, é um governo de militares. O Partido Militar é a força hegemônica do bloco no poder;

8. Os militares são liberais na economia. Sua presença não impediu as privatizações e o enxugamento de gastos. Uma postura desenvolvimentista deles na Petrobras é ilusão. Para eles, impera o Estado máximo apenas para as forças de segurança e suas empresas correlatas. Nas demais áreas, é Estado mínimo;

9. O governo Bolsonaro capturou os símbolos nacionais, como a bandeira. Com isso, ganhou uma ferramenta para a agitação proselitista do patriotismo e da soberania nacional. Um exemplo nesse sentido é a defesa da Amazônia;

10. Mecanismos de controle civil institucional são insuficientes. A subordinação constitucional das forças armadas à Presidência e a criação do Ministério da Defesa, entre outros mecanismos implementados desde 1988, não conseguiram superar a autonomia da organização militar, tampouco seu ethos interventor.

10 mitos desnudados

1. O bolsonarismo seria um fenômeno dos baixos escalões militares e das forças de segurança que historicamente votaram no deputado Bolsonaro: não é possível mensurar o grau de bolsonarismo segundo a hierarquia, mas é possível afirmar que quem ocupa as posições relevantes no Executivo federal são a média e alta oficialidade. É praticamente inexistente nos altos cargos comissionados membros das polícias militares, por exemplo;

2. Bolsonaro era malquisto entre os generais, que só embarcaram na candidatura em 2018: diversas evidências levantas por Piero Leirner apontam para um envolvimento anterior de militares com a candidatura, exemplificada pela presença do candidato Bolsonaro nas formaturas da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) desde 2014, sempre com a autorização do comandante;

3. Dentro das forças armadas existe uma ala moderada e uma golpista. Mourão, por exemplo, seria mais moderado que Bolsonaro: não é verdade, se existem diferenças, estão na forma e na preocupação com a exposição institucional, não no conteúdo;

4. Bolsonaro é facilmente substituível para os militares no poder: não é. Ele tem os votos e o carisma. Caso contrário, os militares teriam lançado candidato um general de quatro estrelas, como o Heleno. Daí apontarmos para uma relação de simbiose;

5. Militares cederão espaço ao Centrão: não ocorreu. Ao longo do tempo, o espaço dos militares no governo cresceu. O lavajatismo desapareceu, os ultraliberais perderam espaços, assim como os neofascistas, mas o Centrão não desaloja os militares no governo;

6. Apenas o Exército está comprometido: não é verdade. Proporcionalmente ao tamanho das três forças, o comprometimento da Marinha com o governo é tão intenso quando o do Exército, embora mais discreto;

7. O artigo 142 da Constituição permite uma interpretação elástica sobre a função moderadora dos militares: dezenas de juristas já apontaram a incorreção dessa interpretação, mas que é continuamente revisitada pelo presidente para esgarçar as instituições;

8. A educação militar é de alta qualidade: a julgar pelo desempenho dos militares, exemplificada pelo general no Ministério da Saúde, existem problemas até mesmo nas disciplinas elementares, como geografia e administração;

9. Os militares são moralmente superiores aos civis e incorruptíveis: em virtude da exposição provocada pelo governo, multiplicaram-se as denúncias de mau uso histórico dos recursos públicos, de corrupção, e até mesmo de crimes mais graves, como tráfico de drogas internacional e trabalho escravo em unidades militares;

10. Militares não se envolvem com política: essa afirmação é repetida como um mantra por diversos oficiais, e cabe a nós, diante de sua evidente inverdade, desmenti-la. São mais de 6 mil militares, (sendo em torno de 50% ainda da ativa) ocupando cargos civis no governo, encabeçando ministérios e comissões. Militares não deveriam se envolver na política, porém o fazem.

Diante desse cenário, apontamos que o campo progressista precisa se dedicar ao estudo para compreender as forças armadas e os temas da Defesa. Essa pauta precisa ser incluída nas diversas atividades que se propõem dialogar com a população. Antes tarde do que nunca.

*Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Poliana Dallabrida

Brasil de fato


 

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