Símbolo das ocupações, Ana Júlia quer direcionar holofotes ao movimento

O Brasil tem aproximadamente 3 milhões de “Anas”, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas, desde a última quarta-feira, 26, o composto Ana Júlia só faz pensar em uma: Ana Júlia Ribeiro, aluna do segundo ano do ensino médio do Colégio Estadual Senador Manuel Alencar Guimarães (Cesmag), em Curitiba.

Ela ficou conhecida pelo discurso que fez na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) em nome dos estudantes secundaristas que ocupam as escolas do Estado desde o início do mês (veja abaixo). Menina de poucas palavras na entrevista, Ana Júlia, de 16 anos, mostrou eloquência no plenário. “Só preparei uma lista de tópicos e fui falando sobre cada um”, disse ao Estado.

O discurso emocionado, de dez minutos, foi feito olhos nos olhos com os deputados estaduais. No que foi uma de suas primeiras experiências ativas na política, ela foi convidada a dar o contraponto à fala do movimento Desocupa Paraná, que havia participado da sessão do dia anterior.

“Na minha escola não tem nem grêmio estudantil. Mas fui convidada para falar e aceitei. Pensei: ‘Por que não?’.”

Apesar de não ter feito parte de nenhuma organização de estudantes anteriormente, a adolescente, que defende a formação crítica dos jovens, sempre estudou política.

“De um tempo para cá, eu me interesso mais ainda. E, claro, a minha família me deu muito apoio. Eu falava que gostava de política, e eles me incentivaram a estudar mais sobre isso.”

Os pais de Ana Júlia dormiram algumas noites na ocupação e, assim como a família de outros alunos, levam refeições às escolas.

Reforma do ensino médio

A “gota d’água” que motivou a adolescente a se envolver mais ativamente com a luta pelos direitos dos estudantes foi a medida provisória que institui a reformulação do ensino médio.

“A gente sabe que precisa de uma reforma no ensino médio, no sistema educacional como um todo. Mas a gente precisa de uma reforma que tenha sido debatida, uma reforma que tenha sido conversada”, disse no discurso.

E conversa e pluralidade parecem ser pontos centrais para Ana Júlia. Ela ainda não tem certeza de onde pretende atuar, mas já decidiu que, no fim do ano que vem, vai prestar vestibular para Direito. “Quero trabalhar com direitos humanos”, contou.

A garota, que virou notícia até na revista norte-americana Forbes, deixa claro que não quer se destacar individualmente. “É importante lembrar que o movimento é apartidário, e nós estamos aqui por uma causa, que é a educação. A nossa única bandeira é a educação. O movimento é de todos os estudantes. A gente está aqui, a gente está junto.”

Estadao